Marcos Machado
Em 10 de dezembro de 1986, ao receber o Prêmio Nobel da Paz, em Oslo, na Noruega, o escritor e sobrevivente do Holocausto Elie Wiesel proferiu uma advertência: “We must always take sides. Neutrality helps the oppressor, never the victim. Silence encourages the tormentor, never the tormented.” Em bom Português: “Devemos sempre tomar partido. A neutralidade ajuda o opressor, nunca a vítima. O silêncio encoraja o atormentador, nunca o atormentado.”
A história mostra que o mal prospera quando encontra silêncio, medo, conveniência e, sobretudo, pessoas que poderiam detê-lo, mas preferem só observar.
Wiesel falava a partir da experiência de quem havia conhecido o resultado extremo da indiferença humana. Sobreviveu aos campos de concentração nazistas e passou o restante da vida advertindo que o esquecimento e a indiferença podem ser tão perigosos quanto a própria violência quando permitem que ela avance sem resistência.
A ideia é muito anterior a Wiesel.
A frase segundo a qual “para o triunfo do mal basta que os bons homens não façam nada” é frequentemente atribuída a Edmund Burke, embora não exista evidência segura de que Burke tenha escrito ou pronunciado exatamente dessa forma. A ideia se tornou, ainda assim, uma síntese poderosa de um princípio que atravessa séculos: o mal não depende apenas daqueles que o praticam. Depende daqueles que poderiam impedir seu avanço mas escolhem permanecer imóveis.
É essa questão que a história do nazismo continua a colocar diante de nós: o mal não precisa de milhões de cúmplices. O regime nazista transformou a Alemanha em uma ditadura com a destruição progressiva das instituições democráticas, pela perseguição política, pela propaganda enganosa (fake news), pela exclusão de grupos considerados inimigos e, posteriormente, pelo extermínio sistemático de milhões de pessoas.
O Holocausto não foi obra de um único homem ou produzido exclusivamente por uma pequena confraria de fanáticos escondidos em algum subterrâneo do poder. Houve funcionários, burocratas, policiais, militares, empresários, colaboradores e cidadãos comuns envolvidos, em diferentes graus, na engrenagem de perseguição e extermínio.
E houve também aqueles que não participaram diretamente, mas assistiram ao processo.
É justamente aí que reside uma das perguntas deixadas pela história: quantas coisas poderiam ter sido impedidas antes de se tornarem inevitáveis? E sobre o caso específico do nazismo, não foi por falta de aviso. Pelo contrário.
O questionamento aparece com particular força nas obras que retratam os julgamentos de Nuremberg e os bastidores das avaliações psicológicas dos principais dirigentes nazistas.
“Aconteceu aqui porque deixaram acontecer”
O filme Nuremberg, dirigido por James Vanderbilt e lançado em 2025, inspirado no livro The Nazi and the Psychiatrist, (O nazista e o psiquiatra), de Jack El-Hai, recupera parte dessa história a partir da relação entre o psiquiatra militar americano Douglas Kelley e os réus nazistas. Na produção, Kelley é interpretado por Rami Malek. Ao seu lado está o sargento Howie Triest, interpretado por Leo Woodall.
Triest era um jovem judeu alemão que havia fugido para os Estados Unidos e retornado à Alemanha como integrante do exército americano, trabalhando como intérprete. Seus pais haviam sido mortos em Auschwitz.
Em determinado momento, ao discutir como a Alemanha permitiu que o horror acontecesse, Triest afirma: “It happened here because people let it happen.” Em bom Português: “Aconteceu aqui porque as pessoas deixaram acontecer.”
A frase resume uma das questões centrais do enredo.
Não significa que todos os alemães fossem nazistas, bem menos que todos fossem cúmplices ou que tivessem capacidade real de impedir a máquina estatal, mas que uma sociedade pode permitir que o mal avance por sucessivas concessões, silêncios, omissões e adaptações ao inaceitável.
Primeiro se encanta com o discurso; depois, vem a discriminação. Em seguida, começa a perseguição e a violência. De reprende, aquilo que parecia inimaginável se torna política de Estado.
O que Douglas Kelley descobriu?
O trabalho de Douglas Kelley não se limitou a examinar os crimes cometidos pelos dirigentes nazistas. Ele procurou compreender quem eram aquelas pessoas. Kelley entrevistou e avaliou psicologicamente importantes réus nazistas durante os preparativos para os julgamentos de Nuremberg. Seu trabalho posteriormente foi registrado no livro 22 Cells in Nuremberg, (22 celas em Nuremberg), publicado em 1947.
