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sexta-feira, novembro 6, 2026

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O voto e a coerência das escolhas

Marcos Machado

Nas eleições de meio de mandato (midterms) de 2026 nos Estados Unidos (EUA), os estados apresentaram exemplos expressivos de alinhamento partidário nas escolhas eleitorais. Na Flórida, os republicanos conquistaram o governo estadual, com Byron Donalds, e a vaga no Senado Federal, com Ashley Moody. Na representação do estado na Câmara dos Deputados, os republicanos também mantiveram a maioria de forma implacável com 16 cadeiras contra sete dos democratas (até o último boletim divulgado).

Movimento semelhante ocorreu em Michigan, mas em sentido contrário. Os democratas elegeram Jocelyn Benson para o governo estadual, Abdul El-Sayed para o Senado e ampliaram sua presença na Câmara dos Deputados, conquistando nove das 13 cadeiras do estado. Em Minnesota, os democratas também venceram as disputas para o governo estadual, com Amy Klobuchar, e para o Senado, com Peggy Flanagan.

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Esses resultados ajudam a ilustrar um comportamento recorrente nas democracias: a tendência de o eleitor concentrar suas escolhas em candidatos de uma mesma linha de pensamento, associando diferentes cargos públicos a um único projeto político.

Na ciência política e na psicologia comportamental, a decisão de votar em candidatos de uma mesma legenda para diferentes cargos é conhecida como Straight-Ticket Voting, ou voto em linha reta. Quando esse movimento é impulsionado por um candidato de destaque, geralmente no topo da cédula, que atrai votos para os demais integrantes de seu partido, ocorre o chamado Coattail Effect, ou efeito carona.

Longe de representar necessariamente um comportamento de manada irracional, esse fenômeno pode ser compreendido por mecanismos estudados por pesquisadores como Angus Campbell e Samuel Popkin. Para esses cientistas, a identificação partidária (ou ideológica) funciona como um atalho cognitivo, permitindo ao eleitor tomar decisões sem precisar conhecer detalhadamente cada candidato ou suas propostas.

A reputação e o posicionamento de uma liderança partidária passam a servir como referências para deduzir como os demais representantes daquela tendência provavelmente se comportarão. O eleitor transfere parte da confiança depositada em uma liderança para os candidatos que compartilham sua bandeira.

Outro elemento que ajuda a compreender esse comportamento é a Teoria da Dissonância Cognitiva, desenvolvida pelo psicólogo Leon Festinger. Segundo essa teoria, as pessoas tendem a buscar coerência entre suas crenças e decisões, experimentando desconforto psicológico quando percebem contradições entre elas.

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Isso significa que a identificação ideológica exerce influência sobre as decisões do eleitor, levando-o a preferir alternativas que preservem a consistência de suas convicções.

Se um eleitor escolhe candidatos conservadores para o governo estadual, o Senado e a Câmara dos Deputados, é razoável supor que também tenha preferência por um candidato à Presidência da República do mesmo espectro político. A hipótese é uma tendência comportamental que pode ser observada e estudada.

O pesquisador Gary Jacobson, em seus estudos sobre eleições e comportamento político nos Estados Unidos, demonstra como a identificação e a polarização transformaram disputas eleitorais em manifestações de uma mesma divisão política. Cargos locais, estaduais e nacionais deixam de ser percebidos isoladamente e passam a integrar uma disputa mais ampla entre projetos ideológicos.

O voto para o topo da cédula pode consolidar a identificação do indivíduo com determinado grupo político e influenciar suas demais escolhas. É a coerência entre convicções e decisões eleitorais funcionando como elemento de coesão, como disse anteriormente.

A ciência não explica tudo. Ainda assim, é a ferramenta mais confiável de que dispomos para investigar e compreender o funcionamento do universo e o comportamento dos fenômenos. Ela não trabalha com verdades absolutas e imutáveis, mas com evidências, hipóteses, testes e observações, permanentemente sujeitas à revisão.

A ciência descreve os mecanismos pelos quais os fenômenos acontecem, os chamados “comos”, sem necessariamente responder às questões metafísicas sobre sua finalidade ou propósito. Pode explicar como a gravidade atua, por exemplo, mas não determinar o sentido da existência do universo. Há outros grandes enigmas que permanecem sem solução, como a origem da vida, a natureza da consciência etc. São fronteiras do conhecimento humano que continuam desafiando pesquisadores.

O comportamento eleitoral não se insere nesses mistérios indecifráveis. Há estudos, teorias, pesquisas e evidências capazes de ajudar a compreender por que as pessoas votam como votam e de que maneira suas escolhas individuais podem revelar tendências coletivas.

Este breve artigo trata de ciência política e comportamento eleitoral, tomando como referência as eleições norte-americanas de 2026. Mas qualquer coincidência com outros cenários políticos não é mera semelhança.

*Jornalista profissional diplomado, editor do portal Do Plenário, escritor, psicanalista, cientista político ocasional autoproclamado, analista sensorial, enófilo, adesguiano, consultor de conjunturas e cidadão brasileiro protegido (ou não) pela Constituição Brasileira, observador crítico da linguagem e da liberdade

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