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sexta-feira, agosto 21, 2026

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O Brasil está, está, está quebrado

Marcos Machado

Quem se lembra de Armando Volta, o impagável personagem interpretado por David Pinheiro na Escolinha do Professor Raimundo? O sujeito era especialista em escapar das perguntas difíceis, enrolar o professor e, quando a situação apertava, tentar resolver tudo com um agrado. Seu bordão mais famoso, “Sambarilove”, virou uma espécie de senha nacional para a malandragem cordial, aquela tentativa de transformar problema sério em brincadeira e, se possível, sair pela tangente. O personagem era ficção. O método, infelizmente, parece ter atravessado a televisão e encontrado morada na vida real. Afinal, o país bateu recorde de empresas inadimplentes, endividadas e sem perspectiva de evolução. Mas para os especialistas de plantão: sambarilove!

Hoje, diante de uma economia que acumula sinais de deterioração, há sempre quem desempenhe o papel de Armando Volta: olha para os números, faz uma cara de quem não entendeu a pergunta e tenta convencer o professor e a plateia de que está tudo bem. Sambarilove. Só que desta vez a conta não é de televisão. E não há agrado capaz de convencer o credor a esquecer o vencimento.

O Brasil não está literalmente falido, mas os indicadores de empresas inadimplentes revelam uma economia submetida a um aperto financeiro que já deixou de ser episódio isolado para se transformar em problema estrutural. Em junho, o país ultrapassou a marca de 9,1 milhões de CNPJs negativados, o maior número desde o início da série histórica da Serasa Experian, em 2016.

E não é pouca coisa. Essas empresas acumulavam R$ 232,9 bilhões em dívidas em atraso, também o maior volume registrado pela série. Na comparação com junho de 2025, o número de empresas inadimplentes cresceu 16,67%. Cada CNPJ negativado carregava, em média, 7,3 contas em atraso, totalizando uma dívida média de R$ 25.508,96 por empresa.

Traduzindo do economês para o português que o cidadão comum entende: milhões de empresas estão tentando sobreviver com o caixa estrangulado, crédito caro, vendas mais fracas e contas vencendo. É a velha equação em que o dinheiro entra devagar, sai depressa e os juros ficam encarregados de acelerar a diferença.

O problema também tem endereço certo. As micro e pequenas empresas respondem por aproximadamente 95% dos CNPJs negativados, com 8,6 milhões de negócios nessa situação. Sozinhas, elas acumulam R$ 201,4 bilhões em dívidas e quase 60 milhões de registros de débitos. E são elas as responsáveis por cerca de 80% dos empregos no país. O resto é autoexplicativo: como é que, em uma circunstância dessas, o desemprego caiu?

São justamente os pequenos negócios, aqueles que costumam aparecer nos discursos oficiais como heróis do empreendedorismo, que estão carregando boa parte do peso da crise. Na propaganda, o pequeno empresário é chamado de empreendedor. Na prática, quando a conta vence, vira devedor, negociante, refém do cheque especial empresarial e frequentador compulsório dos escritórios de cobrança.

O setor de serviços concentra 55,7% das empresas inadimplentes, enquanto o comércio responde por 32,2%. Ou seja, a crise não está confinada a uma atividade específica. Ela percorre restaurantes, salões, oficinas, transportadoras, pequenas lojas, prestadores de serviços e uma infinidade de negócios que dependem diariamente de consumidores com algum dinheiro disponível no bolso.

E aí aparece o chamado efeito tesoura. De um lado, os custos permanecem elevados. Do outro, o faturamento perde força. No meio ficam as empresas, espremidas entre despesas, impostos, fornecedores, folha de pagamento, aluguel, energia e juros. Quando o caixa não fecha, recorre-se ao crédito. Quando o crédito fica caro, recorre-se a outro crédito. Quando não há mais crédito, chega a cobrança e, quando chega a cobrança, aparece a Serasa.

É uma espécie de circuito econômico do “Sambarilove”: empurra a dívida para o mês seguinte, parcela o que já foi parcelado, renegocia o que já havia sido renegociado e torce para que alguma coisa melhore antes que a próxima conta vença.

Só que os juros não têm senso de humor.

A própria Serasa Experian aponta que o ambiente de crédito ainda restritivo, combinado com juros elevados e desaceleração da atividade econômica, reduz a capacidade de recomposição do caixa das empresas. A economista-chefe da instituição, Camila Abdelmalack, alertou que muitas companhias continuam enfrentando dificuldades para reorganizar suas dívidas e recuperar o fluxo de caixa.

A deterioração não termina na inadimplência. O número de recuperações judiciais também vem crescendo. Do segundo trimestre de 2023 ao segundo trimestre de 2026, os pedidos aumentaram 65,8%, segundo levantamento recente, num cenário marcado por juros elevados e crédito mais restrito. O agronegócio, o transporte, a logística e o varejo estão entre os setores que mais contribuíram para a alta.

O caso das grandes empresas mostra que o problema não é exclusividade do pequeno comerciante que acorda cedo para abrir a porta. Em agosto, a Casas Bahia pediu recuperação judicial para renegociar uma dívida de R$ 17,3 bilhões, em mais um exemplo de como crédito restrito e custos operacionais podem transformar empresas gigantes em candidatas à reestruturação.

Enquanto isso, a economia oficial costuma ser apresentada por meio de números cuidadosamente escolhidos para produzir a sensação de que tudo está sob controle. É o Brasil da estatística, onde uma planilha pode estar otimista mesmo quando o empresário está olhando para uma pilha de boletos. Sambarilove, é só uma sensação!

Mas há uma diferença entre o número e a vida real.

É preciso também olhar para o outro lado do balcão. Empresas não vendem para planilhas. Vendem para pessoas, e o consumidor brasileiro também está endividado. Em junho, segundo a Serasa, mais de 83 milhões de brasileiros estavam inadimplentes, equivalentes a 50,9% da população adulta, acumulando cerca de R$ 579,5 bilhões em dívidas.

Temos, portanto, um círculo vicioso: o consumidor endividado compra menos; a empresa vende menos; o faturamento cai; o empresário busca crédito; os juros encarecem a dívida; o caixa aperta; a empresa deixa de pagar; a inadimplência aumenta; o crédito fica ainda mais seletivo. E alguém, em algum gabinete, provavelmente olha para tudo isso e conclui que a economia segue resiliente.

Está, está, está…

Só falta combinar com os 9,1 milhões de CNPJs que estão no vermelho.

Está difícil sustentar que esteja tudo normal quando a inadimplência empresarial bate recorde, as dívidas acumuladas alcançam R$ 232,9 bilhões, as pequenas empresas concentram quase todo o problema e os pedidos de recuperação judicial avançam.

A realidade não precisa de bordão. Ela chega sem trilha sonora, sem plateia e sem o professor Raimundo para dar uma segunda chance.

Desta vez, não adianta levar um presentinho, porque o credor já conhece o truque. Sambarilove!

*Jornalista profissional diplomado, editor do portal Do Plenário, escritor, psicanalista, cientista político ocasional autoproclamado, analista sensorial, enófilo, adesguiano, consultor de conjunturas e cidadão brasileiro protegido (ou não) pela Constituição Brasileira, observador crítico da linguagem e da liberdade

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