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quinta-feira, março 12, 2026

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A sina nordestina

Marcos Machado

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Em 1959, o jornalista Antônio Carlos Callado percorreu o Nordeste e publicou uma série de reportagens que desmontavam uma narrativa conveniente: a de que a miséria regional era fruto exclusivo da seca, da geografia ingrata ou do destino. Callado mostrou que a pobreza era, antes de tudo, um mecanismo de poder. Elites políticas e latifundiários lucravam com a escassez, controlavam o acesso à água, ao crédito e à terra, e mantinham a população sob dependência estrutural. Mais de meio século depois, a paisagem mudou menos do que se supõe.

Desde a Proclamação da República, em 1889, o Nordeste tem sido palco de promessas redentoras. A transposição do Rio São Francisco já era discutida no Império como solução hidráulica para mitigar os efeitos das estiagens cíclicas. A reforma agrária ganhou corpo após a Abolição, quando se imaginava que libertar sem integrar produziria um exército de despossuídos. Ambos os projetos atravessaram décadas como bandeiras políticas, ora empunhadas, ora arquivadas, conforme as conveniências do poder central e regional.

A transposição teve as obras iniciadas em 2007 e inauguradas parcialmente anos depois. Custou mais do que o previsto, enfrentou paralisações e denúncias. A água que chegou a alguns municípios, e depois foi cortada, não desmantelou a engrenagem histórica que transforma escassez em capital político. O controle da distribuição, a intermediação local e a dependência de infraestrutura complementar mantêm a lógica de subordinação. Muda-se o canal, preserva-se a engrenagem.

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No campo social, os instrumentos também se sofisticaram. O antigo “pé de bota” dos coronéis, símbolo do mando direto e da coerção explícita, foi substituído por mecanismos institucionais de transferência de renda. Programas como o Bolsa Família foram criados. Mas também é insuficiente ignorar que a dependência prolongada de auxílios, sem transformação estrutural da base produtiva regional, pode cristalizar uma nova forma de vinculação política.

O vale-gás substitui o favor do armazém. A cesta básica institucionaliza o que antes era moeda eleitoral informal. O benefício social, quando não acompanhado de educação de qualidade, infraestrutura robusta e ambiente favorável ao empreendedorismo, corre o risco de funcionar como anestesia cíclica. Alivia a dor imediata, mas não elimina a causa da enfermidade estrutural.

O Nordeste continua apresentando alguns dos piores indicadores de desenvolvimento humano do país. Avaliações nacionais e internacionais revelam defasagens persistentes na escolaridade média. A informalidade no mercado de trabalho permanece elevada, limitando arrecadação, previdência e estabilidade econômica. A dependência de transferências federais compõe parcela significativa da renda de milhões de famílias.

Nada disso decorre de incapacidade cultural ou fatalismo climático. Trata-se de escolhas políticas acumuladas ao longo de mais de um século. A concentração fundiária nunca foi plenamente enfrentada. A industrialização regional ocorreu de forma pontual e dependente de incentivos fiscais descontínuos. Grandes obras foram anunciadas como redenção, mas raramente integradas a um projeto consistente de desenvolvimento regional sustentável.

A engrenagem descrita por Callado não desapareceu; ela se adaptou. Sai o coronel clássico, entra o gestor de orçamento. Sai o curral eleitoral explícito, entra a engenharia social mediada por cadastros e aplicativos. O princípio, contudo, permanece inquietantemente semelhante: quem controla o fluxo de recursos controla a lealdade política de populações inteiras.

A pergunta que atravessa gerações é: por que projetos concebidos ainda no Império demoraram mais de um século para sair do papel, e por que reformas estruturais continuam sendo adiadas? A resposta não pode ser reduzida à incompetência administrativa. Há, historicamente, incentivos perversos na manutenção de bolsões de vulnerabilidade. A miséria organizada produz dividendos eleitorais, legitima lideranças salvacionistas e sustenta redes de poder local.

Romper essa sina exige mais do que programas compensatórios. Requer investimento maciço e contínuo em educação básica de qualidade, segurança jurídica para pequenos e médios produtores, crédito acessível, infraestrutura logística eficiente e descentralização produtiva real. Exige, sobretudo, que o Nordeste deixe de ser tratado como reserva estratégica de votos e passe a ser encarado como polo pleno de desenvolvimento humano e econômico.

Qualquer semelhança entre o diagnóstico de 1959 e o retrato atual não é coincidência histórica. É resultado de uma estratégia de poder que atravessou impérios, repúblicas, ditaduras e redemocratizações. Enquanto a pobreza for funcional para a perpetuação de grupos políticos, ela encontrará novos nomes, novos programas e novas justificativas.

A sina nordestina não é geográfica, é política. E, por isso mesmo, pode ser revertida desde que se tenha coragem de desmontar os mecanismos que, há mais de um século, transformam carência em instrumento de dominação.

*Jornalista profissional diplomado, editor do portal Do Plenário, escritor, psicanalista, cientista político ocasional autoproclamado, analista sensorial, enófilo, adesguiano, consultor de conjunturas e cidadão brasileiro protegido (ou não) pela Constituição Brasileira, observador crítico da linguagem e da liberdade

 

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