
Marcos Machado
Aqui quem diz que o gás é “de graça” pode até usar o slogan bonito, mas a matemática simples, aquela que a escola não inventou, devolve o resultado que ninguém queria ouvir: não existe almoço grátis. Como já dizia o velho adágio econômico em inglês, “There ain’t no such thing as a free lunch” (não há almoço gratuito), porque sempre há um custo oculto que alguém paga mais cedo ou mais tarde.
Na mais nova rodada de propaganda oficial, com o beneplácito de uma horda de políticos mirando as eleições de outubro, nasceu o tal do “gás do povo”. Um nome simpático, um slogan mais simpático ainda, e um truque de ilusionismo fiscal digno de um mágico de quinta categoria. Porque, sejamos francos: o governo não dá nada de graça, porque governo nenhum tem nada para dar, é tudo do contribuinte. O que ele faz, na melhor das hipóteses, é devolver uma fração minúscula do que já tomou de você em impostos ao longo do ciclo econômico. Ao menos é o que a teoria tributária e a prática cotidiana do cidadão insistem em mostrar, e muita gente também insiste em não querer enxergar.
Grosso modo, para qualquer entendedor, o governo só te dá o que já era seu, entendeu?
O pobre paga pelo “botijão de graça” antes mesmo de saber quanto vai ser o preço. Ele paga quando compra arroz, feijão, pão e leite; itens que estão sujeitos a tributos que financiam o tal “benefício”. Ele paga na conta de luz e de água, quando abastece o carro ou quando compra qualquer coisa. Qualquer coisa, mesmo, até um chiclete. Tudo tem imposto embutido. O “gás grátis” é, no fundo, uma devolução parcial do que já foi retirado do seu bolso sob a forma de impostos. E, como toda devolução governamental, vem com atraso, e em migalhas, como um botijão.

É nesse cenário que se encaixa a crítica social que alguns formuladores de opinião fizeram, ainda que de forma brusca: não é que o pobre seja “burro”; ele é enganado porque o jogo foi feito para que pareça que há presente quando na verdade há débito. Está na natureza de certas campanhas políticas embutir esperança em pacotes bem embrulhados, enquanto a essência é sempre reembalar o mesmo produto velho. Sem a persistência da pobreza, muitas narrativas populistas simplesmente não teriam a quem se dirigir. A esquerda só sobrevive se houver pobreza. Isto é fato. Se a pobreza acabar, não há a quem enganar.
Assim, quando o governo anuncia que está “dando” algo, é saudável lembrar que quem paga o pato, ou melhor, o botijão, é você, cidadão contribuinte, ou pobre que “ganha o benefício”, e que o truque de marketing não altera a equação básica: não existe benefício sem custo, mesmo que ele esteja escondido atrás de slogans e promessas eleitorais. O gás pode até ser chamado de “do povo”, mas está longe de ser “grátis”.
E a propaganda “enganosa” alimenta a esperança em um país de analfabetos vidrados na tela. E o jogo sujo prossegue…
*Jornalista profissional diplomado, editor do portal Do Plenário, escritor, psicanalista, cientista político ocasional autoproclamado, analista sensorial, enófilo, adesguiano, consultor de conjunturas e cidadão brasileiro protegido (ou não) pela Constituição Brasileira, observador crítico da linguagem e da liberdade


