
Dizem por aí que em uma democracia prevalece a vontade da maioria, mas no Brasil este conceito é mais uma aspiração do que realidade concreta. Apesar de um governo que hesita, ou resiste, a reconhecer certas facções criminosas como grupos terroristas, a população pensa diferente. Bem diferente. Segundo pesquisa realizada pelo instituto Quaest Pesquisa e Inteligência, em parceria com Genial Investimentos, 73 % dos brasileiros entendem que essas organizações devem ser tratadas como grupos terroristas.
O levantamento ouviu 2.004 pessoas, com 16 anos ou mais, de 6 a 9 de novembro de 2025, em 120 municípios. A margem de erro é de dois pontos percentuais e o nível de confiança de 95 %.
Apenas 20 % dos entrevistados discordaram da ideia de classificar essas facções como terroristas e 7 % disseram não saber ou não responderam.
A mesma pesquisa aponta que 86 % dos entrevistados concordam com a afirmação de que “a polícia prende os bandidos, mas a justiça os solta porque a legislação é fraca”.
O cenário político-legislativo desenha fissuras evidentes. O debate sobre o projeto apelidado de PL Antifacção (ou Marco do Combate ao Crime Organizado) está em curso na Câmara dos Deputados, relatado por Guilherme Derrite (PP-SP). O texto original previa aumentar penas de três a oito anos para cinco a dez anos e criar a figura de “organização criminosa qualificada” com pena de até 15 anos em caso de domínio territorial por meio de violência, coação ou ameaça.
Resistência

No governo federal há resistência à equiparação das facções criminosas a grupos terroristas. O ministro do Ministério da Justiça e Segurança Pública, Ricardo Lewandowski, chegou a afirmar que a medida representa “grave risco à soberania nacional”, como se a atuação das facções e o domínio de vasta área do território nacional por elas não fosse ameaça à soberania.
Há um claro desalinhamento entre o desejo de parte expressiva da sociedade e a postura oficial do governo. Enquanto 73 % querem que as facções sejam tratadas como terroristas, o Executivo ainda se mostra avesso a esse enquadramento.
Esse descompasso revela tensões profundas: entre o que a maioria pensa, o que o governo admite e o que o legislativo consegue aprovar. Em um país em que a estrutura de segurança pública convive com fragilidades, corrupção e sensação de impunidade, a imprensa relata que a população quer maior rigor, e não apenas declarações simbólicas.
Se a democracia, em tese, deve traduzir a vontade popular em política pública, no caso concreto do enquadramento de facções criminosas essa correspondência ainda é “relativa”. Resta ver se o Legislativo e o Executivo conseguirão acompanhar essa demanda, ou se a maioria continuará a assistir à vontade popular simplesmente anotada, sem tradução efetiva em mudança institucional.


