Marcos Machado
Há uma máxima, atribuída erroneamente a diversos pensadores ao longo dos séculos, que diz: “Contra a estupidez, nem os deuses lutam.” A frase é do escritor alemão Friedrich Schiller, mas se tornou universal porque descreve uma realidade persistente, e cada vez mais visível, especialmente no Brasil. A estupidez não se opõe com dados, argumentos, estatísticas ou fatos. Ela resiste. Ela se fortalece no conflito. Ela grita quando confrontada e, mais grave ainda, sente-se vitoriosa ao ignorar o que é evidente.
Há ainda a metáfora que é uma síntese brutal e diz tudo: discutir com o estúpido é como jogar xadrez com um pombo. Ele vai derrubar as peças, cagar no tabuleiro, bater as asas, fazer barulho e, no fim, sair arrulhando vitória como se tivesse vencido uma partida que nem sequer compreende.
Essa imagem tragicômica encapsula com perfeição o que se tornou o debate público: um terreno minado por ignorância ativa e agressiva, onde a razão é zombada e o conhecimento é tratado como petulância. Não se trata apenas de falta de entendimento, mas pelo desprezo ativo por ele. O estúpido moderno não quer aprender; quer impor sua boçalidade como padrão.
O que resta a quem pensa? Talvez o que sugeria Schopenhauer: “Nunca discuta com um idiota. Ele te rebaixa ao nível dele e te vence pela experiência.” Em outras palavras, às vezes, a melhor resposta ao pombo no tabuleiro é recolher as peças e o deixar arrulhando sozinho.
O estúpido moderno é uma entidade ruidosa. Sofre de incontinência verborrágica, fala muito e ouve pouco, ou nem ouve, e nada entende. Rejeita com violência qualquer discurso que desmonte sua ilusão de certeza. Acredita, por exemplo, que sua “opinião” (mero achismo) está no mesmo nível de um estudo científico; que seu “achismo” pesa tanto quanto décadas de pesquisa; que um vídeo de trinta segundos substitui uma tese. Como alertou Umberto Eco, posteriormente plagiado por uma autoridade brasileira, “as redes sociais deram voz a uma legião de imbecis.” Ele se referia àquele tipo de sujeito que, antes, proferia bobagens no bar da esquina e era ignorado, mas que agora encontra plateia que reverbera suas sandices.
Vamos esclarecer: isto nada tem a ver com a liberdade de expressão e livre manifestação do pensamento que são direitos democráticos e constitucionais, em tese, ainda, no Brasil. Pensamento implica em conhecimento e a expressão é a manifestação desse conhecimento.
Há uma estrutura típica no pensamento do estúpido: a ausência de pensamento. Ele não argumenta a partir de premissas racionais, mas de dogmas emocionais. Ele “sente” que está certo, logo está, e quem o contesta vira inimigo. O estúpido não se interessa por ideias, mas por trincheiras. Vive de simplificações grosseiras. Despreza complexidade porque não tem ferramentas intelectuais para enfrentá-la.
O desafio não é mais vencer a estupidez, mas sobreviver a ela. Porque ela não pensa; ela berra e, pior: ela vota.
O estúpido tem orgulho da própria ignorância como se fosse um troféu. Desdenha da leitura, da ciência, do saber acumulado, da argumentação fundamentada, da comprovação por pesquisa ou fato. Desacredita de tudo em nome de uma suposta “liberdade de pensamento” que nada mais é que licença para a burrice. Nas Escrituras, há advertências semelhantes. O livro de Provérbios é repleto de alertas contra o tolo. Em Provérbios 18:2, lê-se: “O tolo não tem prazer na sabedoria, mas somente em que se descubra aquilo que agrada o seu coração.” É a fé cega, não a religiosa, mas a fé no próprio delírio. Contra isso, nenhuma lógica sobrevive.
Não é à toa que Carlo Cipolla, historiador econômico italiano, definiu a estupidez como uma das maiores forças destrutivas da humanidade. Em seu ensaio “As Leis Fundamentais da Estupidez Humana”, ele alerta: “Uma pessoa estúpida é aquela que causa prejuízo a outra pessoa ou grupo de pessoas sem que disso resulte qualquer ganho para si, ou até com prejuízo próprio.” Ou seja, o estúpido não apenas está errado, ele insiste em estar errado mesmo quando isso lhe custa caro. A verdade não importa, o que importa é manter sua fé, mesmo que os fatos provem o contrário.
Debater com o estúpido é perda de tempo, você se exaure e ele permanece irredutível. A tentativa de argumentação racional apenas inflama sua certeza emocional. Não há diálogo possível, porque o diálogo exige ao menos um terreno comum: a disposição de ouvir e refletir. Contra a estupidez não se debate, se contorna. É, como já disse Dietrich Bonhoeffer, teólogo luterano morto pelos nazistas: “A estupidez é um inimigo mais perigoso do que a maldade. Contra o mal, protestamos; contra a estupidez, somos impotentes.”
É exatamente essa impotência que define o momento. Vivemos cercados por certezas sem fundamento e por delírios fantasiados de “opinião”. Quem ousa combater a estupidez com lógica é tratado como “inimigo do povo”. O estúpido não quer vencer o debate, quer destruir o próprio conceito de debate, pois é incapacitado para ele.
O desafio não é mais vencer a estupidez, mas sobreviver a ela. Porque ela não pensa; ela berra e, pior: ela vota.
*Jornalista profissional diplomado, editor do portal Do Plenário, escritor, psicanalista, cientista político ocasional autoproclamado, analista sensorial, enófilo, adesguiano, consultor de conjunturas e cidadão brasileiro protegido (ou não) pela Constituição Brasileira, observador crítico da linguagem e da liberdade



