O mês de setembro fechou no negativo com 59,2 milhões de famílias endividadas, o equivalente a 177 milhões de brasileiros que enfrentam dificuldades para fechar as contas, enquanto o discurso econômico do governo esbarra no custo de vida e na perda do poder de compra.
Nem mesmo as famílias de maior renda estão conseguindo manter as contas em dia. A inadimplência também avançou entre os brasileiros que recebem mais de dez salários mínimos, passando de 14,9% para 15%. Entre as famílias com renda de até três salários mínimos, a situação é ainda mais grave: 38,5% estão inadimplentes, pressionadas pelo custo de vida, pela inflação dos itens essenciais e pelo uso do cartão de crédito para custear despesas básicas, como alimentação.
Os dados, referentes a setembro de 2026, foram divulgados em 8 de outubro pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), por meio da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic).
O levantamento revela um quadro preocupante para a economia brasileira: 81,7% das famílias têm algum tipo de dívida. Além disso, 12,5% afirmam não ter condições de pagar os compromissos financeiros assumidos, enquanto o tempo médio de atraso nas contas chegou a 65,3 dias.
O cenário expõe uma realidade que contrasta com o discurso de prosperidade econômica frequentemente utilizado pelo governo. Indicadores macroeconômicos favoráveis, quando existentes, não significam necessariamente melhoria concreta na vida da população. Para milhões de brasileiros, o que determina a percepção da economia é a capacidade de pagar as contas, comprar alimentos e chegar ao fim do mês sem recorrer a novos empréstimos.
A situação das famílias de baixa renda é particularmente preocupante. Quando o cartão de crédito deixa de ser utilizado para compras eventuais e passa a financiar supermercado e outras necessidades básicas, o orçamento doméstico entra em uma dinâmica perigosa: juros e atrasos comprometem parte crescente da renda, dificultando a quitação das dívidas e ampliando a dependência do crédito.
O avanço da inadimplência também entre as famílias de maior renda indica que o problema não se restringe aos estratos economicamente mais vulneráveis. Embora a diferença entre as faixas de renda continue expressiva, a deterioração das condições de pagamento sugere que o comprometimento financeiro alcança parcelas mais amplas da sociedade.
Em ano eleitoral, os números impõem um teste de realidade à propaganda governamental. Promessas de aumento da renda, estímulo ao consumo e melhora das condições de vida precisam ser avaliadas pelos resultados efetivamente percebidos pela população, e não apenas pelo discurso oficial. Se o consumo depende cada vez mais do crédito e uma parcela crescente das famílias não consegue honrar seus compromissos, há motivos para questionar a sustentabilidade desse modelo.
O sinal de alerta está na combinação entre o elevado percentual de famílias endividadas, a incapacidade de pagamento e a pressão das despesas essenciais sobre os orçamentos domésticos. A economia não se mede apenas pelos números apresentados em discursos oficiais, mas também pela capacidade de o cidadão pagar suas contas sem comprometer a própria subsistência.


