Marcos Machado
Em 1984, George Orwell alerta para os perigos do totalitarismo e da manipulação da verdade. O poder absoluto, mostra o autor, não se contenta em controlar comportamentos: pretende dominar o pensamento e destruir a própria noção de realidade objetiva.
- “Guerra é paz.
- Liberdade é escravidão.
- Ignorância é força.”
Os lemas do “Grande Irmão”, ou big brother, em inglês, continuam atuais. A obra de Orwell oferece uma chave para compreender como ideologias e os meios de comunicação podem contribuir para a degradação do pensamento crítico e para a submissão intelectual de uma sociedade.
A expressão estupidez social não significa incapacidade intelectual coletiva, mas a deterioração das condições necessárias ao julgamento racional: examinar evidências, reconhecer contradições, rever convicções e distinguir conhecimento de propaganda.
Nunca tivemos tanto acesso à informação. Paradoxalmente, isso não significa que estejamos mais preparados para compreendê-la. A repetição de narrativas produz uma perigosa ilusão de conhecimento. Saber repetir uma palavra de ordem, afinal, é bem mais fácil do que compreender o assunto. Então, surge a figura do ‘papagaio ideológico’.
A pós-verdade não elimina os fatos, mas subordina sua importância às crenças e aos interesses políticos. Selecionam-se informações que confirmam convicções e se descartam as que as contrariam. A contradição passa a ser um inconveniente a esconder.
É o terreno fértil para o “duplipensar” de Orwell: aceitar ideias contraditórias sem sentir a necessidade de conciliá-las. Condena-se a firmeza do adversário e se justifica o autoritarismo do aliado; exige-se transparência dos outros e se tolera a opacidade dos próprios representantes. A coerência se torna uma exigência reservada aos adversários.
Quando essa postura é recompensada socialmente e reproduzida por instituições influentes, a irracionalidade adquire aparência de mérito, sendo desnecessário imaginar uma conspiração centralizada. A estupidez social pode resultar da convergência entre interesses econômicos, conveniências políticas, conformismo institucional e hábitos coletivos.
No Brasil, às vésperas do segundo turno da eleição presidencial, continuam a reverberar slogans ideológicos que resistem às evidências históricas e às contradições de seus próprios defensores. O fenômeno chama ainda mais a atenção quando parte de segmentos que se apresentam como intelectualmente privilegiados. A escolaridade, como se vê, não constitui vacina contra o dogmatismo.
Controle da realidade
Em 1984, Orwell retrata os mecanismos de um regime totalitário, inspirado especialmente nas experiências do stalinismo. O Grande Irmão simboliza o poder que pretende controlar e moldar a vida dos cidadãos.

As teletelas (televisão/smartphone) permitem a vigilância permanente, enquanto o Ministério da Verdade altera documentos e registros históricos para impedir que o passado desminta o Partido. A verdade passa a ser aquilo que o poder determina. Este tipo de manipulação retrato no livro ‘Monopólio da Verdade’.
A Novilíngua completa o mecanismo ao reduzir o vocabulário e eliminar palavras capazes de expressar determinados conceitos, estreitando os limites do pensamento. Quanto menos recursos linguísticos o indivíduo possui para identificar e descrever uma injustiça, mais difícil se torna questioná-la. Esse processo passa, por exemplo, pela eliminação de tempos verbais e a massiva repetição nos meios de comunicação e entretenimento. Retrato essa realidade brasileira no livro ‘Quem matou o Português?‘.
O controle vai além da repressão física. Seu objetivo é quebrar a resistência psicológica, como ocorre com Winston Smith, até que o indivíduo aceite absurdos como a afirmação de que dois mais dois são cinco.
Orwell adverte sobre o que pode acontecer quando a verdade, a linguagem, a liberdade de pensamento são sacrificadas em nome do poder.
Indústria cultural
Outra referência importante para compreender a formação da passividade social é a Escola de Frankfurt, especialmente as análises de Theodor Adorno e Max Horkheimer sobre a indústria cultural que, no Brasil, está para o entretenimento.

Associados ao Instituto de Pesquisa Social, fundado em Frankfurt em 1923, esses pensadores desenvolveram a Teoria Crítica para examinar as estruturas de dominação presentes na sociedade moderna. Suas reflexões ultrapassaram a economia e alcançaram a cultura e a comunicação com seus mecanismos psicológicos de conformismo.
Em “Dialética do Esclarecimento”, Adorno e Horkheimer analisaram como a produção cultural (entretenimento) em massa tende a padronizar conteúdos e reduzir o espaço para a reflexão autônoma.
Óbvio que nem todo entretenimento emburrece ou que toda produção cultural obedece a um plano ideológico. O problema surge quando a repetição de fórmulas e a exploração das emoções substituem sistematicamente o exame crítico da realidade.
Aí, a aproximação com Orwell é evidente, embora os autores trabalhem com perspectivas distintas. Enquanto 1984 expõe o controle exercido por um Estado totalitário, a crítica da indústria cultural examina formas de conformismo produzidas pelos meios de comunicação.
No Brasil, as duas abordagens ajudam a interpretar um ambiente em que a abundância de informação convive com a desinformação e a dificuldade de sustentar debates racionais. A informação se tornou abundante. A compreensão, nem tanto.
Perda da função crítica
A universidade deveria constituir uma das principais barreiras contra o dogmatismo. Sua função é ensinar a investigar, questionar, confrontar hipóteses e submeter ideias à evidência, independentemente de sua origem ou popularidade.
