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quarta-feira, outubro 21, 2026

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O objetivo é só o poder

Marcos Machado

Em A Revolução dos Bichos (1945), que acabei de ler, George Orwell expõe uma das contradições mais perversas da política: revoluções que prometem liberdade e igualdade podem terminar reproduzindo a opressão que alegavam combater. Socialista democrático, Orwell não atacava apenas o autoritarismo em abstrato, mas a degeneração dos ideais socialistas sob regimes totalitários, como o de Josef Stalin. Seu alvo era a tirania com roupa de libertação.

A obra se sustenta em três advertências fundamentais: a traição dos ideais revolucionários pelo totalitarismo, a necessidade de vigilância democrática e os mecanismos de manipulação utilizados para conquistar e conservar o poder. No fim das contas, as massas são seduzidas por promessas e conduzidas por discursos que pouco têm a ver com a realidade. Como dizia um personagem da Escolinha do Professor Raimundo: “O povo é só um detalhe!”

A narrativa é uma alegoria satírica da Revolução Russa de 1917 e de seus desdobramentos sob a ditadura stalinista. Os animais se rebelam contra a exploração humana, acreditando que construirão uma sociedade mais justa. Entretanto, os porcos, que assumem a liderança, transformam-se progressivamente em uma nova classe dominante. Em vez de abolir os privilégios, apropriam-se deles e aperfeiçoam os instrumentos de opressão, em vez de elimina-los.

A “revolução” é sequestrada por aqueles que descobrem no discurso revolucionário uma ferramenta eficiente para alcançar seus objetivos. A libertação coletiva se converte em instrumento de dominação, enquanto a igualdade permanece como slogan para consumo das massas. O objetivo sempre foi o poder, nada mais.

Orwell também demonstra que nenhuma sociedade permanece livre quando seus cidadãos renunciam à capacidade de pensar, questionar, fiscalizar os governantes, cobrar transparência, exigir austeridade. A obediência cega, a ignorância política, a passividade coletiva, a apatia aos desmandos e violações criam o ambiente ideal para o autoritarismo. Quando a população deixa de confrontar o discurso oficial com os fatos, o poder passa a estabelecer as regras e os limites daquilo que pode ser contestado.

Nesse terreno, a manipulação da linguagem e da verdade se torna decisiva. Na fazenda de Orwell, os porcos (líderes) alteram gradualmente os Sete Mandamentos, adaptando as regras aos próprios interesses. O que antes era proibido passa a ser permitido; o privilégio de poucos é apresentado como necessidade coletiva; e a contradição entre discurso e prática é encoberta por sucessivas revisões da realidade.

A síntese dessa fraude política está na célebre sentença: “Todos os animais são iguais, mas alguns animais são mais iguais do que os outros”. A igualdade, que deveria limitar o poder, vira justificativa para os privilégios de quem o exerce. A ironia de Orwell atravessa gerações porque expõe uma lógica recorrente: os que se apresentam como defensores do povo podem acabar convencidos de que estão acima dele. Qualquer semelhança com a realidade não é mera coincidência.

A propaganda estatal é outro instrumento essencial dessa engrenagem. Na fazenda, os fatos são distorcidos, os resultados são apresentados de maneira conveniente com as dificuldades sendo justificadas por discursos que exigem dos animais novos sacrifícios. A escassez deixa de ser questionada como possível consequência da incompetência ou dos privilégios da liderança e passa a ser tratada como uma provação necessária. A propaganda impede que o fracasso seja atribuído aos responsáveis.

O ciclo se completa com a repressão aos dissidentes e a fabricação de inimigos. Os cães ferozes, treinados para proteger Napoleão, representam a força empregada para silenciar qualquer contestação. Bola-de-Neve, expulso da fazenda e associado à figura histórica de Leon Trotsky, converte-se no culpado conveniente por praticamente todos os problemas. A transferência de responsabilidade permite que os dirigentes preservem sua autoridade sem prestar contas de suas decisões.

Esse mecanismo é tão antigo quanto a própria disputa pelo poder. Quando faltam resultados, inventam-se culpados. Quando os fatos contrariam o discurso, questiona-se quem os apresenta. Quando surgem críticas, atribuem-se intenções ocultas aos críticos. Quando as promessas não se cumprem, exigem-se mais sacrifícios daqueles que já pagam a conta. Visualizou o Brasil? Pois é, aqui parece a Fazenda dos Bichos (Animal Farm), mas prossigamos…

Décadas depois de sua publicação, A Revolução dos Bichos continua atual porque não trata apenas de Stalin, da União Soviética ou de uma experiência histórica específica. Orwell descreve comportamentos que podem reaparecer sob diferentes regimes e ideologias. O autoritarismo se alimenta da concentração de poder, da manipulação da informação, da desmobilização crítica, da disposição dos governantes de colocar a própria sobrevivência política acima dos interesses da sociedade. Não depende exclusivamente de uma doutrina.

No Brasil, a transformação de narrativas políticas em verdades incontestáveis e a tolerância seletiva diante de abusos de poder são sinais de um ambiente no qual a fidelidade ideológica pode se sobrepor à análise dos fatos. Mantras políticos substituem argumentos e os adversários são tratados como inimigos da nação.

Instituições e liberdades não se preservam pela confiança cega em líderes, mas pela vigilância permanente sobre aqueles que exercem o poder. A questão central não está em quem proclama defender a igualdade, mas em quem aceita se submeter às mesmas regras que impõe aos demais, e que respeita os limites da democracia e o direito de discordar.

A história de Orwell ensina que o maior perigo surge quando a sociedade passa a confundir os interesses de seus governantes com os interesses da nação, porque ela deixa de ser o destinatário das decisões e se torna apenas o instrumento de sua legitimação.

Quando a ideologia serve para justificar qualquer abuso e a verdade se torna inconveniente, resta pouca coisa dos ideais proclamados no início da jornada.

Os discursos podem mudar e as bandeiras podem ser trocadas, mas se tudo é sacrificado para conservar o comando, a conclusão é de que o objetivo nunca foi o povo. O objetivo sempre só foi o poder.

Mais tarde escreverei sobre 1984, do mesmo autor, que também acabei de ler.

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