Marcos Machado
Em 2006, o psiquiatra norte-americano dr. Lyle H. Rossiter Jr. lançou uma obra que causou incômodo nos círculos “progressistas” e provocou debates entre psicólogos, sociólogos e cientistas políticos: “The Liberal Mind: The Psychological Causes of Political Madness” (A Mente Esquerdista: As Causas Psicológicas da Loucura Política). Na publicação, Rossiter sustenta que a mentalidade esquerdista não é apenas uma posição política legítima no espectro democrático, mas uma verdadeira anomalia psíquica com raízes na imaturidade emocional, no ressentimento social, recalques academicos e culturais, além de traumas mal resolvidos da infância.
Segundo Rossiter, a mente esquerdista opera num plano emocional regressivo. O indivíduo de esquerda, segundo seu diagnóstico, exige do Estado o papel de um “superpai” onipresente, responsável por sua proteção, subsistência e, sobretudo, por corrigir todas as injustiças que acredita sofrer. Tal dependência institucional é tratada pelo autor como um sintoma de paralisia da autonomia, uma recusa em amadurecer e assumir a responsabilidade pelos próprios atos. A generosidade compulsiva com o dinheiro alheio, a negação da realidade objetiva e a tendência à vitimização coletiva compõem esse quadro clínico-ideológico.

Embora Rossiter não tenha dedicado um capítulo à esquerda latino-americana, bem menos à brasileira com suas peculiaridades tropicais e tragicômicas, sua análise parece feita sob medida para o teatro político nacional. A militância brasileira, marcada por uma histeria performática e um rancor social de fundo quase patológico, seria uma mina de ouro para os estudos do psiquiatra americano. A cultura de cancelamento, os surtos de indignação seletiva, a defesa incondicional de criminosos se autodeclarando “oprimidos”, a hostilidade contra símbolos nacionais e a compulsão por reescrever a história, tudo isso ecoa a tipologia que Rossiter delineou com rigor clínico.
No Brasil atual, a mentalidade esquerdista vive um surto explícito. O discurso público foi capturado por narrativas emocionais em detrimento da razão. A lógica cedeu lugar ao sentimentalismo combativo, e a análise de conjuntura foi substituída por frases de efeito vazias e gritos de guerra identitários. Grupos que antes defendiam a liberdade de expressão agora clamam por censura, exaltam ditadores de esquerda e atacam toda forma de conservadorismo como ameaça “fascista”. Trata-se de uma inversão de valores que revela um trauma não tratado: a incapacidade de conviver com a frustração diante da realidade.
O governo atual, reflexo desse quadro ideológico, opera com a mesma lógica de dependência estatal e vitimização coletiva descrita por Rossiter. A culpa pelos fracassos internos é sistematicamente jogada sobre adversários políticos, o “golpismo” imaginário ou uma conspiração invisível contra a democracia. Os escândalos recentes no INSS, os desmandos administrativos, a tragédia na economia, a falência do Estado com a desordem inequívoca nas contas públicas, os gastos sem controle ou ficalização, e o caos na saúde pública são tratados com indiferença ou atribuídos a “heranças malditas” do passado. A responsabilidade desaparece sob uma avalanche de narrativas disfuncionais e vitimistas.

Rossiter nos fornece um mapa clínico para entender não apenas o comportamento do militante médio, mas também os mecanismos psíquicos que moldam parte significativa do debate público brasileiro. Sua obra, ainda que voltada à realidade americana, encontra ressonância direta nas esquerdas tropicais, que elevam o ressentimento à categoria de virtude e transformam o delírio em programa de governo.
Ignorar o alerta de Rossiter é se condenar a tratar patologia como opinião válida e naturalizar a loucura política como estratégia de poder. O custo disso não é apenas psíquico, é social, econômico e, sobretudo, civilizacional. O Brasil, infelizmente, caminha como paciente relutante rumo à internação ideológica cujo diagnóstico já foi dado há quase duas décadas.
Psicanálise
Do ponto de vista da Psicanálise, a avaliação da patologia segue a premissa do dr. Rossiter. Sigmund Freud, pai da psicanálise, provavelmente diagnosticaria a esquerdopatia brasileira como uma manifestação de conflitos psíquicos mal resolvidos entre o ego, o superego e o id. Para Freud, o militante esquerdista radical poderia estar projetando suas frustrações internas, muitas vezes oriundas de traumas familiares, repressões sexuais ou sentimentos de inferioridade, no discurso social e político.
