
Como nunca antes na história (sic) desse país se meteu tanto a mão no bolso do contribuinte. A arrecadação federal voltou a bater recorde em 2025 e expôs, mais uma vez, o descompasso entre o apetite fiscal do governo brasileiro e a contrapartida social entregue à população. Segundo dados divulgados pela Receita Federal, a União arrecadou R$ 2,89 trilhões em impostos e outras receitas ao longo do ano passado, o maior valor já registrado. Em termos reais, o crescimento foi de 3,75% em relação a 2024, já descontada a inflação medida pelo IPCA.
O desempenho também foi histórico no mês de dezembro, quando a arrecadação alcançou R$ 292,72 bilhões, alta real de 7,46%, igualmente impulsionada pelo aumento da carga tributária.
Os números refletem a expansão da arrecadação sobre praticamente todas as bases tributárias que recaem direta ou indiretamente sobre o cidadão. Imposto de Renda de pessoas físicas e jurídicas, contribuições previdenciárias, IPI, IOF, PIS/Cofins e outros tributos federais compõem esse montante, além de receitas como royalties e depósitos judiciais, que também entram no cálculo global.
Apenas as receitas administradas diretamente pela Receita Federal somaram R$ 2,76 trilhões em 2025, com crescimento real de 4,27%. No último mês do ano, essas receitas atingiram R$ 285,21 bilhões, avanço real de 7,67%.
O problema central não está apenas no volume arrecadado, mas na ausência de retorno proporcional à sociedade que sustenta essa engrenagem. O recorde fiscal não se traduz em melhoria perceptível dos serviços públicos essenciais. Saúde, educação, segurança, transporte e infraestrutura continuam marcados por deficiências crônicas, filas, precariedade e baixa eficiência. Enquanto isso, o peso dos impostos corrói o orçamento das famílias, sobretudo das mais pobres, que destinam parcela cada vez maior da renda para sustentar uma máquina estatal inchada, cara e improdutiva.
O pobre paga mais
O aumento da arrecadação significa menos dinheiro disponível para o consumo básico. É o trabalhador que deixa de comprar carne para colocar no prato dos filhos, que abdica do lazer, do cinema, de uma roupa nova, porque boa parte do que ganha é absorvida pelo sistema tributário. Trata-se de uma transferência silenciosa e contínua de renda da base da pirâmide para um governo que arrecada muito, gasta mal e entrega pouco. O pobre pode alegar que não paga o Imposto de Renda, mas se esquece que tudo o que compra tem imposto embutido.

O peso real dos tributos aparece com clareza quando se observa o que o brasileiro coloca no carrinho de compras. Produtos básicos de alimentação, higiene e transporte carregam uma carga tributária significativa, embutida no preço final e raramente percebida pelo consumidor. Itens essenciais como arroz e feijão, base da alimentação popular, têm em média cerca de 18% do valor composto por impostos.
A carne bovina gira em torno de 18,6%, enquanto o frango, frequentemente visto como alternativa mais barata, também carrega quase 18% de carga tributária. O leite, alimento essencial sobretudo para crianças, chega a ter mais de 30% do preço formado por tributos, percentual semelhante ao do café, do macarrão e do óleo de soja, que ultrapassam a faixa dos 35%.
Mesmo produtos considerados simples, como açúcar e pão, não escapam da voracidade fiscal. O açúcar pode ter mais de 40% do seu preço final composto por impostos, e o pão, embora tenha variações regionais, sofre incidência relevante ao longo de toda a cadeia produtiva, do trigo ao balcão da padaria. Na área de higiene e limpeza, o impacto é ainda mais evidente: papel higiênico e sabão em pó apresentam cargas tributárias superiores a 40%, transformando itens básicos de dignidade em fontes permanentes de arrecadação.
Quando se passa para bebidas, o quadro se agrava. A cerveja chega a ter mais de 50% do preço final tomado por tributos, resultado da combinação de ICMS, IPI e contribuições federais. A cachaça e outras bebidas alcoólicas seguem a mesma lógica, figurando entre os produtos mais taxados do mercado de consumo.
Nos combustíveis, essenciais para o deslocamento da população e para a logística de toda a economia, a gasolina frequentemente supera a marca de 50% de carga tributária, o que impacta diretamente o custo do transporte, dos alimentos e dos serviços. No caso dos bens duráveis, como o automóvel, estima-se que cerca de 40% do valor de um carro popular novo seja composto apenas por tributos, somando ICMS, IPI, PIS e Cofins.
Esse retrato evidencia um sistema tributário fortemente concentrado no consumo, que cobra proporcionalmente mais de quem ganha menos e destina boa parte da renda das famílias ao pagamento indireto de impostos. Assim, enquanto os cofres públicos celebram recordes sucessivos de arrecadação, o cidadão comum paga a conta todos os dias, silenciosamente, no prato de comida, no banho, no café da manhã e no trajeto até o trabalho.
Hipocrisia oficial
O discurso oficial costuma celebrar os números como sinal de responsabilidade fiscal, crescimento da economia, ou de fortalecimento das contas públicas. No entanto, para o cidadão comum, o recorde arrecadatório se manifesta como perda de poder de compra, aumento do custo de vida e sensação de injustiça fiscal. Sem uma contrapartida social clara, mensurável e efetiva, o crescimento da arrecadação deixa de ser virtude e passa a ser reflexo de um modelo que penaliza quem produz e trabalha, sem resolver os problemas estruturais do país.
O Brasil arrecada como país desenvolvido, mas oferece serviços públicos muito aquém desse padrão. Enquanto essa equação não for corrigida, cada novo recorde de arrecadação será visto não como conquista coletiva, mas como mais uma prova de que, como nunca antes na história, se meteu tão fundo a mão no bolso do contribuinte.


