Marcos Machado

A estupidez sempre existiu. A diferença é que, nas últimas décadas, ela deixou de ser motivo de constrangimento para se transformar em símbolo de autenticidade. Não se trata apenas das redes sociais, embora elas tenham se tornado o grande palco dessa celebração coletiva da ignorância orgulhosa. O fenômeno é mais profundo, mais institucionalizado e, em certos casos, perigosamente incentivado por figuras públicas que deveriam representar exatamente o oposto.
Quando uma autoridade se vangloria de nunca ter lido um livro, de desprezar o estudo ou de falar “de improviso” sobre qualquer tema, do preço do pão à geopolítica internacional, não estamos diante de espontaneidade popular. Estamos diante da normalização da mediocridade intelectual como virtude política. O sujeito deixa de ser criticado pela falta de preparo e passa a ser admirado por ela. Afinal, para parte do público, pensar demais virou suspeito; estudar virou elitismo; e falar sem saber virou “sinceridade”.
A ciência já explicou esse comportamento há muito tempo. Em 1999, os psicólogos David Dunning e Justin Kruger identificaram o chamado “efeito Dunning-Kruger”, um viés cognitivo em que indivíduos com pouco conhecimento em determinada área tendem a superestimar dramaticamente a própria competência. Em termos simples: quanto menos alguém sabe, menos percebe o quanto ignora.
O problema deixa de ser apenas psicológico quando esse comportamento ganha palanque, microfone, assessoria de imprensa e milhões de seguidores apaixonados. Surge então o estágio mais nocivo do fenômeno: o incompetente confiante. Por não possuir domínio real sobre o assunto, o indivíduo também não possui a capacidade crítica necessária para avaliar a própria limitação. Ele atinge o que muitos estudiosos descrevem informalmente como o “pico da ignorância” — uma zona onde a confiança é máxima e o conhecimento, mínimo.

É o momento em que frases superficiais são tratadas como profundidade filosófica. Em que erros factuais viram “jeito popular de falar”. Em que discursos improvisados substituem planejamento. E em que a verborragia emocional é confundida com liderança.
O aspecto mais preocupante não é apenas a existência dessas figuras, mas o efeito de contágio social que elas produzem. Quando o desprezo pelo conhecimento parte de alguém investido de autoridade, cria-se uma espécie de licença cultural para a ignorância. O cidadão comum passa a acreditar que estudar é desnecessário, que especialistas são inimigos do povo e que qualquer opinião vale tanto quanto fatos verificáveis.
A história oferece exemplos abundantes desse processo. No século XX, regimes autoritários exploraram a simplificação extrema do discurso político para mobilizar massas emocionalmente fatigadas e intelectualmente desarmadas. Adolf Hitler talvez tenha sido o exemplo mais brutal do uso da retórica simplista, repetitiva e emocional como ferramenta de manipulação coletiva. Evidentemente, contextos históricos não são idênticos, mas mecanismos psicológicos de massa continuam assustadoramente semelhantes.
No século XXI, a estupidez ganhou ainda um reforço tecnológico. Algoritmos privilegiam frases rápidas, indignação instantânea e respostas simplificadas para problemas complexos. O sujeito que grita mais alto costuma receber mais atenção do que aquele que argumenta melhor. A consequência é uma sociedade cada vez mais emocional e menos racional, onde o debate público se aproxima perigosamente de um espetáculo de torcida organizada.
Nesse ambiente, figuras públicas que exibem orgulho da própria falta de preparo encontram terreno fértil. Quanto mais improvisam, mais parecem “gente comum”. Quanto mais erram, mais seus admiradores os defendem dizendo que “falam a língua do povo”. E assim a incompetência vai sendo reembalada como virtude democrática.
Felizmente, há sinais de desgaste desse modelo. A realidade costuma ser cruel com narrativas sustentadas apenas por carisma e slogans. Economia, educação, segurança e administração pública não funcionam na base do improviso permanente. Em algum momento, a conta chega — e ela raramente aceita desculpas emocionais como forma de pagamento.
Talvez o maior desafio não seja combater a ignorância em si, porque ela sempre existirá, mas impedir que ela continue sendo promovida como qualidade moral. Uma sociedade que passa a admirar a própria falta de conhecimento dificilmente consegue construir prosperidade, pensamento crítico ou maturidade institucional.
E quando a estupidez deixa de ser acidente para virar projeto cultural, o problema já não é apenas intelectual.
Jornalista profissional diplomado, editor do portal Do Plenário, escritor, psicanalista, cientista político ocasional autoproclamado, analista sensorial, enófilo, adesguiano, consultor de conjunturas e cidadão brasileiro protegido (ou não) pela Constituição Brasileira, observador crítico da linguagem e da liberdade



