Marcos Machado

A história costuma ser generosa com os que tiveram razão cedo demais. Na primeira metade do Século XX, quando a Europa ainda buscava pacificar a Alemanha nazista com concessões diplomáticas e acordos frágeis, uma voz destoava no Parlamento britânico. Winston Churchill alertava para o perigo representado por Adolf Hitler e para a ilusão de que a paz poderia ser comprada com tolerância unilateral. Foi chamado de alarmista, belicista, ultrapassado. Tornou-se, depois, o símbolo da resistência.
O tempo mostrou que suas advertências não eram fruto de paranoia ideológica, mas de leitura realista do cenário internacional. O expansionismo nazista não foi contido por tratados. Ao contrário, cada concessão funcionou como combustível político e militar para o avanço alemão. A política de apaziguamento se revelou incapaz de deter um regime cujo projeto era, por natureza, expansionista e totalitário.
Qualquer semelhança com a atualidade não é mera coincidência.
A analogia histórica é inevitável quando se observa o atual cenário envolvendo os Estados Unidos e o regime iraniano. A liderança suprema do Irã, sustenta há décadas uma política externa marcada por retórica hostil ao Ocidente, apoio a grupos armados no Oriente Médio e ambições nucleares que preocupam a comunidade internacional. A tensão não surgiu de um dia para o outro, tampouco é resultado de um gesto isolado.

As recentes ações americanas contra estruturas estratégicas ligadas ao aparato militar iraniano reacendem o debate clássico entre contenção firme e diplomacia prolongada. Críticos classificam as medidas como provocativas. Defensores as veem como necessárias para impedir o fortalecimento de um regime que, reiteradamente, desafia acordos, amplia sua influência regional por meio de milícias aliadas e mantém um discurso de enfrentamento permanente.
A questão central não é a preferência pela guerra. Nenhuma democracia madura celebra conflitos armados. O ponto é outro: quando a manutenção da paz passa a depender exclusivamente da boa-fé de regimes que historicamente demonstraram hostilidade, o risco deixa de ser hipotético. A história europeia do século passado ensinou que a hesitação diante de projetos expansionistas pode custar caro demais.
Churchill compreendeu que a paz não se sustenta apenas na retórica, mas na capacidade concreta de dissuasão. Sua postura firme não foi a causa da guerra; foi a reação a um processo que já estava em curso. Se tivesse prevalecido o imobilismo político britânico da década de 1930, a resistência ao nazismo talvez tivesse sido tarde demais.
No cenário atual, os Estados Unidos argumentam que ações decisivas funcionam como mecanismo de contenção, não de provocação. A lógica é a da dissuasão estratégica: demonstrar que determinadas linhas não podem ser ultrapassadas sem consequências claras. Trata-se de uma visão segundo a qual a omissão pode ser interpretada como fraqueza e, portanto, incentivo ao avanço.
É legítimo questionar métodos, custos e impactos humanitários. O debate democrático exige isso. No entanto, também é legítimo reconhecer que há momentos em que a preservação da estabilidade internacional depende de respostas inequívocas. A história não garante que a firmeza evitará todos os conflitos, mas já demonstrou que a complacência diante de regimes ideologicamente comprometidos com a expansão de poder dificilmente os desestimula.
A paz não é um estado passivo, é construção diária, sustentada por diplomacia, alianças e, quando necessário, demonstrações claras de força. Vigilância constante não significa militarismo permanente, mas compreensão de que o equilíbrio internacional depende de limites reconhecidos e respeitados.
Churchill foi ridicularizado antes de ser celebrado. O julgamento contemporâneo sobre as ações atuais só será consolidado com o passar dos anos. O que a história sugere, porém, é que a defesa da paz, em determinadas conjunturas, exige coragem para agir quando ainda é possível conter, e não apenas reagir quando já é tarde demais.
*Jornalista profissional diplomado, editor do portal Do Plenário, escritor, psicanalista, cientista político ocasional autoproclamado, analista sensorial, enófilo, adesguiano, consultor de conjunturas e cidadão brasileiro protegido (ou não) pela Constituição Brasileira, observador crítico da linguagem e da liberdade


