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sábado, abril 18, 2026

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O homem que me deu a nave quântica para eu ir até o fim da eternidade

Ray Cunha

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Descobri que o meu negócio para o resto da vida era ser escritor, em 1959, em um portal estelar no lar da minha infância, a Casa Amarela, na Rua Iracema Carvão Nunes, ao lado do Colégio Amapaense, esquina com a Rua Eliezer Levy, em Macapá/AP, cidade que se debruça para a margem esquerda do Canal do Norte do maior rio do mundo, o Amazonas, quando o gigante se aproxima do Atlântico, onde despeja 200 mil metros cúbicos de água por segundo. Macapá está engastada na esquina do monstro com a Linha Imaginária do Equador.

O portal era o Quartinho, os aposentos do meu irmão Paulo Cunha. Eu tinha, então, cinco anos e ele, 18. Ele era o cara mais bonito de Macapá. Pugilista, campeão de natação, líder estudantil no Grêmio Literário Ruy Barbosa, do Colégio Amapaense, poeta, imortal na sua eterna juventude.

O Quartinho se abria para o Cosmos. Quando comecei a frequentá-lo descobri que era possível viajar por todo o planeta e ir até as galáxias. O Paulo já era leitor compulsivo e no Quartinho havia todo tipo de gibi, revistas mensais (as semanais ainda não existiam no Brasil) brasileiras e americanas, e livros, ensaios e ficção, brasileiros e estrangeiros. Embarquei na minha nave e jamais a aposentei; vivo nela. Graças ao Paulo, que aniversaria neste 18 de abril.

Em 1972, aos 17 anos, saí pela primeira vez de Macapá. Fui a Belém. A Cidade das Mangueiras me fascinou. Naquela época, o Paulo estava morando em Belém, em um hotel no centro da cidade, onde ocupava um quarto de tamanho razoável. As paredes do quarto eram estantes do chão ao teto, com tudo o que se possa imaginar em termos de literatura. De novo embarquei numa viagem permanente.

XARDA MISTURADA foi meu batismo de fogo como escritor, como observou o poeta Isnard Brandão Lima Filho. Trata-se de uma coletânea coletiva dos poetas Joy Edson (José Edson dos Santos), José Montoril e eu, lançada em dezembro de 1971. Meus poemas, adolescentes, foram minhas primeiras escavações nos veios do coração.

Eu começara a escrever aos 13 anos, pequenas pepitas, pedrinhas, que eu ia lapidando por meio de árduo trabalho, às vezes, escondido, porque não me rendia nenhum dinheiro, e aos olhos da sociedade macapaense parecia trabalho perdido, vadiagem, vagabundagem. Mas, para mim, era ouro puro, pois as tímidas incursões literárias levavam-me às galáxias, e isto era tudo o que eu queria, e ainda quero.

Até que ponto suas convicções foram construídas a partir de fatos — e até que ponto foram moldadas por versões cuidadosamente editadas da realidade? Você está preparado para a verdade, ou ela é real demais para você suportar? CLIQUE E COMPRE

Em 1975, em plena fase Na Estrada, que durou de 1972 até 1982, visitei o Paulo e família, em Santarém, onde ele passara a morar. Agora, a biblioteca dele ocupava toda uma sala. A sensação era sempre a mesma, quando, aos 12, 13 anos, descobri, nas estantes dele, Hemingway, Fitzgerald, Graciliano Ramos, Euclides da Cunha, Antoine de Saint-Exupéry, uma turma da pesada, a história da Humanidade e atlas, que me levavam aonde quer que eu quisesse ir.

Lutando boxe, nadando, na companhia das gatas que ele namorava, escrevendo poemas, declamando-os, Paulo é sempre um modelo para mim. Um dia, ele me salvou a vida. Entalei-me com batata doce e estava morrendo sufocado quando me deu um soco nas costas e um bolo saltou da minha boca na parede. Ele jamais disse algo que me ferisse, e sei que sempre me protegeu, como fazem os irmãos mais velhos.

Convivemos durante todos os anos da década de 1960, quando cada qual tomou seu rumo. Ele vive, hoje, em Belém, com sua família – a esposa Sônia e os filhos Paulinho e Alice –, e conserva o mesmo charme, a leveza do pugilista que foi na juventude, e aquela marca nos olhos de quem viaja pelas galáxias.

Quanto a mim, permaneço no comando da minha nave, em velocidades cada vez mais incalculáveis, movido pelo combustível que todas as pessoas que me amam despejaram no tanque do meu coração, combustível azul como o céu de julho, ao anoitecer, em Macapá. Azul como um salto quântico.

Ray Cunha é jornalista e escritor

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