O resultado de suas observações levou à conclusão de que não era possível simplesmente explicar aqueles homens como monstros psicologicamente incompreensíveis ou como indivíduos acometidos por um distúrbio mental que os tornasse diferentes do restante da humanidade. Era algo bem mais assustador: o perigo podia existir em pessoas aparentemente normais.
Pessoas inteligentes, ambiciosas, disciplinadas e capazes de funcionar socialmente podiam participar de uma estrutura criminosa gigantesca quando encontravam uma combinação de ideologia, oportunidade, poder, burocracia e ausência de resistência suficiente.
Essa constatação destrói a confortável ilusão de que o mal sempre apresenta uma aparência reconhecível. Não apresenta. O mal pode usar terno, falar de forma educada e ocupar um cargo público de relevância. Pode fazer discursos empolgantes pregando o bem coletivo.
“Metade do país”
Outra advertência atribuída a Kelley se tornou reflexo por sua atualidade diante do Brasil nos últimos anos. Em uma das passagens dramatizadas no filme, ele afirma: “There are people who would stomp over the bodies of half the country if it meant they could control the other half.” Em bom Português: “Existem pessoas que passariam por cima dos corpos de metade do país se isso permitisse controlar a outra metade.”
Quando aqueles que possuem autoridade ou capacidade institucional de reação decidem não agir, o espaço para o abuso aumenta. No Brasil, os eventos que se sucederam a partir de 2022 gritam cobrando por essa omissão.
A história ensina que sociedades chegam ao abismo caminhando até ele em pequenos passos. Uma instituição tolera aquilo que deveria combater e outra prefere não se envolver. Um cidadão conclui que não é problema seu, e a autoridade decide esperar.
Um grupo aceita uma exceção porque acredita que ela será aplicada apenas contra seus adversários. Outro grupo comemora porque imagina que, desta vez, o alvo merece, e assim se constrói uma das mais perigosas ilusões políticas: de que o arbítrio será utilizado contra os outros, mas jamais contra nós.
A história mostra que essa garantia é ilusão. Por isso que a advertência de Elie Wiesel permanece tão importante. Há situações em que não agir é também uma escolha de lado, e do lado errado, invariavelmente.
Uma sociedade democrática depende de instituições, leis, devido processo, liberdade de expressão e limites ao poder. Mas essas instituições só funcionam quando aqueles que têm a responsabilidade de fazê-las funcionar cumprem sua obrigação.
Qualquer semelhança com o Brasil?
É aqui que a história deixa de ser apenas história. Obvio que o Brasil não é a Alemanha dos anos 1930. A questão é mais abrangente: será que aprendemos alguma coisa sobre o preço da omissão?
Quando alguém possui poder para impedir um abuso e não o faz, qual é a sua responsabilidade?
Quando uma autoridade presencia uma violação e permanece em silêncio, o silêncio é neutralidade?
Quando instituições destinadas a limitar o poder passam a tolerar aquilo que deveriam fiscalizar, quem fiscaliza os fiscalizadores?
Quando cidadãos deixam de reagir porque acreditam que determinada arbitrariedade atingirá somente seus adversários, o que acontecerá quando o alvo mudar?
São perguntas sem respostas confortáveis…
A história não oferece a ninguém a garantia de que o mal permanecerá eternamente restrito ao lado que hoje consideramos inimigo. A arte imita a vida. E a vida, às vezes, repete a história, especialmente quando ela é ignorada.
Nuremberg é uma obra cinematográfica baseada em acontecimentos e personagens reais, adaptada para o cinema, e coloca diante do espectador o que aconteceu, porque deixaram acontecer.
A advertência de Elie Wiesel continua atual: “O silêncio encoraja o atormentador, nunca o atormentado.” Foi isso o que o Brasil repetiu nos últimos anos por ignorar a história.
E a história de Nuremberg acrescenta uma pergunta que deveria incomodar qualquer sociedade que ainda acredite na liberdade: Se o mal está à espreita, quem terá coragem de impedi-lo quando ainda é possível?
Porque, depois que ele deixa de estar à espreita e passa a controlar as instituições, a pergunta já não será quem deveria ter feito alguma coisa, mas: por que ninguém fez?
NR: Outra produção imperdível sobre esse período sombrio da humanidade é a série documental A Segunda Guerra Mundial com Tom Hanks, que abrange 20 episódios.
*Jornalista profissional diplomado, editor do portal Do Plenário, escritor, psicanalista, cientista político ocasional autoproclamado, analista sensorial, enófilo, adesguiano, consultor de conjunturas e cidadão brasileiro protegido (ou não) pela Constituição Brasileira, observador crítico da linguagem e da liberdade


