Marcos Machado

O que responder a uma pessoa que, após assistir ao filme Oppenheimer, afirma de maneira categórica: “que filme horrível, não entendi nada”?
A reação, embora comum, revela mais sobre a expectativa do espectador do que sobre a obra em si. O longa Oppenheimer, dirigido por Christopher Nolan, não é entretenimento ligeiro. Trata-se de um drama biográfico histórico que exige do público algum conhecimento prévio da primeira metade do Século XX e, sobretudo, interesse pela dinâmica geopolítica que moldou o maior conflito da história humana.
Compreender o filme implica entender o que a Segunda Guerra Mundial representou em termos de crueldade organizada, ideologias totalitárias e extermínio em escala industrial. Implica reconhecer que o avanço científico daquele período não ocorreu em laboratórios isolados da realidade, mas sob pressão extrema de governos que temiam perder a corrida armamentista. O Projeto Manhattan nasceu desse temor concreto: a possibilidade de que o regime nazista desenvolvesse primeiro a bomba atômica.
À frente do Laboratório de Los Alamos estava Julius Robert Oppenheimer, físico brilhante, complexo, dividido entre o fascínio científico e o peso moral de suas descobertas. O filme é longo, denso e profundamente introspectivo. Não se limita à física nuclear. Explora as manipulações políticas, as disputas de poder em Washington, as pressões militares sobre a ciência e os conflitos pessoais que acompanharam o desenvolvimento da arma que pôs fim à guerra contra regimes tirânicos que tentavam dominar o mundo.
Regimes tirânicos não se dissolvem por apelos retóricos
O teste Trinity, realizado em 16 de julho de 1945 no Novo México, marcou a primeira detonação nuclear da história. Ao testemunhar a explosão, Oppenheimer recordou uma passagem do Bhagavad Gita, texto sagrado do hinduísmo. Na narrativa original, o deus Vishnu revela sua forma divina ao príncipe Arjuna e declara ser o tempo que tudo consome, o destruidor de mundos. Ao citar a frase, Oppenheimer não estava fazendo poesia. Expressava a consciência de que o mundo havia mudado para sempre. A humanidade passava a deter um poder capaz de aniquilar a si própria.
Depois das bombas lançadas sobre Hiroshima e Nagasaki, Oppenheimer afirmou sentir que tinha sangue nas mãos. A glória científica deu lugar ao conflito moral. O homem que ajudara a encerrar a guerra percebeu que havia inaugurado uma era de terror nuclear. A corrida armamentista da Guerra Fria apenas confirmou esse temor.
…a contenção do mal por vezes exige força
O que fica como mensagem de fundo, e que o filme sugere com sobriedade, mas pouco percebida, é uma constatação incômoda: o mal não cede simplesmente diante de discursos inflamados, propostas de trégua ou declarações idealistas. Regimes tirânicos, ou o mal encarnado em governos, não se dissolvem por apelos retóricos. A própria Escritura reconhece a dureza dessa realidade. Em Romanos 13:4, afirma-se que a autoridade não porta a espada em vão, sendo instrumento para conter o mal. Não se trata de glorificar a violência, mas de reconhecer que, em um mundo marcado pelo pecado, a contenção do mal por vezes exige força. E só a força pode contê-lo.

A ideia central permanece: o mal só recua diante de algo maior do que ele. Enquanto o bem não se mostra mais forte e mais determinado, o mal avança e faz estragos. A bomba atômica surge, nesse contexto, como um remédio amargo. Não é virtude, não é motivo de celebração, mas instrumento extremo diante de uma ameaça igualmente extrema.
…o bem será constantemente desafiado a decidir até onde está disposto a ir
Oppenheimer personifica essa tensão. Cientista e humanista, patriota e crítico do próprio governo, símbolo de vitória e, ao mesmo tempo, de culpa. Sua frase reverbera como advertência permanente. A capacidade de destruição existe. A questão é como e quando ela deve ser utilizada.
Certamente o filme não é “horrível”, ele apenas exige do espectador o esforço de encarar um dos períodos mais sombrios e decisivos da história humana. Entendê-lo é aceitar que o Século XX não foi simples, nem moralmente confortável. E que, enquanto houver tirania, o bem será constantemente desafiado a decidir até onde está disposto a ir para contê-la.
*Jornalista profissional diplomado, editor do portal Do Plenário, escritor, psicanalista, cientista político ocasional autoproclamado, analista sensorial, enófilo, adesguiano, consultor de conjunturas e cidadão brasileiro protegido (ou não) pela Constituição Brasileira, observador crítico da linguagem e da liberdade


