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segunda-feira, abril 20, 2026

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Que papelão, capitão!

Marcos Machado

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A performance de Wagner Moura no Globo de Ouro, ao receber o prêmio de melhor ator em filme de drama por “O Agente Secreto”, em noite na qual o filme também venceu como o melhor de língua não inglesa, extrapolou os protocolos de agradecimento. Entre referências ao cinema e comentários políticos, sobrou munição para o ataque previsível ao “fascismo” atribuído ao governo Bolsonaro, termo que, pelo uso repetitivo e pouco rigoroso, tornou-se mais senha ideológica do que conceito histórico.

O curioso é que a denúncia de autoritarismo parte justamente de um setor que, nos últimos anos, tem atuado como patrulha moral, deslegitimando divergências e filtrando o debate público por critérios estético-militantes.

Convém recuperar o termo. O fascismo histórico do século XX foi um fenômeno europeu com institucionalidade própria: corporativismo estatal, mobilização de massas, centralização totalitária, culto ao líder, militarização da política e expansão territorial. Não se tratava de xingamento, mas de regime.

Distante disso, a América Latina assistiu, e ainda assiste, a outra forma de autoritarismo real: socialismo com aparato estatal, censura de imprensa, presos políticos e supressão de liberdades civis, como em Cuba, Venezuela, Nicarágua e aqui, no Brasil. Estranho que esses não mereçam a mesma contundência moral dos discursos de tapete vermelho. A seletividade revela que o indignado às vezes ama o autoritarismo.

A máxima atribuída a Oscar Wilde, de que “a vida imita a arte”, ilumina essa performance. Wilde defendia que a arte molda a realidade, reorganizando o olhar do público; não representa o mundo, mas o fabrica. É isso que permite que a elite cultural confeccione um Brasil imaginário onde existem fascistas cinematográficos, democratas glamurizados e salvadores autoproclamados. Moura, nessas circunstâncias, não descreve o país: roteiriza-o conforme a estética de um cinema militante onde a ficção dita o padrão ético.

Aristóteles via o contrário: a arte como mímesis: imitação da vida e da natureza. O real era o modelo, e não o produto. Se a política adotasse esse critério aristotélico, talvez produzíssemos diagnósticos e não slogans. Mas a ordem se inverteu: o filme comanda o debate, a estética substitui a análise e a narrativa suplanta a história. E, assim, “fascismo” vira adjetivo dissolvente enquanto autoritarismos socialistas reais permanecem invisíveis.

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A incongruência estética e moral se torna quase tragicômica. O personagem que elevou Moura ao estrelato, o Capitão Nascimento de Tropa de Elite, não era antifascista de salão, mas anti-sistema no sentido literal: enfrentava a máquina corrompida do Estado, denunciava a promiscuidade entre crime, política e intelectualidade universitária, e expunha o cinismo ideológico maquiado de causa moral. Ali estava o Brasil aristotélico: reconhecível sem legenda, vivido antes de ser interpretado.

A recepção sociológica do filme foi reveladora. Tropa de Elite colocou na tela o que grande parte da população já percebia: um Estado capturado, uma polícia acuada, uma sociedade hipócrita e uma elite cultural que fingia revolta contra a violência enquanto fazia da criminalidade um fetiche antropológico.

Não por acaso, a elite cultural detestou o filme à época. Soou como ofensa. Havia ali diagnóstico demais e militância de menos. O público, por sua vez, aplaudiu não pela violência, mas pelo realismo moral: o filme não pedia desculpas e não vendia redenção ideológica.

Anos depois, o incômodo virou fetiche tardio. Quando Moura passou a corresponder ao “roteiro certo” do progressismo cultural, a resistência original ao filme se converteu em orgulho retroativo, como se Tropa de Elite sempre tivesse sido um manifesto de esquerda. Não foi. Era um diagnóstico duro de um país sem glamour.

É aqui que o paradoxo se completa: o personagem que denunciava o sistema virou troféu do sistema.

A ironia final é quase literária: enquanto o Capitão gritava “pede pra sair!”, Moura pede pra entrar, para ser aceito, celebrado e legitimado pelo exato circuito que sua obra expôs. Não foi o personagem que traiu o ator, mas o ator que traiu o personagem.

Resta o cenário maior: a cultura nacional, sob tutela da elite artística, já não eleva, mas infantiliza. O ambiente que deveria defender a inteligência passou a promover sentimentalismo panfletário, analfabetismo funcional e estética militante de baixa complexidade. A arte, que um dia iluminou a sociedade, agora apenas confirma seus ressentimentos. Wilde tinha razão ao notar que a vida imita a arte. O problema é quando a arte se rebaixa e a vida vai junto.

Preciso ainda registrar que o caso não é isolado. A elite cultural brasileira atua, há décadas, com a desconstrução da cultura efetiva, aquela que exige trabalho intelectual, domínio da língua, leitura, pesquisa, compreensão histórica e capacidade crítica. No lugar disso, oferece entretenimento de consumo rápido, slogans ideológicos, egotrips performáticas e um moralismo de vitrine. O objetivo, voluntário ou não, é sempre o mesmo: superficialidade com aparência de profundidade.

Esse processo cumpre função estratégica. Ao idiotizar o debate público, suspende-se a exigência de racionalidade; ao destruir a referência cultural, elimina-se o critério do que é bom, belo, verdadeiro e relevante; ao normalizar o analfabetismo funcional, abrem-se as portas para que a própria elite cultural se autoproclame intérprete oficial da realidade já que o público não dispõe mais de ferramentas para contestá-la.

Aqui se cruzam as observações que já desenvolvemos em outros artigos e no livro “Quem matou o Português?”: a degradação deliberada da linguagem, a promoção de um entretenimento que infantiliza, e a consolidação de um modelo educacional que forma consumidores, não cidadãos. Nada disso é acidente. É arquitetura.

O resultado é um país em que atores explicam política, cantores ditam moral, jornalistas fazem militância, professores recitam slogans e o público, desarmado intelectualmente, aplaude. O empobrecimento cultural não apenas se tornou norma; tornou-se ativo político. Governam melhor os que governam sobre ignorantes.

O capitão da ficção denunciava o sistema e combatia criminosos. O ator da vida real celebra o sistema e combate adversários abstratos. Um servia ao enredo, outro serve ao establishment.

Que papelão, capitão. Que papelão!

(PS: quanto a “O Agente Secreto”, não assisti e não pretendo assistir. De certa forma, tomei asco à produções militantes que agridem a cultura e o idioma)

*Jornalista profissional diplomado, editor do portal Do Plenário, escritor, psicanalista, cientista político ocasional autoproclamado, analista sensorial, enófilo, adesguiano, consultor de conjunturas e cidadão brasileiro protegido (ou não) pela Constituição Brasileira, observador crítico da linguagem e da liberdade

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