*Marcos Machado

Diz-se que a história é a versão dos vencedores, mas no caso brasileiro ela costuma refletir mais a versão dos usurpadores. Os idólatras das narrativas oficiais que me desculpem, assim como os papagaios das glórias imaginárias da chamada República, mas o Brasil não tem nada a celebrar neste 15 de novembro.
O que se ensinou nas escolas foi a história republicana, lapidada para justificar um golpe de Estado articulado por uma elite ressentida que confundiu seus interesses corporativos com projeto de país. A Proclamação não nasceu de um clamor popular, nem de desejo coletivo por liberdade, mas de uma combinação de vingança, misoginia e preservação de privilégios.
É preciso lembrar que, na década de 1880, o Império vivia seu período de maior estabilidade institucional. Sob Dom Pedro II, o Brasil consolidara uma das administrações públicas mais estáveis das Américas, mantinha economia crescente e, apesar de suas contradições internas, havia conduzido o país a uma posição respeitada no exterior, coisa incomum para uma nação recém-independente.

A Lei do Ventre Livre (1871), a Lei dos Sexagenários (1885) e a Abolição (1888) não foram obras improvisadas, mas parte de um processo gradual de reformas estruturais que buscavam, ainda que lentamente, ajustar o país aos valores humanitários do Século XIX. Mesmo críticos da monarquia reconheciam que o Estado imperial possuía profissionalização administrativa superior à das primeiras décadas republicanas e instituições que, com todas as limitações, funcionavam.
A abolição da escravidão foi o estopim do golpe. A elite agrária, especialmente do Sudeste, considerou imperdoável que o Estado libertasse 700 mil pessoas sem indenização aos proprietários. O ressentimento cresceu quando figuras próximas ao trono passaram a defender, já em 1888, políticas de integração que incluíam distribuição de terras a ex-escravizados; algo que, se efetivado, teria sido a primeira reforma agrária organizada do país. Para muitos fazendeiros, a monarquia se tornara uma ameaça direta à manutenção de sua base econômica.
Mas havia um segundo incômodo para os conspiradores: a sucessão. Com Dom Pedro II sem herdeiro homem, quem assumiria o trono seria sua filha, a princesa Isabel. Criada em ambiente de intensa formação política e religiosa, ela representava um tipo de liderança que parte da elite não aceitava. Não por falta de preparo, porque, afinal, governou o país em três períodos como regente, mas por ser mulher num ambiente militarizado e paternalista.
A combinação entre racismo estrutural, perda de privilégios e misoginia criou a tempestade perfeita. Assim, em 15 de novembro de 1889, um grupo reduzido de militares pressionou o imperador ao exílio e instaurou um regime sem consulta popular. Não houve plebiscito, não houve debate público, não houve demanda das ruas. Foi um golpe clássico.
Do dia seguinte em diante, veio o que a história costuma suavizar: o Brasil mergulhou em sucessivas rupturas institucionais, disputas oligárquicas, estados de sítio, fraudes eleitorais e crises econômicas.
As primeiras décadas da República foram marcadas por revoltas militares, insurreições civis e uma instabilidade que contrastava com as quatro décadas de relativa solidez do Segundo Reinado. O país que já era visto como potência emergente no século XIX entrou no século XX enfrentando crônicos ciclos de instabilidade e centralização autoritária.
Mais de um século depois, a promessa republicana ainda tropeça nas mazelas que ela mesma institucionalizou: fragmentação de poder, distanciamento entre Estado e sociedade, corrupção estrutural e dificuldade crônica de planejamento. O contraste entre o que o Brasil era e o que se tornou depois de 1889, ainda que não explique tudo, permanece historicamente relevante.
O resto, como se dizia antigamente, é conto da carochinha, aquele contado para adormecer consciências, não para despertá-las.
E, qualquer semelhança com a atualidade não é mera coincidência.
*Jornalista profissional diplomado, editor do portal Do Plenário, escritor, psicanalista, cientista político ocasional autoproclamado, analista sensorial, enófilo, adesguiano, consultor de conjunturas e cidadão brasileiro protegido (ou não) pela Constituição Brasileira, observador crítico da linguagem e da liberdade


