
A decisão do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de convocar uma cúpula com líderes latino-americanos para o dia 7 de março de 2026, em Doral, nas proximidades de Miami, sem incluir o presidente Lula da Silva, não é um gesto protocolar. É um recado político direto. Em um encontro que reunirá nomes como Javier Milei, Nayib Bukele, Santiago Peña, Daniel Noboa e Tito Asfura, além de outros líderes da região, o Brasil ficou de fora. E isso, goste-se ou não, tem consequências geopolíticas e simbólicas.
A pauta do encontro é clara: formar uma aliança para afastar a América Latina da influência da China, negar a Pequim acesso privilegiado a recursos naturais e rotas marítimas estratégicas, reforçar o combate ao crime organizado e ao narcotráfico e discutir a nova tarifa global de 15% anunciada por Washington. Também entram na mesa investigações comerciais com base na chamada Seção 301, instrumento tradicional da política comercial americana que pode atingir inclusive o sistema brasileiro de pagamentos instantâneos, o Pix.
A exclusão de Lula não ocorreu por acaso. Enquanto Trump reorganiza seu entorno hemisférico com governos alinhados ideologicamente à direita e com discurso de enfrentamento à China, o Palácio do Planalto mantém a linha de que Pequim é parceiro comercial indispensável. De fato, a China é hoje o principal destino das exportações brasileiras, especialmente de commodities agrícolas e minerais. O problema não está no comércio em si, mas na ausência de uma estratégia clara de equilíbrio geopolítico. Ao apostar quase exclusivamente na retórica do Sul Global e na aproximação política com regimes antidemocráticos, o governo brasileiro parece ter subestimado o custo diplomático de se afastar pragmaticamente de Washington.
O resultado é um Brasil ausente de uma mesa onde se discute o futuro estratégico da região. Não se trata de simpatia por Trump ou por qualquer outro líder estrangeiro. Trata-se de constatar que, quando o maior país da América Latina não é chamado para discutir segurança regional, comércio e influência global, algo está errado com sua inserção internacional.
Pela lateral
Internamente, o episódio reflete um sentimento já perceptível em parcelas crescentes da população: o de que o Brasil perdeu protagonismo, previsibilidade e capacidade de liderança. A diplomacia brasileira, historicamente reconhecida por seu pragmatismo e habilidade de diálogo com diferentes blocos, hoje parece excessivamente ideologizada. Em vez de servir como ponte entre interesses divergentes, corre o risco de transformar o país em peça lateral em um tabuleiro que se reorganiza rapidamente.

A cúpula na Flórida sinaliza a tentativa de Washington de reconstruir sua influência na América Latina por meio de um bloco político alinhado. Pode-se criticar o viés ideológico da iniciativa, mas é inegável que ela representa movimento estratégico. Enquanto isso, o Brasil assiste de fora, apostando que sua relevância econômica falará por si. Nem sempre fala.
Desalento
A esperança de grande parte da população brasileira, porém, não está em aderir automaticamente a um ou outro polo global. Está em reaver uma democracia institucionalmente sólida, com segurança jurídica, responsabilidade fiscal e políticas públicas eficazes. Está em retomar o desenvolvimento sustentado, gerar empregos, recuperar a qualidade da educação e devolver previsibilidade à economia. Está, sobretudo, em reconstruir a credibilidade interna e externa.
Na América Latina, povos cansados de ciclos de populismo, autoritarismo e estagnação econômica começam a demandar reformas estruturais e estabilidade. O Brasil, pelo seu tamanho e peso econômico, poderia liderar esse movimento com equilíbrio, defendendo seus interesses sem isolamento, dialogando com Washington, Pequim e Bruxelas com a mesma firmeza e autonomia.
O episódio da exclusão pode ser interpretado como constrangimento diplomático, mas também como alerta. Países não são convidados por tradição ou tamanho, e sim por relevância estratégica percebida. Se o Brasil quiser voltar ao centro das decisões regionais, precisará menos de discursos e mais de resultados. Menos de alinhamentos automáticos e mais de pragmatismo.
A democracia brasileira se mostra cada vez mais tensionada, quase em vida vegetativa. A sociedade civil é ativa, parte da imprensa questiona, o eleitor observa. O desejo de desenvolvimento e estabilidade não desapareceu. Ao contrário, cresce à medida que o país sente os efeitos de decisões que parecem afastá-lo dos grandes debates globais. A exclusão de uma cúpula pode ser um episódio. A recuperação do protagonismo, se houver, dependerá de escolhas estruturais. E essas, inevitavelmente, passam pela capacidade de colocar o interesse nacional acima de preferências ideológicas.


