
Em fevereiro, o governo federal aumentou o Imposto de Importação de 1.252 produtos por meio da Resolução Gecex nº 852. A medida atinge principalmente itens de tecnologia e bens de capital. Entre os produtos impactados estão smartphones, computadores, televisores, notebooks, equipamentos de data centers e diversas máquinas industriais. Em alguns casos, as tarifas chegaram a 25%, com aumento médio de aproximadamente 7,2 pontos percentuais em determinados setores.
O governo estima arrecadar cerca de R$ 14 bilhões adicionais em 2026 com a medida. Do ponto de vista fiscal, trata-se de uma injeção imensa de recursos. Do ponto de vista do consumidor, no entanto, a tendência é outra. Especialistas alertam que o aumento do imposto de importação costuma ser repassado ao preço final. Isso significa eletrônicos mais caros nas lojas, computadores mais onerosos para estudantes e profissionais e máquinas industriais com custo maior para empresas que produzem no Brasil.
O cidadão brasileiro trabalha, paga impostos e, ao final do mês, tem a sensação crescente de que sustenta uma máquina pública que nunca se satisfaz. A cada novo anúncio oficial, a promessa é de responsabilidade fiscal. A cada balanço divulgado, a realidade mostra déficits persistentes, aumento de gastos e novas formas de arrecadar mais. No centro desse processo estão, sobretudo, a classe média e a população de baixa renda, que sentem no orçamento doméstico o peso de decisões tomadas longe da sua rotina.
Farra sem limite
Os números ajudam a dimensionar o problema. Apenas com despesas em cartão corporativo do governo federal, os gastos ultrapassaram R$ 1,4 bilhão. Trata-se de uma ferramenta que frequentemente opera sob sigilo parcial e baixa transparência, dificultando o controle social. Paralelamente, as despesas com viagens oficiais, muitas delas questionadas quanto à real necessidade, já superam R$ 7 bilhões. Em um país que ainda enfrenta carências estruturais em saúde, educação e infraestrutura, o volume chama atenção.

O discurso oficial sustenta que tais despesas são inerentes à gestão pública e à representação institucional. O problema não está apenas na existência do gasto, mas na combinação de três fatores: déficit contínuo nas contas públicas, manutenção de despesas em ritmo elevado e aumento sistemático da carga tributária. Quando o governo arrecada mais e ainda assim fecha o ano no vermelho, a conta tende a voltar para o contribuinte.
Todos sentem
O impacto não se restringe ao consumidor individual que deseja trocar de celular ou comprar um notebook. Bens de capital e equipamentos de tecnologia são insumos para produção, comércio e serviços. Quando esses custos sobem, a cadeia inteira sente. Pequenas e médias empresas, que já operam com margens apertadas, tendem a repassar parte dos aumentos aos clientes ou a reduzir investimentos. Em ambos os casos, o efeito recai sobre emprego, renda e poder de compra.
A classe média, que raramente tem acesso a subsídios ou programas compensatórios robustos, acaba espremida entre impostos elevados e serviços públicos que nem sempre correspondem ao volume arrecadado. A população de baixa renda, por sua vez, sofre com o encarecimento indireto de produtos e serviços essenciais, mesmo quando não consome diretamente bens importados. O aumento de custos industriais e logísticos se espalha pela economia.
O ponto central da discussão não é apenas o aumento pontual de uma tarifa, mas o padrão. O governo amplia despesas, mantém déficit, eleva tributos e promete ajuste futuro. Enquanto isso, o contribuinte arca com a conta no presente. Transparência limitada em determinados gastos e dificuldade de fiscalização aprofundam a sensação de distanciamento entre quem paga e quem decide.
Em um regime democrático, a arrecadação deve estar vinculada a planejamento responsável, eficiência e prestação clara de contas. Quando a percepção predominante é de sanha arrecadatória sem contrapartida proporcional em qualidade de serviços e equilíbrio fiscal, cresce a desconfiança. Cabe ao cidadão acompanhar, questionar e exigir transparência. Afinal, cada ponto percentual de imposto não é um número abstrato, mas parte do salário, do consumo e do futuro de milhões de brasileiros.


