Marcos Machado
Muitos cristãos recorrem às Escrituras como uma espécie de manual para a vida cotidiana. Outros, embora conheçam passagens e versículos, parecem esquecer que boa parte da Bíblia está ali para ensinar a reconhecer as armadilhas que se apresentam justamente quando as coisas parecem fáceis demais.
Uma das passagens mais eloquentes nesse sentido está no capítulo 4 do Evangelho de Mateus. Jesus é conduzido pelo Espírito ao deserto, jejua durante quarenta dias e quarenta noites e, naturalmente, sente fome. É justamente nesse momento de vulnerabilidade que aparece o benfeitor da ocasião, o grande filantropo do deserto, o primeiro especialista em políticas públicas de emergência: o diabo.
Ele chega cheio de empatia com uma proposta aparentemente irrecusável e oferece proteção sem esforço, poder, riqueza e os reinos do mundo. Bastaria uma pequena contrapartida. Uma reverência. Um acordo. Uma concessão. Um voto.
Nada muito diferente, em essência, de certas ofertas que aparecem na vida pública de tempos em tempos: não precisa estudar, ou trabalhar tanto; não precisa produzir, ou construir nada. Basta acreditar na promessa, aceitar o benefício e, naturalmente, não fazer perguntas inconvenientes.
O interessante é que a narrativa bíblica não apresenta o diabo como alguém que chega anunciando: “Vim destruí-lo”. Seria uma estratégia comercial bastante ruim. Ele chega oferecendo aquilo que o homem deseja no momento de maior vulnerabilidade.
A tentação não está na aparência do benefício, mas no preço oculto daquilo que parece gratuito.
Talvez devêssemos reler a passagem com a sensibilidade política dos nossos tempos. Quem sabe o diabo não tenha sido apenas mal compreendido? E se fosse um sujeito incompreendido pela imprensa celestial sendo ele um pioneiro da assistência social; um visionário preocupado com a fome e precursor da ideia de que ninguém deveria precisar trabalhar quando alguém pode simplesmente transformar pedras em pão?
Imagine a cena:
“Jesus, meu filho, você está com fome. Para que esse sofrimento? Eu resolvo! Não precisa trabalhar ou plantar. Não precisa esperar, sequer produzir. Eu transformo a pedra em pão.”
Que sujeito prestativo!
Só há uma pequena formalidade…
A Bíblia não chama aquilo de política social, mas de tentação.
Ninguém disse que é para desprezar o pão. Jesus não está dizendo que fome não importa, ao contrário. O problema está em transformar o pão em finalidade absoluta e, sobretudo, aceitar qualquer senhor em troca dele. A diferença é gigantesca. O pão pode alimentar, mas a dependência pode escravizar
Existe uma distinção que frequentemente desaparece no discurso atual: ajudar alguém não é necessariamente torná-lo dependente de quem ajuda. Convencê-lo de que jamais será capaz de caminhar sem o socorro permanente de terceiros é outra coisa. A primeira atitude restaura a dignidade. A segunda pode criar dependência e é justamente aí que a história de John Wesley oferece um contraponto particularmente interessante.
O líder do movimento metodista inglês enxergava a pobreza muito além de uma multidão à espera de benefícios. Sua atuação combinava assistência aos necessitados com educação, disciplina, trabalho, responsabilidade pessoal e solidariedade comunitária.
Wesley viveu em uma Inglaterra marcada por profundas transformações sociais e econômicas e participou da construção de instituições voltadas à formação religiosa e educacional. A escola de Kingswood, associada a Wesley e aberta em sua forma ampliada em 1748, foi uma das marcas dessa preocupação com a educação. Registros históricos indicam que a iniciativa original estava relacionada também aos filhos de mineiros de carvão, embora posteriormente tenha atendido outros grupos ligados ao movimento metodista.
A diferença é enorme. De um lado, a solução mágica: transformar pedras em pão; de outro, a solução trabalhosa: ensinar, formar, produzir e criar condições para que o indivíduo caminhe com as próprias pernas. Talvez seja exatamente por isso que a segunda seja mais difícil.
Wesley e a ética
Há uma frase de Wesley que se encaixa nessa discussão e cuja atribuição é documentalmente muito mais segura: “Ganhe tudo o que puder, economize tudo o que puder, doe tudo o que puder.” Ela aparece associada ao sermão The Use of Money, no qual Wesley desenvolve sua visão sobre o uso moral dos recursos. A própria Igreja Metodista Unida identifica essa fórmula como síntese de seu ensinamento sobre dinheiro.
Observe a lógica: Ganhar. Economizar. Doar.
O dinheiro é apresentado como instrumento, e o trabalho produtivo como parte de uma vida responsável. Wesley não pregava simplesmente “dê dinheiro ao pobre”. A lógica era muito mais exigente: produza, não desperdice e utilize aquilo que possui para fazer o bem.