Quando ambientes acadêmicos se fecham em correntes ideológicas e tratam determinadas interpretações como verdades incontestáveis, comprometem a própria razão de existir. A crítica, que deveria ser método, transforma-se em instrumento de vigilância ideológica; a divergência, em suspeita de desvio moral.
A universidade abdica da prerrogativa do ensinar a pensar se, ao mesmo tempo, determina antecipadamente o que deve ser pensado.
Generalizações também são uma forma de preguiça intelectual, ainda que venham acompanhadas de citações bibliográficas.
Conceitos viram slogans
A circulação de conceitos acadêmicos no debate público pode enriquecer a discussão. O problema começa quando ideias complexas são reduzidas a palavras de ordem para interditar questionamentos. Os três lemas do Partido em 1984 ajudam a ilustrar esse mecanismo.
“Guerra é paz” – Em 1984, a guerra permanente serve para manter o controle interno e justificar a concentração de poder. A crítica a uma ideia é confundida com um ataque à pessoa que a defende. O adversário deixa de ser alguém com quem se debate para se tornar alguém que precisa ser silenciado. O cancelamento pode, assim, surgir como defesa do diálogo, desde que ninguém tenha a inconveniência de discordar.
“Liberdade é escravidão” – O conceito de lugar de fala pode contribuir para compreender como experiências sociais distintas influenciam a percepção da realidade. Quando essa ferramenta analítica é convertida em proibição de questionar, como se apenas integrantes de determinado grupo pudessem discutir assuntos que o envolvem, surge um impasse.
A experiência pessoal merece consideração, mas não torna ninguém infalível nem dispensa argumentos e evidências.
“Ignorância é força” – O domínio de um vocabulário especializado pode ser útil, mas não equivale, por si só, a conhecimento. Quando o emprego de determinados termos se transforma em teste de fidelidade ideológica, a linguagem deixa de servir à compreensão e passa a funcionar como senha de pertencimento.
O resultado é uma inversão curiosa: pessoas podem demonstrar grande familiaridade com o vocabulário político da moda e, ao mesmo tempo, revelar pouca disposição para examinar dados de economia, educação, saneamento ou segurança pública. Sentem-se intelectualmente superiores porque dominam as palavras autorizadas, mesmo quando não conseguem sustentar o argumento que elas deveriam expressar.
Aqui entra o efeito Dunning-Kruger, um viés cognitivo em que pessoas com pouco conhecimento ou habilidade em uma área tendem a superestimar sua própria competência.
A ignorância não decorre necessariamente da falta de acesso à informação, mas da recusa em submeter as próprias convicções ao teste da realidade. É a versão do cidadão que se considera esclarecido porque aprendeu a repetir corretamente as palavras de ordem.
Alienação como sistema
O ciclo se fecha quando a simplificação promovida pela comunicação de massa encontra ambientes institucionais pouco tolerantes à divergência. As redes sociais distribuem slogans em escala; determinados espaços acadêmicos podem lhes dar aparência de autoridade; e grupos politicamente mobilizados os reproduzem como certezas inquestionáveis.
A convergência abdica de um comando central e sequer demonstra a existência de um plano único de estupidização social. Seus efeitos podem ser semelhantes: empobrecimento da linguagem, intolerância à divergência, perda da capacidade de avaliar evidências, submissão do julgamento individual à pressão do grupo etc..
Aqui, a advertência de Orwell ganha força. Em 1984, o cidadão é vigiado pelo poder e aprende a vigiar os outros. Ele acaba reproduzindo a lógica que o oprime.
O indivíduo acredita que exerce seu senso crítico quando, na realidade, apenas reproduz a opinião autorizada por sua bolha.
A lição de Orwell permanece atual: o poder mais eficiente é aquele que consegue fazer as pessoas confundirem repetição com conhecimento e submissão com liberdade.
Uma sociedade intelectualmente livre é aquela em que ninguém precisa abdicar da razão para pertencer a um grupo. Recuperar essa liberdade exige universidades comprometidas com o pensamento crítico, meios de comunicação dispostos a confrontar suas próprias narrativas e cidadãos capazes de desconfiar, inclusive, das ideias que mais lhes agradam.
Quando pensar se torna inconveniente e repetir passa a ser mérito, o “Grande Irmão” já não precisa estar em toda parte. Seus vigilantes estão entre nós, e alguns ainda se orgulham de trabalhar de graça para ele.
NR: A Escola de Frankfurt é uma corrente de teoria social e filosofia fundada na Alemanha em 1923, associada ao Instituto para Pesquisa Social da Universidade de Frankfurt. O grupo reuniu pensadores marxistas dissidentes que buscavam rever a análise da sociedade capitalista, afastando-se do marxismo ortodoxo e dos partidos comunistas da época. Conceito criado por Theodor Adorno e Max Horkheimer descreve como a cultura e o entretenimento (rádio, cinema, música e televisão) passaram a ser produzidos em série com o objetivo de padronizar comportamentos e alienar a população formando cidadãos passivos. No Brasil, esse processo foi intensificado a partir dos anos 1980, adulterando, especialmente, a linguagem e a percepção sobre moral e respeito às tradições, ampliando o desvituamento da chamada “base educacional”. O resultado hoje é uma população com apenas 10% de alfabetizados plenos, e 30% de analfabetos funcionais, com reflexos indiscutíveis na vida em sociedade e exercício democrático.
*Jornalista profissional diplomado, editor do portal Do Plenário, escritor, psicanalista, cientista político ocasional autoproclamado, analista sensorial, enófilo, adesguiano, consultor de conjunturas e cidadão brasileiro protegido (ou não) pela Constituição Brasileira, observador crítico da linguagem e da liberdade


