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sexta-feira, junho 5, 2026

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GDF vende saúde, mas não entrega

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A saúde pública em Brasília (DF) vive um paradoxo: por um lado, há indicadores oficiais de crescimento no volume de atendimentos; por outro, persistem falhas estruturais, desigualdades regionais e uma gestão que insiste em se autopromover enquanto muitos usuários continuam à mercê de um sistema sobrecarregado. Para entender esse cenário, é preciso olhar para os números, e para o que eles não contam.

No primeiro semestre de 2025, as 181 Unidades Básicas de Saúde (UBSs) da Secretaria de Saúde de Brasília registraram mais de 2,1 milhões de atendimentos, segundo dados do portal InfoSaúde-DF. Aproximadamente 302,9 mil foram de saúde bucal, o que evidencia que a atenção primária (APS) segue como porta de entrada para muitos serviços básicos do Sistema Único de Saúde (SUS).

Apesar desse volume expressivo, a crítica é inevitável: esses números não implicam necessariamente que o atendimento seja adequado ou resolutivo. A APS deve servir não apenas para encaminhar pacientes, mas para prevenir e gerir doenças crônicas, evitando que casos simples virem emergências. Em Brasília, embora cada UBS conte com equipes multiprofissionais — médicos de família, enfermeiros, agentes comunitários, dentistas, psicólogos, nutricionistas e outros —, a distribuição dessas equipes e sua efetividade na resolução dos problemas varia bastante entre as regiões administrativas.

Atenção Primária

Outro dado relevante: no primeiro semestre de 2024, a atenção primária registrou mais de 4,2 milhões de atendimentos (ou seja, mais de uma pessoa por atendimento considerando repetições).

Em 2024, o número individual de atendimentos de APS foi 18% maior do que no ano anterior, segundo a Secretaria de Saúde, o que, para alguns, representa crescimento, mas para críticos pode significar apenas mais demanda acumulada, não necessariamente uma melhora na qualidade ou na capacidade de resolver problemas de saúde.

As Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) também revelam uma pressão crescente. Nos cinco primeiros meses de 2024, as 13 UPAs registraram 468.479 atendimentos, praticamente meio milhão, segundo dados do Instituto de Gestão Estratégica de Saúde do DF (IgesDF).

Esse aumento representa uma elevação de 36% em relação ao mesmo período de 2023, o que sugere que a rede hospitalar de urgência está absorvendo uma demanda que talvez devesse ser resolvida na atenção primária, se ela fosse mais eficaz e bem distribuída.

A expansão de oferta de serviços, segundo a própria SES-DF, não se limita a consultas: há também credenciamento para novos leitos de UTI. Só no primeiro semestre de 2025, a Secretaria contratou 233 leitos de UTI na rede complementar (privada), com previsão de chegar a 346 leitos totais (adultos, pediátricos e neonatais).

Gastos públicos

Ao mesmo tempo, foram feitos gastos com o dinheiro do contribuinte para modernizar infraestrutura: mais de 12 mil câmeras de segurança começaram a ser instaladas em 279 unidades de saúde, além de leitores biométricos e fechaduras eletromagnéticas.

Isso mostra preocupação com a segurança, mas levanta uma questão: será que a prioridade real é melhorar o atendimento clínico ou tornar as unidades mais “visíveis” e seguras como imagem institucional?

Os problemas estruturais não desaparecem só com gastos públicos: a distribuição geográfica da rede de saúde de Brasília é desigual. De acordo com dados anteriores (relatórios da FAP-DF), a Atenção Básica deveria resolver cerca de 80% dos problemas de saúde, mas em algumas regiões essa meta está longe de ser atingida.

Isso tem consequências: moradores das Regiões Administrativas mais afastadas (como Planaltina, Ceilândia, Samambaia) muitas vezes enfrentam falta de médicos, unidades com infraestrutura insuficiente ou longas esperas, o que os empurra para UPAs ou hospitais.

Dependente do SUS

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A população dependente do SUS no DF é majoritária. No sumário executivo do RDQA (Relatório Distrital de Qualidade da Atenção), é informado que 67,5% da população de Brasília é SUS-dependente. Isso significa que a rede pública não atende apenas uma parcela pequena: a maioria dos brasilienses depende diretamente do SUS para cuidados primários e complexos.

No nível hospitalar, a rede pública também tem desafios. Segundo o Atlas do DF, há 22 hospitais públicos, alguns especializados; mas a maior parte está concentrada nas regiões centrais, como o Hospital de Base, e há desigualdade no acesso para as RAs periféricas.

O Hospital de Base, por exemplo, é um gigante. Conta com centenas de leitos e realiza cirurgias complexas, mas sofre a pressão de atender muitas demandas por ser referência para casos graves.

Há também uma “importação” de pacientes: a Secretaria de Saúde reporta que muitos pacientes do Entorno (municípios de Goiás e Minas Gerais, por exemplo) e até de outros estados utilizam o sistema público de Brasília. Isso traz dois efeitos mistos: por um lado, demonstra a relevância da rede pública local para uma região maior; por outro, sobrecarrega os recursos locais, que não foram projetados apenas para a população residente.

Propaganda política

Não se pode ignorar a comunicação oficial, que muitas vezes celebra os “avanços” como se fossem vitórias completas. Por exemplo, no “Dia da Saúde” de 2025, a SES-DF anunciou elogios recebidos (mais de 5,2 mil elogios à rede pública até julho) e afirmou investimentos em UTIs, segurança e modernização como provas de uma gestão eficaz.

Mas elogios e números de atendimento não são sinônimos de boa saúde pública: eles podem mascarar gargalos reais, falta de resolutividade e desigualdade no acesso.

A saúde em Brasília vive um momento ambíguo: há crescimento em quantidade de atendimentos, expansão de leitos e gastos do dinheiro público em infraestrutura, mas isso convive com falhas estruturais graves — especialmente na Atenção Primária, nas regiões mais pobres e periféricas — e com o risco de que a “imagem de melhora” seja construída mais para fins políticos do que para resolver os problemas.

A promessa de que a rede pública será “cada vez melhor” só é crível se vier acompanhada de uma distribuição mais justa, de equipes completas em todas as UBSs e de uma política que priorize a saúde como direito de todos, não apenas como número.

Só quem já precisou de atendimento sabe exatamente o que os números maquiados não mostram. Uma rápida lavagem no “rosto”, e a realidade se mostra.

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