É uma concepção bastante diferente daquela que transforma o pobre em cliente permanente de quem distribui benefícios.
A escravidão
A escravidão moderna nem sempre precisa de correntes, pode vir na forma de dependência econômica e disfarçada de benevolência. Pode chegar acompanhada de discursos sobre proteção, inclusão e justiça social, e embrulhada em uma promessa aparentemente irresistível: “Você não precisa se preocupar com isso. Nós resolvemos para você.”
O problema começa quando a ajuda deixa de ser ponte, de ser instrumento de emergência e passa a substituir a perspectiva de autonomia. Quando o indivíduo deixa de ser preparado para caminhar e passa a ser treinado para esperar, e quando esperar se transforma em modo de vida.
Há uma passagem de Paulo que oferece um contraponto brutalmente direto à cultura da dependência: “Se alguém não quer trabalhar, também não coma.” (2 Tessalonicenses 3:10).
Não é uma sentença contra quem não pode trabalhar, e sim uma advertência contra quem não quer trabalhar. A diferença entre incapacidade e falta de disposição é fundamental.
O próprio Paulo, em outro momento, recomenda que o cristão trabalhe e procure viver honestamente: “a fim de que andeis dignamente para com os que estão de fora e não dependais de ninguém” (1 Tessalonicenses 4:12).
E Provérbios já advertia, séculos antes, contra a preguiça e suas consequências: “Vá ter com a formiga, ó preguiçoso; considera os seus caminhos e sê sábio.” (Provérbios 6:6).
A Bíblia, portanto, não apresenta o trabalho como uma punição social destinada aos desafortunados. Ele aparece associado à responsabilidade, à provisão, à dignidade e à autonomia.
Conhecimento liberta
O pão mata a fome de hoje, mas o conhecimento pode impedir a fome de amanhã. Por isso que a educação ocupa lugar tão importante na tradição cristã de ação social. Wesley percebeu isso e investiu em escolas e formação. A ideia não era simplesmente produzir indivíduos obedientes ao sistema, mas formar pessoas capazes de ler, pensar, trabalhar e participar da comunidade.
Isso é inclusão de verdade. Não a inclusão que declara o indivíduo incapaz e, depois, oferece a ele uma esmola política, mas aquela que lhe entrega ferramentas. Porque há uma forma particularmente perversa de pobreza: aquela em que se tira do indivíduo justamente a possibilidade de deixar de ser pobre.
É muito conveniente manter alguém permanentemente necessitado, porque o necessitado agradece e o independente questiona. É nesse ponto que a tentação do deserto deixa de ser apenas uma história religiosa e passa a ser uma metáfora extraordinariamente atual.
O diabo não precisa parecer mau. Talvez essa seja a parte mais desconfortável da narrativa. Ele não precisa aparecer com chifres, tridente e capa vermelha. Aliás, se aparecesse assim, ninguém cairia na conversa. Basta parecer razoável e oferecer uma solução para uma necessidade real, no momento certo e dizer aquilo que o faminto quer ouvir.
Especialmente, precisa fazer com que o preço pareça insignificante diante do benefício, até que a pessoa descubra que aquilo que parecia um presente era, na verdade, uma coleira.
Jesus percebeu a armadilha, não porque desprezasse o pão, mas porque compreendia que há coisas que não podem ser compradas com aquilo que parece necessário. O pão não vale a alma, a liberdade ou a dignidade.
A caridade cristã não deveria produzir uma multidão eternamente devedora da bondade de alguém. Deveria, sempre que possível, restaurar a capacidade de o indivíduo viver dignamente.
O assistencialismo permanente pode produzir gratidão, enquanto a educação gera independência. O favor cria devedores, e o conhecimento forma cidadãos. A esmola resolve o dia, mas o trabalho constrói a vida.
E talvez seja por isso que a promessa do pão fácil seja tão sedutora. Porque trabalhar exige esforço. Estudar impõe disciplina. Produzir intui responsabilidade. Economizar estabelece renúncia. Construir demora tempo.
Eis a pergunta que permanece, dois milênios depois:
O diabo só quis ajudar?
Claro que não!
Talvez ele apenas tenha entendido, antes de muita gente, que a maneira mais eficiente de escravizar alguém não é tirar-lhe tudo, mas oferecer tudo aquilo de que ele precisa, desde que nunca mais consiga viver sem.
*Jornalista profissional diplomado, editor do portal Do Plenário, escritor, psicanalista, cientista político ocasional autoproclamado, analista sensorial, enófilo, adesguiano, consultor de conjunturas e cidadão brasileiro protegido (ou não) pela Constituição Brasileira, observador crítico da linguagem e da liberdade


