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sexta-feira, maio 15, 2026

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A massa é burra!

Marcos Machado

A frase “a massa é burra” não nasceu exatamente da boca de Nelson Rodrigues, embora ele tenha deixado uma contribuição igualmente célebre ao debate sobre comportamento coletivo: “Toda unanimidade é burra”. A essência das duas ideias caminha na mesma direção — a de que indivíduos razoavelmente inteligentes, quando mergulhados na dinâmica emocional das multidões, tornam-se capazes de abandonar a razão com espantosa rapidez. Não por falta de capacidade cognitiva, mas por preguiça intelectual e necessidade quase patológica de pertencimento.

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O fenômeno social não é novo. Platão já distinguia a doxa —achismo — da episteme — opinião por conhecimento fundamentado. Ele alertava que a democracia corria o risco permanente de ser sequestrada por discursos emocionais capazes de seduzir multidões despreparadas para o exercício do pensamento crítico. Séculos depois, regimes totalitários compreenderam perfeitamente esse mecanismo e o aplicaram. Não por acaso, propaganda, slogans simplistas, repetição exaustiva de palavras de ordem e fabricação de inimigos públicos se tornaram instrumentos centrais de manipulação política.

É justamente esse processo que o livro Monopólio da Verdade aborda ao analisar a forma como a informação deixou de ser apenas transmitida para passar a ser cuidadosamente editada, enquadrada, emocionalmente direcionada. A obra explica como determinados grupos políticos, setores da imprensa e agentes de influência passaram a disputar não apenas versões dos fatos, mas o próprio direito de definir o que pode ou não ser considerado verdade aceitável no debate público. Na era da histeria digital permanente, controlar a narrativa vale mais do que compreender os acontecimentos.

O Brasil atual parece ter elevado essa lógica à categoria de copa do mundo de futebol. O escândalo da semana substitui o da semana anterior com a velocidade de um vídeo curto em rede social. A indignação coletiva já não exige contexto, prudência, análise ou verificação; basta um recorte conveniente, um título alarmista e meia dúzia de comentaristas histéricos para que a execução pública comece. Primeiro a condenação. Depois, talvez, os fatos. Se ainda houver interesse neles.

Até que ponto suas convicções foram construídas a partir de fatos — e até que ponto foram moldadas por versões cuidadosamente editadas da realidade? CLIQUE E COMPRE

A mais recente crise envolvendo Flávio Bolsonaro e o banqueiro Daniel Vorcaro ilustra perfeitamente esse mecanismo. Um suposto pedido de patrocínio para um filme sobre Jair Bolsonaro foi suficiente para desencadear uma tempestade emocional previsível. Não importam nuances, circunstâncias, legalidade do ato ou sequer a existência concreta de irregularidade. A simples associação nominal já basta para acionar o tribunal popular digital, sempre faminto por linchamentos simbólicos instantâneos.

A engrenagem funciona de maneira quase científica. Pinça-se um detalhe estrategicamente selecionado. Amplifica-se o aspecto emocional. Omitem-se contextos inconvenientes. Multiplicam-se interpretações insinuativas. E pronto: nasce o factoide perfeito. A mídia militante, setores políticos interessados e exércitos digitais fazem o resto. A “massa”, naturalmente, entra em campo como figurante obediente, repetindo slogans e indignações pré-fabricadas com a convicção de quem acredita ter chegado sozinho às próprias conclusões.

O mais curioso é que boa parte dessas pessoas se considera profundamente crítica. São indivíduos incapazes de perceber que reagem exatamente como desejam aqueles que manipulam a narrativa: por impulso e por aversão ao raciocínio complexo. Afinal, pensar exige esforço. Julgar instantaneamente dá menos trabalho e ainda oferece a confortável sensação de superioridade moral.

Essa histeria coletiva faz lembrar um episódio ocorrido em uma cidade brasileira cujo nome omitirei para preservação dos envolvidos — até porque a história se repete em praticamente qualquer lugar do país. Um padre organizava uma tradicional festa religiosa, dessas que mobilizam comunidades inteiras, atraem visitantes, movimentam a economia local e dependem inevitavelmente de doações e patrocínios para acontecer. Empresários, comerciantes e políticos contribuíam financeiramente para o evento, como ocorre em milhares de iniciativas semelhantes espalhadas pelo Brasil.