A obsessão por igualdade absoluta e a negação da realidade objetiva seriam uma defesa neurótica contra a angústia provocada pela própria impotência frente ao mundo real. Ao tentar impor uma ordem moral imaginária sobre os outros, o indivíduo estaria, na verdade, tentando corrigir a desordem dentro de si.
Para Carl Jung, a esquerdopatia seria como uma sombra coletiva emergindo do inconsciente nacional. Para ele, os militantes engajados em causas utópicas e em narrativas maniqueístas estariam dominados por arquétipos inconscientes não integrados, especialmente o da criança ferida e do herói redentor.
A recusa em reconhecer os limites da realidade e a constante externalização da culpa em inimigos imaginários (burgueses, patriarcado, elite branca) revelariam uma psique dissociada, incapaz de individuação. O militante não luta contra o sistema, mas contra si mesmo, fantasiado de justiceiro social. A patologia, segundo Jung, só se curaria quando o indivíduo enfrentasse e integrasse a própria sombra, em vez de projetá-la sobre o mundo.
Tratamento
De acordo com sugestões clássicas da psiquiatria e da psicanálise, e conforme os sintomas abordados, o tratamento da esquerdopatia brasileira (entendida aqui como um distúrbio psíquico de natureza ideológica, marcado por delírios de justiça seletiva, compulsão por controle estatal e aversão à realidade objetiva), exigiria abordagens distintas, mas complementares, em três frentes.
Curto Prazo
No campo psiquiátrico, o foco inicial seria a contenção dos sintomas mais agudos, como pensamento paranoide, distorções cognitivas severas, delírios de perseguição e histeria coletiva. Poderiam ser indicados antipsicóticos leves ou ansiolíticos, especialmente em casos de militância obsessiva que cause disfunção social grave. O objetivo seria estabilizar o paciente para que ele possa sair do modo de confronto permanente com a realidade e entrar em contato com algum grau de reflexão crítica. Grupos de apoio com mediação profissional, que estimulem o contato com pontos de vista divergentes sem gatilhos de histeria, também seriam recomendáveis.
Médio Prazo
Aqui entra a contribuição clássica da psicanálise: a escuta clínica e a exploração do inconsciente. O indivíduo deve ser conduzido ao reconhecimento de seus recalques, frustrações e transferências projetadas sobre a sociedade. A obsessão pela luta de classes, a idealização do Estado como pai protetor, ou o ódio irracional ao “opressor”, seriam investigados como formas simbólicas de elaborar traumas primitivos, como abandono, ausência de autoridade familiar ou sentimentos de castração. O papel do analista seria desmontar as racionalizações ideológicas e conduzir o sujeito à angústia necessária para o autoconhecimento.
Longo Prazo
Tanto para a psiquiatria quanto para a psicanálise, o tratamento a longo prazo exige uma reformulação profunda da estrutura de pensamento e identidade do sujeito. Isso implica superar a dependência do discurso coletivo para validar a própria existência. No viés junguiano, seria o caminho da individuação: integrar a sombra, aceitar a própria limitação, abdicar do desejo de reconfigurar o mundo à imagem do próprio ego ferido. No campo psiquiátrico, pode incluir psicoterapia cognitivo-comportamental de manutenção, reforçando hábitos de leitura crítica, exposição gradual a ideias opostas e redução da rigidez mental. O fim do tratamento só ocorre quando o sujeito abandona a compulsão por militância como identidade, e aprende a pensar fora dos binarismos emocionais da ideologia.
É um processo árduo, que exige mais que remédio ou análise: requer vontade de deixar de ser vítima e assumir a própria neurose como responsabilidade pessoal. Para muitos, isso é doloroso demais. Afinal, é mais confortável gritar contra o capitalismo do que encarar o espelho.
*Jornalista profissional diplomado, editor do portal Do Plenário, escritor, psicanalista, cientista político ocasional autoproclamado, analista sensorial, enófilo, adesguiano, consultor de conjunturas e cidadão brasileiro protegido (ou não) pela Constituição Brasileira, observador crítico da linguagem e da liberdade
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