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terça-feira, julho 21, 2026

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EUA mudam as regras do jogo global

Tarifas cruzadas, restrições tecnológicas e discursos cada vez mais protecionistas têm marcado a relação entre Estados Unidos e China nos últimos anos. Em meio a esse cenário, um estudo acadêmico propõe uma inversão do senso comum: seriam os próprios Estados Unidos, e não a China, a potência que está de fato revisando as regras da ordem internacional.

De acordo com uma investigação partilhada pela revista Qualis A Open Minds (propriedade do CPAH, o Centro de Pesquisa e Análises Heráclito, sob gestão técnica da Editora Atena), a análise é assinada por Vinicius dos Santos Santana, mestrando do Programa de Pós Graduação em Geografia da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro.

Potência revisionista

O termo costuma ser usado para descrever países que buscam alterar o funcionamento do sistema internacional em seu próprio favor. No debate público, a expressão quase sempre recai sobre a China, cuja ascensão econômica e tecnológica tem sido tratada por analistas ocidentais como uma ameaça ao equilíbrio de poder estabelecido depois da Guerra Fria. O estudo, no entanto, sustenta que os próprios Estados Unidos passaram a desafiar os pilares da ordem liberal que ajudaram a construir, sobretudo a partir da política de reorientação estratégica para a Ásia lançada durante o governo Obama, e intensificada pela guerra comercial iniciada no governo Trump.

Paradoxo americano

Segundo o autor, existe algo paradoxal no comportamento recente de Washington: o país que ergueu e sustentou por décadas as instituições da globalização, como a Organização Mundial do Comércio, é hoje o mesmo que adota uma postura cada vez mais isolacionista, com relações internacionais construídas cada vez mais sobre acordos bilaterais em vez de arranjos multilaterais. Documentos oficiais de defesa, citados na pesquisa, tratam abertamente a disputa entre grandes potências como o princípio organizador da estratégia de segurança nacional dos Estados Unidos.

O estudo lista alguns dos episódios que, segundo o autor, comprovam essa guinada:

* A política de reorientação para a Ásia lançada pelo governo Obama, em resposta à crise financeira de 2008 e ao crescimento chinês

* A guerra comercial iniciada pelo governo Trump, com tarifas ampliadas sobre produtos chineses

* A adoção da doutrina de disputa entre grandes potências como eixo da estratégia de segurança nacional de 2017

* O discurso de proteção do mercado interno e repatriação da indústria nacional, resumido no lema América em primeiro lugar

China

O estudo também reconhece que a China revisa ativamente seu próprio papel no sistema internacional, mas por um caminho distinto. O país teria abandonado a estratégia conhecida como manter um perfil discreto, adotada desde a abertura econômica de Deng Xiaoping, para buscar autonomia tecnológica por meio de planos quinquenais e da política de dupla circulação, que combina fortalecimento do mercado interno com manutenção do papel de grande exportador global. A expansão de influência também passa por projetos de infraestrutura como a Nova Rota da Seda, que amplia laços comerciais e diplomáticos com dezenas de países.

Transições de poder

Apoiado em autores da tradição realista das relações internacionais, como John Mearsheimer, e em pensadores críticos, como José Luís Fiori, o estudo conclui que o conflito é um elemento praticamente inerente aos momentos de transição hegemônica. A potência dominante, argumenta o autor, tende sempre a recriar a ordem internacional para preservar seu próprio status, o que ajuda a explicar por que Washington estaria disposto a abrir mão de princípios que ele mesmo consolidou ao longo do século vinte.

O debate ganha urgência num momento em que guerras comerciais, sanções econômicas e disputas por tecnologias de ponta, como inteligência artificial e semicondutores, ocupam cada vez mais espaço no noticiário internacional, com efeitos diretos sobre cadeias produtivas e economias em todo o mundo, inclusive fora do eixo direto da disputa entre as duas potências.

Para o autor, o resultado dessa disputa aponta para um período prolongado de instabilidade e de competição entre grandes blocos econômicos, num sistema internacional em que a estabilidade nunca foi, de fato, permanente.

(Erre Soares – MF Press Global)

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