
O cenário das finanças das famílias brasileiras em 2025 revela um quadro mais duro do que as narrativas oficiais costumam admitir. Dados recentemente divulgados pela Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) e pelo Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil) mostram que o número de consumidores com contas em atraso cresceu 10,17% em dezembro de 2025, na comparação com o mesmo mês de 2024, alcançando 73,49 milhões de pessoas negativadas, o equivalente a 44,02% da população adulta do país, a maior marca já registrada na série histórica do indicador.
Esse movimento de alta não é um fato isolado: ao longo de 2025, os indicadores de inadimplência (ou calote) já vinham mostrando expansão contínua, com cerca de 72,96 milhões de inadimplentes em novembro e crescimento consistente nos meses anteriores. O que chama a atenção no fechamento do ano é que, mesmo com o ingresso de rendas extras típicas de dezembro, como o 13º salário, o número de devedores continuou subindo na comparação mensal (alta de 0,87% de novembro a dezembro), sinalizando que os supostos “bônus de fim de ano” não foram suficientes para aliviar a pressão financeira sobre as famílias.
A estrutura dos dados indica que não se trata apenas de um aumento em números absolutos, mas de uma deterioração na qualidade da carteira de crédito das famílias. As dívidas que mais cresceram são as com prazo de atraso de quatro a cinco anos, um indicativo de casos crônicos de dificuldade de pagamento, não apenas atrasos momentâneos.

Os setores que mais contribuíram para esse avanço foram bancos e serviços essenciais como água e luz, que juntas concentram a maior parte dos débitos em atraso. Esses padrões mostram que a inadimplência não se limita a compras de menor porte, mas está profundamente relacionada ao cotidiano das famílias, comprometendo desde serviços básicos até crédito bancário tradicional.
A versão oficial
Enquanto algumas autoridades e relatos oficiais destacam sinais de estabilidade ou retomada gradual de indicadores como inflação dentro da meta ou ligeira redução do endividamento medido por outros métodos, a realidade dos atrasos efetivos de pagamentos pinta um quadro mais problemático para o cidadão comum. Por exemplo, apesar de algumas pesquisas terem indicado queda no endividamento total em certos meses de 2024, a inadimplência voltou a subir expressivamente em 2025.
Essa divergência ressalta uma diferença crucial entre métricas de endividamento (dívidas “a vencer”) e inadimplência real (contas efetivamente em atraso). Governos ou comentaristas podem enfatizar quedas de endividamento ou comportamentos cautelosos de parte das famílias, mas o aumento contínuo dos atrasos revela um orçamento familiar cada vez mais esticado, em que menos famílias conseguem honrar seus compromissos no prazo.
Projeções para 2026
O ano de 2026 se inicia sob perspectivas desfavoráveis, que podem conspirar contra a reversão desse quadro de inadimplência. As estimativas de mercado para o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) em 2026 variam, mas todas apontam para uma desaceleração da economia em relação a 2025, que já foi pífia, com projeções de expansão do PIB em torno de 1,5% a 1,8% dependendo da fonte, ritmo considerado baixo nos padrões brasileiros recentes.
O nível de crescimento do crédito para pessoas físicas deve se manter em patamares modestos, segundo projeções de órgãos do mercado financeiro, o que indica menor dinamismo no consumo financiado, justamente um mecanismo que poderia ajudar famílias a reorganizarem seus débitos.
Outro elemento de incerteza é a trajetória de juros e política monetária: embora alguns indicadores de inflação estejam dentro da meta, isso não se traduz automaticamente em alívio de custos de crédito para famílias com histórico de inadimplência. Juros ainda elevados, combinados com perspectivas de crescimento restrito da economia, tendem a pressionar o custo do crédito e podem ampliar o risco de atrasos futuros.
Os números de fim de 2025 expõem um problema estrutural que vai além de flutuações sazonais ou interpretações otimistas de alguns indicadores: famílias brasileiras estão ficando cada vez mais distantes de pagar suas dívidas dentro dos prazos, refletindo tensões mais profundas na renda, no custo de vida e nas opções de financiamento de curto prazo. A narrativa oficial de recuperação econômica perde densidade quando confrontada com a dificuldade real das famílias em manter suas contas em dia, um termômetro essencial da saúde econômica cotidiana.


