19 C
Brasília
domingo, abril 19, 2026

ANUNCIE

A velha estratégia da inversão de culpa

Marcos Machado

Sempre que uma força maior reage contra tiranias e injustiças, os tiranos gritam por “democracia”. Não por convicção democrática, mas como estratégia de manipulação. Vitimizam-se, acusam de “invasão”, “perseguição” ou “ataque às instituições”, e encenam um espetáculo de indignação para encobrir seus próprios abusos. Essa tática, longe de ser nova, é velha conhecida da História e, como o tempo insiste em mostrar, a propaganda sempre foi o trunfo dos opressores.

Um dos exemplos mais emblemáticos desse expediente ocorreu nos conflitos finais da Segunda Guerra Mundial, em fevereiro de 1945, durante o bombardeio aliado à cidade alemã de Dresden. Nos dias 13, 14 e 15 daquele mês, a cidade foi duramente atacada por aviões da Força Aérea Real britânica e da Força Aérea dos Estados Unidos. A ofensiva, parte do esforço para enfraquecer o eixo nazista, destruiu significativamente a cidade e, segundo estimativas sérias, causou a morte de cerca de 20 mil pessoas.

COMPRE AGORA

A resposta alemã não demorou: sob a batuta do ministro da Propaganda Joseph Goebbels, o regime nazista iniciou uma massiva campanha de vitimização. A propaganda oficial multiplicou por dez os números das mortes, inflando-os para mais de 200 mil, um esforço deliberado para reverter a narrativa, pintar os aliados como bárbaros, terroristas, e obscurecer os próprios crimes do Terceiro Reich. De repente, os algozes europeus, que promoveram todo tipo de crueldade e ilegalidade por anos, se apresentavam como vítimas de uma injustiça histórica.

Convenientemente esquecidos nessa narrativa estavam os horrores infligidos pela Alemanha nazista: os campos de concentração, os massacres de populações civis, a perseguição a judeus, eslavos, ciganos e dissidentes políticos, e a destruição sistemática de países inteiros. Os bombardeios em Dresden, por mais duros que tenham sido, foram um contra-ataque. Uma resposta a anos de opressão e barbárie.

Essa lógica de inversão moral se repete com frequência desconcertante. O opressor, quando acuado, torna-se súbito defensor das liberdades e instituições. Um expediente tático: encenar apego à legalidade para deslegitimar qualquer tentativa de responsabilização ou contenção. O objetivo claro é de manipular a opinião pública, enfraquecer o adversário e manter o poder, ou, ao menos se livrar de punição.

COMPRE AGORA

No cenário atual, essa estratégia permanece viva em regimes autoritários e em líderes populistas. Seja em ditaduras modernas ou democracias em erosão, o roteiro é o mesmo: há sempre um inimigo externo ou interno que “ameaça” a ordem, quando na verdade apenas responde aos abusos cometidos por quem está no poder, e em defesa dos oprimidos.

A História não apenas se repete, mas ensina. Quando tiranos gritam por liberdade, é prudente desconfiar. Quando os opressores se declaram vítimas, é sinal de que estão perdendo o controle da narrativa e, talvez, com sorte, também do poder.

Jornalista profissional diplomado, editor do portal Do Plenário, escritor, psicanalista, cientista político ocasional autoproclamado, analista sensorial, enófilo, adesguiano, consultor de conjunturas e cidadão brasileiro protegido (ou não) pela Constituição Brasileira, observador crítico da linguagem e da liberdade

relacionados

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Fique conectado

667FãsCurtir
756SeguidoresSeguir
338SeguidoresSeguir
- Publicidade -spot_img

Últimos artigos