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terça-feira, julho 14, 2026

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País do futuro ficou no passado: produtividade recua 70 anos

O Brasil voltou a conviver com um problema que parecia pertencer ao passado. Dados do think tank Conference Board mostram que a produtividade do trabalho no país recuou cerca de 18,5% desde 1980, retornando a um patamar estatístico semelhante ao observado em 1958. Em outras palavras, cada hora trabalhada hoje gera relativamente menos riqueza do que há mais de quatro décadas, um sinal claro de que a economia brasileira perdeu capacidade de produzir mais com os mesmos recursos.

A produtividade do trabalho mede o valor gerado por hora trabalhada e é um dos principais indicadores do potencial de crescimento de um país. Economias desenvolvidas ampliam a renda da população porque conseguem produzir cada vez mais utilizando a mesma quantidade de mão de obra. No Brasil ocorreu o contrário. Enquanto grande parte do mundo avançou impulsionada pela automação, digitalização e inovação tecnológica, o crescimento econômico brasileiro ocorreu principalmente pela expansão da força de trabalho proporcionada pelo bônus demográfico, e não por ganhos reais de eficiência.

Esse modelo se esgota justamente quando a população começa a envelhecer. A desaceleração do crescimento populacional e a futura estabilização da população em idade ativa eliminam a principal fonte de expansão econômica utilizada nas últimas décadas. Sem trabalhadores adicionais para sustentar o crescimento do PIB, o único caminho para elevar a renda e manter o dinamismo econômico será aumentar a produtividade.

Os números ajudam a dimensionar o atraso. Segundo levantamento da Organização Internacional do Trabalho (OIT), o Brasil ocupa apenas a 94ª posição entre 184 países em produtividade do trabalho. Cada trabalhador brasileiro produz, em média, US$ 21,20 por hora, muito abaixo de países vizinhos como Uruguai, com US$ 38 por hora, e Argentina, com US$ 33,80.

A distância em relação às economias mais desenvolvidas permanece praticamente inalterada há mais de sete décadas. Desde 1950, a produtividade média brasileira corresponde a cerca de apenas 25% da registrada nos Estados Unidos. Isso significa que o enorme avanço tecnológico ocorrido no mundo nas últimas décadas praticamente não foi convertido em ganhos de eficiência na economia nacional.

Tecnologia não resolve

A popularização de computadores, smartphones, internet de alta velocidade e inteligência artificial não foi suficiente para elevar a produtividade brasileira. Especialistas do FGV IBRE observam que a tecnologia disponível ao trabalhador produz resultados limitados quando inserida em um ambiente econômico ineficiente.

Entre os principais obstáculos estão a infraestrutura precária, os elevados custos logísticos, a deficiência do sistema de transportes, energia cara, insegurança jurídica, excesso de burocracia e um dos sistemas tributários mais complexos do mundo. Esses fatores aumentam custos, reduzem investimentos e desviam recursos que poderiam ser destinados à inovação.

Outro gargalo é a qualificação profissional. A formação técnica e tecnológica não acompanha a velocidade das transformações do mercado de trabalho. Ao mesmo tempo, o investimento em máquinas modernas, pesquisa, desenvolvimento e inovação permanece baixo quando comparado ao de países concorrentes.

Perda de competitividade

A deterioração da produtividade aparece de forma especialmente intensa na indústria de transformação. Dados do FGV IBRE mostram que a produtividade por hora trabalhada no setor acumulou queda de 23% de 1995 a 2024. As fábricas brasileiras voltaram a operar com níveis médios de eficiência semelhantes aos registrados em 2009.

O problema não está na indústria extrativa, cuja forte inserção internacional e elevado investimento tecnológico mantêm padrões mais elevados de produtividade. A dificuldade se concentra justamente nas atividades que agregam maior valor à economia, transformando matérias-primas em bens industriais, equipamentos, máquinas e produtos de maior conteúdo tecnológico.

A perda de competitividade atingiu cadeias produtivas inteiras, reduzindo investimentos e limitando a geração de empregos de maior qualificação. Setores tradicionais, como o automotivo e o de autopeças, enfrentaram sucessivas quedas de produção, em alguns períodos próximas de 8,7%, enquanto adiam projetos de modernização diante do ambiente econômico desfavorável.

Pesquisas da Confederação Nacional da Indústria (CNI) mostram que, em determinados períodos recentes, o número de horas trabalhadas cresceu mais rapidamente do que a produção física. As empresas passaram a utilizar mais mão de obra para produzir praticamente a mesma quantidade de bens, fenômeno que reduz automaticamente a produtividade.

As elevadas taxas de juros agravam esse quadro. Além de encarecerem o crédito para consumidores, dificultam o financiamento de equipamentos para a automatização de linhas de produção e projetos de modernização industrial. O resultado é um ciclo de baixa competitividade e crescimento reduzido.

Como consequência desse processo, a participação da indústria de transformação no Produto Interno Bruto (PIB) caiu de 16% para cerca de 9% nas últimas décadas. Trata-se de um dos indicadores mais evidentes da desindustrialização brasileira e da perda de capacidade de competir em setores de maior valor agregado.

Agronegócio segue caminho oposto

Em contraste com a média da economia, o agronegócio se tornou um dos principais exemplos de aumento consistente da produtividade. O setor incorporou biotecnologia, mecanização, agricultura de precisão, genética, irrigação inteligente e pesquisa científica, tornando-se altamente competitivo no mercado internacional.

A exposição permanente à concorrência global e a necessidade de ganhar eficiência para competir sem forte proteção tarifária estimularam ganhos expressivos de produtividade. O desempenho do setor demonstra que, quando existem investimentos, inovação e ambiente favorável à produção, a economia brasileira é capaz de alcançar padrões internacionais de eficiência.

O desafio do futuro

Durante décadas, o Brasil sustentou parte de seu crescimento econômico simplesmente ampliando o número de trabalhadores disponíveis. Esse ciclo chegou ao fim. O envelhecimento da população reduz o bônus demográfico e torna inevitável uma nova estratégia de desenvolvimento baseada no aumento da produtividade.

Sem reformas estruturais voltadas à simplificação tributária, redução da burocracia, melhoria da infraestrutura, fortalecimento do ensino técnico, estímulo à inovação, segurança jurídica e ampliação dos investimentos produtivos, a economia tende a crescer cada vez menos.

A estagnação da produtividade explica boa parte do baixo crescimento da renda, da perda de competitividade internacional, da desindustrialização e da dificuldade do país em oferecer empregos mais qualificados e salários mais elevados. O antigo slogan do “país do futuro” cede lugar a uma realidade preocupante: em vez de avançar para uma economia baseada em inovação e eficiência, o Brasil vê seus indicadores de produtividade retornarem aos níveis observados há quase sete décadas, comprometendo seu potencial de crescimento justamente quando o mundo acelera a transição para uma economia cada vez mais intensiva em conhecimento e tecnologia.

O país do futuro ficou no passado, e está cada vez mais difícil sair dele.

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