Marcos Machado
Em 11 de março de 1942, por ordem do presidente norte-americano, Franklin Roosevelt, o general Douglas MacArthur foi extraído da ilha de Corregidor, nas Filipinas, a fim de escapar do cerco imposto pelas forças japonesas durante a Segunda Guerra Mundial. Comandante das forças terrestres americanas no Extremo Oriente, ele recebeu a missão de seguir para a Austrália e assumir o comando das forças aliadas no Sudoeste do Pacífico.
As tropas americanas e filipinas estavam cercadas na península de Bataan e na ilha de Corregidor. O general MacArthur resistiu inicialmente à ordem de partir, pois desejava permanecer no campo de batalha. Roosevelt considerou que a captura ou a morte de um comandante daquela importância representaria uma perda estratégica inaceitável.
A retirada exigiu uma operação de extração, ou resgate, arriscada, dividida em duas etapas. A primeira, organizada pela Marinha dos Estados Unidos, consistiu em romper o bloqueio japonês com lanchas torpedeiras até a ilha de Mindanao. De lá, o grupo seguiria em bombardeiros Boeing B-17 Flying Fortress até a Austrália. Estava em jogo a sobrevivência de um general e a preservação de uma liderança militar considerada essencial para a continuidade da guerra no Pacífico.
O resgate
MacArthur, sua família e um grupo de oficiais foram transportados pelo Esquadrão de Lanchas Torpedeiras 3 (Motor Torpedo Boat Squadron 3), sob o comando do então tenente John Bulkeley, que liderava a operação a bordo da PT-41.

As embarcações percorreram mais de 800 quilômetros (500 milhas) por águas controladas pelos japoneses, enfrentando condições marítimas adversas e o risco permanente de interceptação. Para dimensionar a distância, seria como partir de Brasília pela BR-040 em direção ao Rio de Janeiro e chegar à região de Matias Barbosa, na Zona da Mata mineira, nas proximidades de Juiz de Fora.
Ao alcançar Mindanao, o grupo embarcou em bombardeiros B-17 da Força Aérea do Exército dos Estados Unidos, que completaram o transporte até a Austrália.
A operação exigiu planejamento e discrição. Em uma região dominada pelo inimigo, qualquer erro poderia comprometer a missão e a vida de todos os envolvidos.
Ousadia
A extração de MacArthur se tornou uma das operações de retirada mais conhecidas da História. O plano inicial previa o emprego de um submarino para o resgate, mas a alternativa escolhida foi a utilização das rápidas embarcações do esquadrão comandado por Bulkeley.
O oficial era conhecido por sua personalidade ousada e por seu comportamento pouco convencional. A fama de destemido, somada à disposição para assumir riscos, ajudou a consolidar sua imagem como um dos principais personagens daquela operação.
O planejamento previa navegar durante a escuridão e buscar abrigo em ilhas durante o dia, reduzindo as chances de detecção pelas forças japonesas.

Um dos primeiros obstáculos foi atravessar o campo minado que protegia a entrada da baía de Manila. A navegação noturna exigia precisão e sangue-frio. Depois de superar essa barreira, as embarcações enfrentaram mar agitado e ondas violentas, que castigaram os passageiros e tornaram a travessia ainda mais exaustiva.
Durante o percurso, houve o risco de encontro com navios japoneses. A baixa silhueta das lanchas favorecia a discrição, mas não eliminava o perigo de serem descobertas. O êxito dependia de evitar o combate e alcançar Mindanao sem alertar o inimigo.
Após uma travessia de aproximadamente 36 horas, as embarcações chegaram à região de Cagayan, em Mindanao, na manhã de 13 de março. A etapa marítima estava concluída. Restava o transporte aéreo até a Austrália.
“I shall return”
A promessa que entraria para a história foi feita por MacArthur em 20 de março de 1942, já em território australiano. Ao chegar à estação ferroviária de Terowie, ele falou à imprensa e explicou que deixara as Filipinas por ordem do presidente Roosevelt para organizar a ofensiva contra o Japão e preparar o retorno às ilhas.
A declaração ficou conhecida pela frase “I shall return”, ou “Eu voltarei”.
A promessa se transformou em instrumento de propaganda e símbolo de resistência. A mensagem foi difundida entre os filipinos. Inclusive, foi impressa em panfletos, maços de cigarros e caixas de fósforos que eram lançados por aviões, com o objetivo de manter a esperança da população e estimular a resistência à ocupação japonesa.
Em meio à guerra, a frase transmitia uma mensagem inequívoca: a retirada não significava abandono definitivo, mas uma decisão estratégica para preservar a capacidade de reação.
O retorno
MacArthur cumpriu a promessa em 20 de outubro de 1944, quando desembarcou na ilha de Leyte com as forças aliadas empenhadas na retomada das Filipinas.
Ele falou à população por rádio e anunciou seu retorno:
“Povo das Filipinas, eu retornei! Pela graça de Deus Todo-Poderoso, nossas forças estão novamente em solo filipino, solo consagrado pelo sangue de nossos dois povos.”
A operação de resgate e a posterior retomada das Filipinas consolidaram a imagem de MacArthur como uma das figuras centrais da campanha aliada no Pacífico.
John D. Bulkeley, por sua atuação na guerra, recebeu a Medalha de Honra, a mais alta condecoração militar dos Estados Unidos. A história da retirada também inspirou obras culturais, entre elas o filme Fomos os Sacrificados (They Were Expendable), de 1945, dirigido por John Ford e estrelado por John Wayne.
A operação deixou uma lição sobre a diferença entre preservar uma liderança e abandoná-la, entre uma retirada estratégica e uma rendição definitiva. Em determinadas circunstâncias, retirar alguém de um território hostil pode ser decisivo para que essa pessoa continue exercendo sua função e, no momento oportuno, retorne.
Qualquer semelhança é mera coincidência, mas a História, quando examinada sem conveniências, costuma oferecer respostas para muitas das dúvidas do presente. E, é claro, era uma época de militares de honra, fibra, coragem e amor à pátria.
*Jornalista profissional diplomado, editor do portal Do Plenário, escritor, psicanalista, cientista político ocasional autoproclamado, analista sensorial, enófilo, adesguiano, consultor de conjunturas e cidadão brasileiro protegido (ou não) pela Constituição Brasileira, observador crítico da linguagem e da liberdade


