Marcos Machado

Que o chamado “setor cultural” brasileiro — frequentemente mais preocupado em entreter com mensagem do que em entreter de fato — atravessa uma fase de baixa qualidade já não é surpresa. Nos últimos anos, a insistência em produções carregadas de viés ideológico tem encontrado um público cada vez menos disposto a aplaudir. Seja por uma mudança na percepção de uma sociedade majoritariamente conservadora, seja pela simples ausência de critérios artísticos consistentes, o resultado tem sido uma sequência de obras que não conseguem se sustentar nem pela proposta, nem pela execução.
O mais recente exemplo desse descompasso é o filme “O agente secreto”, incluído pela revista britânica Far Out Magazine em uma lista dos “títulos de filmes mais enganadores da história”. A classificação não veio por acaso. A crítica internacional apontou a gritante discrepância entre o que o título promete e o que o filme entrega. Em vez de um thriller de espionagem — algo que remeteria naturalmente ao imaginário popular de produções como 007 ou Missão Impossível — o público se depara com um drama político arrastado, centrado no período dos governos militares no Brasil.
A própria publicação foi direta ao descrever a experiência como “três horas torturantes de praticamente nada acontecendo”. Mais do que uma crítica estética, ela escancara a dificuldade recorrente de parte da indústria “cultural” em dialogar com o público sem recorrer a agendas previamente definidas.
O problema não está na abordagem de temas políticos — legítima em qualquer produção artística —, mas na tentativa reiterada de disfarçar conteúdo ideológico sob embalagens que prometem outra coisa. O espectador, que paga ingresso e investe tempo, percebe quando há um descompasso entre expectativa e entrega. E, ao contrário de outros tempos, hoje reage — seja abandonando a sala, seja ignorando a obra. Eu optei pelas duas.
Ainda assim, o que mais chama atenção não é o fracasso em si, mas o esforço quase institucional para validar o produto. Houve uma clara movimentação de setores ligados ao próprio “setor cultural” e de autoridades para impulsionar o filme em premiações internacionais, incluindo tentativas de indicação ao Oscar 2026 em categorias como Melhor Filme, Melhor Filme Internacional e Melhor Ator, para Wagner Moura.

Aí surge uma pergunta inevitável: até que ponto esse tipo de iniciativa reflete mérito artístico, e até que ponto revela uma tentativa de forçar relevância onde ela não se consolidou organicamente?
Quando entram em cena recursos públicos — direta ou indiretamente — o debate se torna ainda mais sensível. Afinal, o contribuinte brasileiro, que em grande medida não consome ou não se identifica com esse tipo de produção, acaba financiando projetos que falham em alcançar o próprio público que deveriam conquistar.
O episódio de “O agente secreto” não é isolado. Ele ilustra um padrão: a desconexão entre parte da produção cultural e a realidade do público brasileiro. E, ao que tudo indica, insistir na mesma fórmula — mudando apenas o rótulo — dificilmente produzirá um resultado diferente.
E vamos parar de chamar de cultura o que é mero entretenimento. Pior, entretenimento de má qualidade. E, ainda pior, bancado com o suado dinheiro do contribuinte.
Jornalista profissional diplomado, editor do portal Do Plenário, escritor, psicanalista, cientista político ocasional autoproclamado, analista sensorial, enófilo, adesguiano, consultor de conjunturas e cidadão brasileiro protegido (ou não) pela Constituição Brasileira, observador crítico da linguagem e da liberdade


