Marcos Machado

“O Brasil é um país decepcionante. Parece que vai, mas não vai. E não acredito mais que isso possa melhorar. Não há saída.”
Décadas se passaram desde que Antônio Carlos Callado disse isso. Se hoje voltássemos a perguntar a um observador atento, daqueles que acreditam mais nos fatos do que nas narrativas confortáveis, a resposta poderia ser estranhamente parecida. Esse diagnóstico, proferido em 1997 nos últimos dias de sua vida, reverbera com estranha precisão nas frustrações de 2026.
O ambiente de negócios no Brasil segue sufocado por obrigações legais e tributárias que engessam iniciativas, sobretudo de microempresas. Para manter um pequeno negócio formal no país é preciso navegar por regras complexas, exigir certificações, pagar impostos em cascata e, frequentemente, contratar contadores caros para não fechar antes de abrir. Esse emaranhado é um desestímulo a empreender e um incentivo à informalidade; um paradoxo cruel para uma economia que precisa de inovação e dinamismo.
As universidades públicas brasileiras se veem cada vez mais sujeitas a disputas ideológicas e a processos de ocupação acadêmica que muitas vezes substituem a busca pelo conhecimento pelo ativismo político, ou militância programada. A missão de formar profissionais competentes e cidadãos críticos parece, para muitos, ter sido sequestrada por uma horda que sublima o pensamento e o conhecimento em retórica militante. Isso distorce prioridades e reduz a capacidade da educação superior de ser um motor de desenvolvimento real para a sociedade.
O acesso ao ensino superior formal ainda é limitado para a maioria da população: pesquisas indicam que mais de 75% dos jovens de 18 a 24 anos não acessam a faculdade no Brasil, por fatores como deficiências no ensino de base e barreiras econômicas, evidenciando que a educação superior, pública ou privada, ainda é restrita.
Dependência sem saída

Não se trata de negar a importância das políticas de proteção social; longe disso; afinal, qualquer sociedade só se mostra civilizada quando acolhe seus idosos e inválidos. Mas, a dependência de legiões de indivíduos, teoricamente aptos ao estudo e ao trabalho, presos a programas assistencialistas sem perspectivas claras de saída não resolve as raízes do problema social brasileiro. É a síntese de um país que tenta apagar incêndios sociais com soluções paliativas, enquanto deixa a casa pegar fogo calado.
No front social, a dependência de programas da chamada “transferência de renda”, que nada mais é que expropriação, é expressiva. Dados recentes indicam que mais de 94 milhões de brasileiros, ou cerca de 44% da população, utilizam algum tipo de programa social do governo federal, dos quais o Bolsa Família, que atende mensalmente dezenas de milhões de pessoas.
A questão é que essa amplitude também alimenta uma dependência que, sem uma inserção sustentável no mercado de trabalho formal, perpetua um ciclo assistencialista. Cada vez mais pessoas nada fazem, nada estudam, nada aprendem, ou produzem, apenas sugam recursos da parcela produtiva da sociedade, em um ciclo sem fim. É isso, vamos esclarecer: o governo não dá nada, porque o dinheiro não é dele. O dinheiro que o governo diz que dá foi tomado da população que trabalha, produz, e paga impostos. É uma relação promíscua e propagadora de ilusão.
Ao mesmo tempo, o mercado trava sua própria transformação para competir globalmente porque falta qualificação profissional consistente. Jovens chegam ao mercado sem preparo adequado, um problema que se retroalimenta: empresas reclamam de falta de profissionais qualificados, enquanto escolas e governos reclamam da falta de investimento; um círculo vicioso que alimenta a estagnação econômica.
Dispensável abordar as mazelas da política e seus escândalos intermináveis. Bilhões aqui, bilhões alí, e ninguém vê nada…
Enquanto “roubam” adoiado, o cidadão comum discute a “incompetência” do chutador de bola, a celulite da atriz-sambista, a eliminação no paredão… O dinheiro tomado não é devolvido, o fraudador não é preso, e o governo pega o dinheiro de quem foi vítima para lhe devolver o que lhe tomaram. É hilário. E o brasileiro ainda, assim, acha que levou vantagem em tudo, né canhotinha de ouro?
Ladeira abaixo
Callado certamente sabia de toda essa complexidade. E ele não estava errado ao ver o Brasil como um país que “parece que vai, mas não vai”.
Agora, olhando mais para trás ainda, muito antes de perdermos a esperança no final dos anos 1990, podemos remontar essa sensação de “vai, mas não vai” desde antes mesmo do golpe de 1889 que proclamou a República. Muitos historiadores afirmam que a transição do Império para a República brasileira foi menos um salto civilizatório e mais uma mudança de elite no comando, sem reformas estruturais profundas, deixando intactas as desigualdades fundiárias, a distribuição desigual de renda e a dependência econômica de setores tradicionais. E pior: um movimento induzido por inveja, misoginia e vingança.
Essa transição histórica plantou, talvez, a semente de uma nação que nunca encontrou uma direção sólida e sustentável.
Eterna construção?
Dizer que o Brasil é inviável enquanto país seria esquecer que ele também é feito de milhões de histórias de resiliência, criatividade e luta. Mas a estrutura que Callado denunciou — burocrática, desigual, refratária a mudanças duradouras — persiste como um fantasma que explica por que tantas promessas de progresso acabam em frustração. O Brasil continua a ser um país de contradições profundas: exuberante em potencial, mas incapaz de realizá-lo de maneira sustentável.
Talvez o que lhe falte — mais do que um projeto técnico, mais do que um plano econômico, seja um pacto social capaz de romper esse ciclo histórico de promessas vazias. Mas como fazer pacto com uma parcela da sociedade que insiste em não pensar? Enquanto não houver esse pacto — seja através de reformas, educação ou um novo contrato entre sociedade e Estado —, a frase de Callado ecoará como uma advertência: o Brasil parece que vai, mas não vai.
NR – Antônio Carlos Callado (1917–1997) foi jornalista, escritor e dramaturgo brasileiro. Atuou em veículos centrais da chamada grande imprensa, como Correio da Manhã, Jornal do Brasil e O Globo, além de ter sido correspondente internacional. Foi um intelectual orgânico da imprensa liberal brasileira, com forte atuação durante o período que antecedeu e sucedeu a intervenção militar de 1964. Ele apoiou o movimento que derrubou João Goulart, acreditando se tratar de uma “correção institucional”. Posteriormente, com o AI-5, e a censura que também o atingiu, passou a criticar o regime.
*Jornalista profissional diplomado, editor do portal Do Plenário, escritor, psicanalista, cientista político ocasional autoproclamado, analista sensorial, enófilo, adesguiano, consultor de conjunturas e cidadão brasileiro protegido (ou não) pela Constituição Brasileira, observador crítico da linguagem e da liberdade