Entre os doadores estava um político local que, tempos depois, acabou envolvido em um escândalo de corrupção. Descobriu-se então que parte do dinheiro utilizado em sua doação tinha origem ilícita. Bastou isso para a multidão transformar o padre em cúmplice moral do esquema. Quase faltou erguerem tochas e forcados na praça pública. A turba moderna, embora menos medieval na estética, continua medieval na mentalidade. Apenas substituiu as fogueiras pelas hashtags.

O detalhe inconveniente — e, portanto, ignorado — era simples: quando recebeu a doação, o padre não tinha qualquer conhecimento de irregularidades envolvendo o político. Não havia denúncia pública, investigação conhecida ou suspeita formal que justificasse recusar a contribuição. O dinheiro chegou como doação aparentemente legítima para um evento comunitário legítimo.

Qual era, afinal, sua culpa objetiva? Nenhuma.

A irracionalidade coletiva não trabalha com objetividade. Ela opera com associação emocional automática. Se o sujeito “A” se tornou vilão, qualquer pessoa que tenha apertado sua mão nos últimos dez anos passa automaticamente a ser tratada como cúmplice potencial. É a lógica infantil da contaminação moral: tocou no impuro, tornou-se impuro também.

Naturalmente, depois da revelação do escândalo, qualquer relação futura com aquele político deveria ser vista sob outro prisma. Isso é racionalidade elementar. O problema é transformar relações pretéritas (passadas, para quem não sabe o que é pretérita), ocorridas sem conhecimento de irregularidades, em prova retroativa de cumplicidade. Essa inversão lógica talvez seja uma das maiores especialidades do tribunal emocional contemporâneo.

Em Monopólio da Verdade, essa dinâmica aparece como uma das características centrais da manipulação informacional moderna: não se destrói necessariamente alguém por meio de provas concretas, mas pela repetição massiva de associações emocionais cuidadosamente construídas. O objetivo não é esclarecer, mas induzir percepções. Não se pretende formar cidadãos críticos, bastam consumidores obedientes de narrativas prontas.

É exatamente aí que a frase ganha sentido. A “massa” não é burra porque lhe falte inteligência individual. Ela se torna burra porque abdica voluntariamente da razão quando absorvida pelo comportamento coletivo. O indivíduo pensa; a multidão reage. O indivíduo pondera; a multidão sentencia. O indivíduo busca fatos; a multidão busca satisfação emocional.

Até que ponto suas convicções foram construídas a partir de fatos — e até que ponto foram moldadas por versões cuidadosamente editadas da realidade? CLIQUE E COMPRE

Outro exemplo vem à memória. Há mais de dois mil anos, episódio semelhante ocorreu — e aqui não se faz qualquer comparação entre as figuras públicas atualmente envolvidas. Evidentemente, não é disso que se trata. A analogia se refere única e exclusivamente ao comportamento das massas quando manipuladas emocionalmente por narrativas cuidadosamente construídas.

Sem internet, sem redes sociais, sem comentaristas de plantão, ou rodas de conversa na televisão, uma multidão enfurecida foi conduzida por lideranças político-religiosas que distorceram fatos, e insuflaram emoções ao transformarem um julgamento em espetáculo coletivo. Bastou que vozes influentes lançassem acusações e alimentassem o clamor popular para que a racionalidade desaparecesse por completo.

O mecanismo, no fundo, permanece exatamente o mesmo até hoje: repete-se uma narrativa, estimula-se a indignação, elimina-se o contexto e entrega-se à multidão um inimigo conveniente.

E então veio o grito da turba:

“Crucifica-o! Crucifica-o!”

*Jornalista profissional diplomado, editor do portal Do Plenário, escritor, psicanalista, cientista político ocasional autoproclamado, analista sensorial, enófilo, adesguiano, consultor de conjunturas e cidadão brasileiro protegido (ou não) pela Constituição Brasileira, observador crítico da linguagem e da liberdade

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