Marcos Machado
Um comentário recente, feito em um grupo fechado de rede social, acendeu um sinal de alerta para o nível de desumanização presente na narrativa política atual. Um sujeito, embalado por seus delírios ideológicos e claramente em dissonância com a realidade, classificou os que discordam de suas crenças como “subgente”. O termo não é apenas ofensivo; é historicamente perigoso. Remete a um dos períodos mais sombrios da humanidade, quando regimes totalitários promoveram a desumanização sistemática de grupos inteiros, com consequências trágicas e irreversíveis.
A palavra “subgente” evoca a expressão alemã Untermensch, amplamente usada pela máquina de propaganda nazista para justificar o extermínio de milhões. Sob a liderança de um homem de escolaridade duvidosa, intelecto rudimentar e vocabulário limitado, o Terceiro Reich transformou preconceitos em política de Estado. A história, que deveria servir como lição, parece estar sendo ignorada por muitos que hoje, mesmo em contextos democráticos, reverberam discursos semelhantes.
A banalização do mal, conceito trabalhado pela filósofa Hannah Arendt, é atual como nunca. Arendt alertava que o mal extremo não precisa de monstros evidentes, mas sim de burocratas obedientes e cidadãos passivos, ou cegamente engajados, incapazes de refletir criticamente sobre suas ações ou convicções. Quando alguém classifica um outro ser humano como “menos gente”, está colaborando, ainda que inconscientemente, para esse mesmo processo de dessensibilização moral.
Mais do que ignorância, há um componente de recusa deliberada da realidade, como apontava o filósofo francês Étienne de La Boétie, ao falar sobre a “servidão voluntária”: pessoas que se entregam a ideologias tóxicas não por coerência racional, mas por conforto psicológico, por pertencimento, ou mesmo por incapacidade de lidar com a complexidade das ideias dissonantes. A simplicidade rasa de slogans ideológicos oferece alívio para quem não está disposto a encarar o esforço de pensar. Invariavelmente, são mentes simplórias, míopes, incapazes de processar informações que derrubam seu castelo de ilusões.
Esses sujeitos, com frequência sem base educacional sólida e guiados por emoções descontroladas e ressentimentos mal resolvidos, reproduzem discursos odiosos como se fossem verdades absolutas. O filósofo Karl Popper alertava que “a tolerância ilimitada leva ao desaparecimento da tolerância”. Quando uma sociedade aceita passivamente discursos desumanizantes, ela abre espaço para que o intolerante destrua a própria base que lhe permite falar.

O perigo está justamente na normalização desse tipo de retórica. Quem chama o outro de “subgente”, hoje, defenderá muros amanhã e, se tiver poder, erguerá campos de concentração e fornos. O caminho entre a fala e o ato é mais curto do que parece.
Não se trata de exagero, mas de vigilância histórica, porque, como escreveu o escritor espanhol George Santayana, “aqueles que não conseguem lembrar o passado estão condenados a repeti-lo”. É nosso dever, como sociedade civilizada, identificar e combater esses discursos antes que se transformem em políticas, antes que a retórica da exclusão vire prática institucional.
É preciso impedir que a estupidez arrogante e a ignorância militante ditem os rumos do debate público. A humanidade já testemunhou — e chorou — o resultado desse tipo de projeto. Não há nada mais perigoso do que repetir a história achando que estamos fazendo algo novo.
*Jornalista profissional diplomado, editor do portal Do Plenário, escritor, psicanalista, cientista político ocasional autoproclamado, analista sensorial, enófilo, adesguiano, consultor de conjunturas e cidadão brasileiro protegido (ou não) pela Constituição Brasileira, observador crítico da linguagem e da liberdade


