
Segundo pesquisa do Datafolha, o esporte mais alienante do planeta não atrai mais tanta gente como antes, especialmente no Brasil. Cerca de 54% dos brasileiros afirmam não ter interesse em acompanhar a Copa do Mundo de futebol. Este é o maior índice desde o início da série histórica em 1994, superando os 51% registrados antes do Mundial de 2022.
O desinteresse é mais acentuado entre as mulheres (62%) e classes com menor identificação com os jogadores atuais. De acordo com a pesquisa, 54% dos entrevistados não têm nenhum interesse, e 31% não pretendem assistir a nenhum jogo. Apenas 17% têm grande interesse no campeonato.
Apesar do desinteresse geral, o público jovem (16 a 24 anos) ainda é o mais engajado, com 24% demonstrando empolgação.
O brasileiro já não é mais tão apaixonado por futebol, como a mídia massificou durante décadas, modulando a percepção e o sentimento dos mais emocionalmente vulneráveis.
Descrença
O afastamento do torcedor é multifatorial, misturando questões esportivas, institucionais e sociais. A fase irregular da Seleção, que terminou as eliminatórias em uma pífia quinta posição, gera descrença, por exemplo.
Falta, ainda, a identificação com os convocados já que a saída precoce de jovens chutadores de bola para a Europa impede a criação de vínculos com a torcida local.
Soma-se a isso, os escândalos de corrupção e trocas constantes no comando da CBF que desgastam a imagem da Seleção como “patrimônio nacional”, ou “paixão nacional”, na manipulação do coletivo.
Segundo levantamento, vários fatores levaram as pessoas a deixaram de se importar com a seleção brasileira. Entre eles, a falta de transparência, um projeto consistente com o futebol local e conexão com os torcedores. O esporte teria dado lugar a negócios lucrativos para poucos.
Mudança
A migração do interesse (ou da alienação) não está mais concentrada em um único evento de massa como a Copa, mas sim em nichos digitais e experiências personalizadas. O brasileiro não parou de consumir entretenimento; ele apenas fragmentou sua atenção.
A distração foi canalizada para apostas esportivas (Bets). O engajamento migrou do “torcer pelo time” para o “lucro individual”. O futebol virou um número em uma planilha de rendimento financeiro imediato.

Ainda, para as redes de curto prazo (TikTok/Reels) onde a população consome pílulas de entretenimento rápido que geram dopamina constante, substituindo a espera de 90 minutos por um jogo.
O crescimento de comunidades de eSports e criadores de conteúdo retira o público da tevê aberta e o coloca em ecossistemas fechados.
Canais de opinião política e “guerras culturais” nas redes sociais ocupam o espaço que antes era das discussões de mesa circular de futebol (circular, porque redonda é a bola, não a mesa).
Séries de True Crime, Reality Shows e fofocas de celebridades (influenciadores) hoje competem diretamente com o horário nobre do esporte.
Coletivo
Antigamente, a Copa era um dos poucos momentos de catarse coletiva, ou alienação nacional. Hoje, a distração é individualizada, com cada pessoa vivendo em uma bolha de interesse específico (lifestyle, games, finanças).
O formato tradicional do futebol é considerado “lento” para as gerações mais novas.
A alienação não acabou; ela apenas se tornou algorítmica. Antes o país parava por uma bola; hoje, cada indivíduo para por uma tela diferente.
Apesar do desinteresse específico, não, o brasileiro não acordou, ainda.


