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terça-feira, fevereiro 10, 2026

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Generais emporcalham a história

Marcos Machado

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A história política e militar do Século XX, e também de séculos anteriores, oferece exemplos recorrentes de um fenômeno que atravessa regimes, ideologias e fronteiras: a atuação de chefes militares que, em vez de cumprir o papel institucional de defesa da nação, subordinam-se voluntariamente a projetos autoritários, personalistas ou francamente tirânicos. É um padrão que escancara a covardia moral, a mediocridade profissional e o oportunismo como marcas centrais desses personagens que, ao final, deixam pouco mais que vestígios constrangedores na memória.

No Século XVI, Étienne de La Boétie, em seu Discurso da Servidão Voluntária, já chamava atenção para o fato de que o poder dos tiranos não se sustenta apenas pela força, mas pela adesão ativa, muitas vezes interessada, daqueles que deveriam resistir. Para La Boétie, o tirano só governa porque encontra quem deseje governar em seu nome. Essa lógica se aplica de maneira direta às cúpulas militares que, protegidas pela hierarquia e pelo monopólio da força, escolhem servir ao poder pessoal em vez da ordem constitucional ou do interesse coletivo.

Hannah Arendt, ao analisar o totalitarismo e o julgamento de Adolf Eichmann, avançou nessa compreensão ao mostrar que o mal político raramente se apresenta como fúria descontrolada. Ele costuma operar pela obediência acrítica, pela burocracia e pela abdicação da responsabilidade individual. Generais que se escondem atrás da disciplina militar para justificar atos ilegítimos ilustram com precisão essa “banalidade do mal”: não são, necessariamente, estrategistas brilhantes ou líderes carismáticos, mas engrenagens obedientes de projetos destrutivos.

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O caso alemão durante o regime nazista é um exemplo. Embora Hitler concentrasse o poder político, sua permanência e sua capacidade de conduzir o país à guerra dependeram da conivência e, em muitos casos, do entusiasmo de altos oficiais da Wehrmacht. Historiadores como Ian Kershaw registram que, salvo exceções tardias e isoladas, o alto comando militar alemão optou por jurar lealdade pessoal ao Führer, mesmo diante de crimes evidentes e decisões estratégicas desastrosas. A hierarquia e o culto à autoridade foram usados como escudo moral para justificar o injustificável.

Fenômeno semelhante pode ser observado na Revolução Soviética e, sobretudo, no período stalinista. Generais que sobreviveram aos expurgos frequentemente o fizeram à custa da submissão absoluta ao poder político, aceitando falsos julgamentos, delações e políticas que enfraqueceram o próprio Exército Vermelho. O historiador Orlando Figes descreve como o medo e o oportunismo corroeram qualquer noção de honra institucional, transformando a cúpula militar em extensão dócil do aparato repressivo.

Do ponto de vista filosófico e estratégico, Carl von Clausewitz advertia que o uso da força militar sem um propósito político legítimo e racional conduz ao desastre. Quando os meios — armas, tropas, patentes — se sobrepõem aos fins legítimos do Estado, o Exército deixa de ser instrumento da nação e passa a servir a projetos pessoais. A hierarquia deixa de ser elemento de organização e passa a funcionar como mecanismo de silenciamento e imposição.

Esses generais caem junto com seus tiranos e não deixam legado. Regimes autoritários tendem a produzir memórias seletivas, e seus sustentáculos raramente são celebrados após a queda do poder. Ao contrário de líderes militares associados à defesa da soberania ou à reconstrução nacional, os cúmplices de tiranias costumam ser lembrados como notas de rodapé, quando não como exemplos negativos em livros de história.

Alexis de Tocqueville, ao refletir sobre a liberdade e o despotismo, alertava que as instituições só sobrevivem se houver virtude cívica entre aqueles que as ocupam. Quando falta caráter, a legalidade se esvazia, e a força se torna mero instrumento de dominação. A ausência de honra não é apenas um problema moral individual, mas um fator de degradação institucional e histórica.

Mais do que um libelo contra indivíduos específicos, essa crítica se insere numa tradição intelectual que identifica, na submissão oportunista das elites armadas, uma das engrenagens centrais da tirania. A história demonstra que a covardia fantasiada de disciplina cobra um preço alto para as nações, para os povos e, inevitavelmente, para os próprios cúmplices do poder arbitrário.

E a história é sempre implacável. Mais implacável até do que o regime a que serviram.

*Jornalista profissional diplomado, editor do portal Do Plenário, escritor, psicanalista, cientista político ocasional autoproclamado, analista sensorial, enófilo, adesguiano, consultor de conjunturas e cidadão brasileiro protegido (ou não) pela Constituição Brasileira, observador crítico da linguagem e da liberdade

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