29.5 C
Brasília
sábado, outubro 31, 2026

ANUNCIE

Tecnologia versus bravata

Marcos Machado

Em 23 de março de 1993, Ben Rich, então ex-diretor da divisão Skunk Works, responsável por projetos aeronáuticos secretos da Lockheed, participou de uma palestra para ex-alunos da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA). A ele são atribuídas declarações que alimentariam, por décadas, especulações sobre o alcance da tecnologia americana.

Uma das frases mais conhecidas, reproduzida em relatos sobre a palestra, afirma: “Nós já temos tecnologia para fazer coisas que você só veria em Star Trek, mas elas estão trancadas em projetos secretos”. “Nós já temos os meios para viajar entre as estrelas, mas essas tecnologias estão trancadas em projetos secretos (black projects). Tudo o que você puder imaginar, nós já sabemos como fazer”.

Outra frase associada a Rich resume essa ideia: “Nós já temos a tecnologia para levar o E.T. de volta para casa”. Isto, há 33 anos.

Rich dirigiu a Skunk Works de 1975 a 1991 e esteve ligado ao desenvolvimento de aeronaves revolucionárias, como o caça furtivo F-117. Ele morreu em 1995 e deixou uma questão intrigante: quanto do conhecimento tecnológico de uma potência permanece restrito a instalações e projetos confidenciais?

Para entender a dimensão desse poder, é preciso examinar outro campo no qual os Estados Unidos acumularam décadas de experiência: a inteligência estratégica.

A lição de Pearl Harbor

O brasileiro médio dificilmente conhece a dimensão dos recursos empregados pela comunidade de inteligência americana. Parte dessa estrutura nasceu de fracassos históricos que obrigaram Washington a rever seus métodos de coleta, análise e compartilhamento de informações.

Em 7 de dezembro de 1941, o ataque japonês à base naval de Pearl Harbor, no Havaí, surpreendeu os Estados Unidos e provocou a entrada do país na Segunda Guerra Mundial. Havia informações e sinais de perigo, mas falhas de coordenação impediram que os dados disponíveis produzissem uma resposta adequada.

O episódio expôs as limitações de um sistema fragmentado, no qual diferentes órgãos militares e civis trabalhavam sem integração suficiente. A reorganização da inteligência americana no pós-guerra foi uma resposta direta a essas deficiências. A lição era clara: informação isolada tem valor limitado. Seu potencial depende da capacidade de fazê-la chegar, a tempo, a quem precisa decidir.

Até que ponto suas convicções foram construídas a partir de fatos — e até que ponto foram moldadas por versões cuidadosamente editadas da realidade? CLIQUE E COMPRE

Se Pearl Harbor marcou uma mudança de época, os atentados de 11 de setembro de 2001, em Nova York e Washington, expuseram novamente as consequências da fragmentação institucional.

Os ataques terroristas de 11 de setembro são frequentemente comparados a Pearl Harbor pela dimensão do impacto e pelas mudanças que provocaram na segurança americana. Nos dois casos, informações relevantes não foram convertidas, a tempo, em uma resposta capaz de impedir a tragédia.

Antes dos atentados, diferentes órgãos americanos haviam reunido dados sobre integrantes da rede terrorista Al-Qaeda e possíveis ameaças, mas falhas de coordenação e obstáculos burocráticos comprometeram a avaliação conjunta dos indícios.

América Latina no radar

A América Latina também integra esse cenário. A crescente presença econômica e tecnológica da China, a atuação da Rússia e a instabilidade política em países como Venezuela, Nicarágua, Cuba e Brasil despertam o interesse estratégico de Washington. O Brasil, por seu peso econômico e posição regional.

Entre as preocupações americanas estão os investimentos estrangeiros em infraestrutura considerada estratégica, como portos e instalações de rastreamento espacial. A questão é avaliar possíveis usos duais e implicações para a segurança nacional.

Poder versus bravata

Em 1993, enquanto Ben Rich fazia revelações sobre tecnologias que pareciam pertencer à ficção científica, o Brasil retomava a produção do Fusca, interrompida em 1986. A comparação é simbólica, mas ilustra a distância entre países que investem sistematicamente em pesquisa de ponta e aqueles que ainda enfrentam dificuldades para transformar conhecimento em capacidade tecnológica.

Mais de três décadas depois, essa diferença não pode ser medida apenas por satélites ou supercomputadores. Ela aparece na capacidade de produzir tecnologia própria, proteger infraestruturas estratégicas, antecipar riscos e formular políticas de Estado que sobrevivam às disputas eleitorais.

A dominação atinge a linguagem e a Língua. Clique e compre.

É nesse contexto que deve ser avaliada a deterioração das relações entre Brasil e Estados Unidos, em meio às controvérsias sobre o processo eleitoral brasileiro e à insistência de setores do governo em adotar um discurso de confronto com Washington. Suspeitas e acusações precisam ser examinadas com base em dados reais, e não convertidas automaticamente em narrativa política. Da mesma forma, divergências diplomáticas exigem prudência e avaliação realista das consequências.

Uma potência com a capacidade tecnológica e estratégica dos Estados Unidos não precisa recorrer à exibição pública de força para preservar seus interesses. Dispõe de instrumentos tecnológicos e de inteligência cujo alcance nem sempre é visível.

O Brasil não ganha relevância internacional elevando o tom das declarações. Ganha quando desenvolve tecnologia, fortalece suas instituições, protege seus interesses e negocia com conhecimento das próprias limitações e das capacidades alheias.

A história de Pearl Harbor demonstrou que ignorar informações pode custar caro. A trajetória da inteligência americana mostra que até os maiores fracassos podem impulsionar mudanças estruturais. E as advertências associadas a Ben Rich, independentemente das controvérsias sobre algumas de suas frases, remetem a uma realidade incontestável: o conhecimento tecnológico constitui uma das bases do poder.

Na geopolítica, bravata não substitui capacidade. Desconhecer a força do interlocutor não torna um país mais soberano, apenas reduz sua margem de escolha.

Tecnologicamente, os EUA estão para “Star Trek” como o Brasil para “Planeta dos Macacos”. A extração de Flávio Bolsonaro foi só um aperitivo. Entraram no quintal, pegaram o que queriam, ninguém ouviu, ou viu, e a cachorrada sequer latiu.

Vida longa e próspera!

*Jornalista profissional diplomado, editor do portal Do Plenário, escritor, psicanalista, cientista político ocasional autoproclamado, analista sensorial, enófilo, adesguiano, consultor de conjunturas e cidadão brasileiro protegido (ou não) pela Constituição Brasileira, observador crítico da linguagem e da liberdade

relacionados

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Fique conectado

667FãsCurtir
756SeguidoresSeguir
338SeguidoresSeguir
- Publicidade -
- Publicidade -spot_img

Últimos artigos