
Brasília (DF) — No coração do país, onde se decide o destino da nação, a saúde pública vive um caos que dói na carne, na vida e na paciência de seus habitantes. Enquanto palcos são montados e festas prosperam, milhares de brasilienses enfrentam uma realidade terrível: filas de espera absurdamente longas para consultas especializadas, exames e cirurgias no Sistema Único de Saúde (SUS).
Um recente estudo da Câmara Legislativa de Brasília-Distrito Federal (CLDF) expôs dados estarrecedores sobre a realidade sanitária na capital do país.
Quase 180 mil pessoas com 60 anos ou mais aguardavam por consultas com especialistas no SUS-DF até julho de 2025, com tempo médio de espera de 725 dias, ou seja, quase dois anos. Em algumas especialidades, como oftalmologia, os idosos esperavam até 936 dias, ou dois anos e meio, por atendimento.
Levando em conta a capacidade atual do sistema, demoraria décadas para zerar algumas filas, mais de 140 anos para consultas de cirurgia geral, 54 anos para oftalmologia e quase 48 anos para urologia, se as demandas continuassem nos mesmos níveis.
O déficit de profissionais, medido em horas semanais de atendimento especializado não suprido, chegava a 9.815 horas, o equivalente a quase 500 médicos em falta nas especialidades mais críticas.
Esses números não são projeções vagas nem exageros retóricos: são o retrato cru de uma máquina de saúde pública colapsada, incapaz de atender sequer o que já foi solicitado há anos.
Roda dos desesperados

Para os idosos, a fila não representa apenas espera, representa risco de morte e perda de autonomia. Em especialidades essenciais como oftalmologia, que afeta diretamente a mobilidade e a independência, a espera de mais de dois anos para um atendimento especializado é um ultraje sanitário.
Em Brasília, onde a renda média é mais alta do que em grande parte do país e onde se concentram largos orçamentos públicos, essa situação expõe uma prioridade invertida e um descaso que ultrapassa fracasso técnico.
Bucólica
Enquanto isso, manifestações de entretenimento artístico, festas públicas e eventos oficiais seguem sendo destaque nos holofotes da administração local, e às custas de um orçamento que deveria ser dedicado a salvar vidas. Os relatos de pacientes e familiares nas redes sociais confirmam o sentimento de abandono: usuários reclamam de falta de respostas claras sobre suas posições nas filas, de intermináveis encaminhamentos burocráticos e de um sistema que parece projetado para exercitar a frustração, não para oferecer atendimento.
Outros estudos apontam que o atraso no atendimento oncológico também é crônico nos hospitais brasilienses, resultado da escassez de unidades e equipamentos especializados. Em análises anteriores, especialistas notaram que algumas filas por atendimento oncológico ultrapassam mais de uma década de espera em certas áreas, ruins sinais da ineficiência do sistema.
Mesmo em áreas onde houve esforços de redução, por exemplo, uma campanha para reorganizar o atendimento oncológico que teria reduzido em 63% o tempo de espera para começo de tratamento em 2025, isso é um paliativo diante de um cenário sistêmico de incompetência estruturada, e não de uma solução duradoura.
Se há um símbolo desse colapso, ele é a falta de controle e transparência sobre as próprias filas. Não existe, em Brasília, um sistema confiável e automatizado para que pacientes acompanhem sua posição real na espera por atendimento; um ponto que deveria ser trivial em qualquer serviço público fundamental. A burocracia emperra decisões, adia agendamentos e transforma o direito constitucional à saúde em um exercício de paciência desgastante.
Esse apagão de dados e essa incapacidade de gestão não são “acidentes” do SUS: são sintomas de um governo local que parece mais interessado em festividades que rendem apelos políticos imediatos do que em sanar o sofrimento de sua população.
Entre a festa e a fila
O governo que patrocinou celebrações e eventos ostentosos agora carrega um dos piores cenários de filas de espera do país. Mais de 150 dias de espera por uma consulta especializada — mais de 12 vezes o tempo em outras regiões — não é apenas um número: é um diagnóstico de falência administrativa.
Enquanto os gestores insistem em celebrar conquistas ilusórias, a população de Brasília — trabalhadores, aposentados, pacientes e famílias — paga o preço real em saúde degringolada, sofrimento evitável e vidas postergadas por anos nas sombras de um sistema que não cumpre o que promete.
Se Brasília deseja ser o centro político do Brasil, ela deveria começar por ser o centro responsável pela própria saúde pública, antes que mais vidas sejam perdidas nas filas que não avançam.


