
A recente decisão do governo federal de adquirir 40 Smart TVs para os presídios federais de segurança máxima promoveu indignação na sociedade brasileira. Afinal, quais são as prioridades quando o assunto é crime, punição e alocação de recursos públicos?
A medida, orçada em aproximadamente R$ 85,4 mil, ocorre em um momento de restrições orçamentárias na educação, merendas escolares reduzidas em diversos municípios e serviços básicos sucateados em várias regiões do país.
Enquanto algumas entidades e autoridades falam em “reinserção social” e “políticas humanitárias”, cresce a percepção de parte da população de que o governo oferece regalias a quem violou a lei, enquanto cidadãos honestos enfrentam dificuldade para alimentar os filhos, pagar contas e acessar serviços públicos essenciais.
Em escolas de várias cidades, a merenda escolar se resume a bolacha com refresco, ou sopa rala, conforme denunciam conselhos de alimentação escolar e secretarias municipais.
Outro ponto crítico é a baixa eficácia da ressocialização no sistema prisional brasileiro. Pesquisas do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) apontam que as taxas de reincidência criminal no país variam de 30% a 70%, dependendo do tipo de crime e da região; números que revelam um mecanismo caro e pouco eficiente, incapaz de produzir o retorno esperado à sociedade.

Há ainda um aspecto econômico raramente citado: o custo mensal de um preso no Brasil, que oscila de R$ 2 mil a R$ 5 mil, podendo ultrapassar o salário líquido de um trabalhador médio e o investimento por aluno na rede pública. O governo paga mais para manter um criminoso encarcerado do que para formar uma criança.
O debate ganha ainda uma camada adicional com a entrada em vigor da reforma tributária, que tende a onerar quem trabalha, produz e gera riqueza no país. Especialistas têm alertado que o novo sistema vai aumentar o peso dos impostos sobre o consumo e sobre as cadeias produtivas, encarecendo o custo de vida e reduzindo a competitividade brasileira.
O Brasil mantém a posição desconfortável de um dos países que mais cobra impostos no mundo, mas que menos converte essa arrecadação em serviços públicos eficientes. A percepção de injustiça tributária cresce quando o contribuinte observa que parte desses recursos é canalizada para benefícios dentro do sistema prisional, enquanto saúde, educação e infraestrutura seguem com carências crônicas.
Essa inversão de prioridades reforça o sentimento de que o governo brasileiro é exigente na hora de cobrar, mas tímido na hora de entregar. Quem está na economia formal — empresários, profissionais liberais, autônomos e trabalhadores assalariados — se vê compelido a sustentar um sistema que pouco retorna em segurança, competitividade e bem-estar social.
Ao mesmo tempo, o país insiste em modelos de reinserção presos a discursos e experiências de baixo impacto, sem exigir trabalho, disciplina ou contrapartidas materiais de quem cumpre pena.
A iniciativa das Smart TVs, para seus críticos, sintetiza essa lógica: um símbolo de benevolência estatal com o crime, contraposto à austeridade imposta a quem produz. Para além dos televisores, o episódio lança luz sobre uma crise estrutural na gestão penal e fiscal do país, que mistura ineficiência no gasto público, carga tributária elevada e escassez de resultados concretos.
Enquanto o governo sustenta que as medidas visam a reintegração, cresce o coro de quem exige que o governo pare de tratar o crime com benefícios e o cidadão com sacrifícios, e que, antes de qualquer estímulo de entretenimento e diversão em presídios, o país assegure merenda digna nas escolas, hospitais funcionando, competitividade tributária e segurança nas ruas.


