Marcos Machado

A COP30, vendida como o grande momento do Brasil no tabuleiro climático global, terminou revelando um cenário muito diferente do prometido: improviso, gastos obscuros, infraestrutura incompleta, investigações abertas e um desfile de constrangimentos diplomáticos.
O episódio mais simbólico ocorreu com o chanceler da Alemanha, Friedrich Merz, que deixou Belém visivelmente contrariado, afirmando que a comitiva estava “contente por voltar” para a Alemanha, e deixando no ar uma crítica dura à organização e ao clima geral do encontro. Sua saída precoce terminou convertida em retrato do incômodo de várias delegações diante de um evento que se vendia como celebração ambiental, mas que na prática acumulou problemas básicos de logística.
A escolha de Belém, que conta com cerca de 18 mil leitos para um encontro que atrai de 45 a 60 mil participantes, desencadeou um efeito dominó de desorganização: hotéis lotados, embarcações transformadas às pressas em hospedagem, preços proibitivos e a necessidade de intervenções emergenciais para evitar a evasão de delegações menores. A própria ONU alertou que a COP poderia se tornar menos inclusiva caso o Brasil não contornasse o caos logístico, e, apesar das promessas, o que se viu foram remendos apressados, obras inacabadas e acessos provisórios apresentados como “soluções temporárias”.
A pressa em entregar estruturas virou outro problema. Trechos da chamada “Leaders’ Village”, área planejada para receber chefes de Estado, não ficaram prontos no prazo, impactados por greves e atrasos. Imagens de canteiros abertos, tapumes e passagens improvisadas circularam entre jornalistas, alimentando a percepção de que a conferência havia virado refém de obras feitas a toque de caixa.

Paralelamente, o volume de dinheiro movimentado para essas intervenções chamou a atenção de órgãos de controle e entidades independentes: somados, os projetos relacionados à COP30 alcançam bilhões de reais, com ao menos 23 obras e contratos que ainda carecem de transparência plena em licitações, custos e justificativas técnicas.
Esse quadro de obscuridade motivou investigações no Supremo Tribunal Federal e na Procuradoria-Geral da República sobre suspeitas de fraude, superfaturamento e desvio de recursos. Uma das apurações envolve uma licitação de R$ 142 milhões sob suspeita de irregularidades, caso que se soma a relatos de contratos emergenciais de valores altos e justificativas frágeis.
A contradição ficou evidente: um evento dedicado à responsabilidade ambiental sendo construído sobre práticas administrativas que levantam dúvidas de responsabilidade fiscal e integridade.
A atmosfera de “megaevento” não ajudou. Entre anúncios de bilhões de dólares, painéis grandiloquentes e discursos ensaiados, participantes enfrentaram deslocamentos longos, falta de transporte adequado, filas e dificuldades para acessar estruturas básicas. Para muitos, a sensação foi de que a conferência virou mais vitrine política do que espaço de decisões reais, com o brilho midiático se sobrepondo ao conteúdo e desviando o foco do essencial: políticas públicas consistentes e verificáveis.
A maior ironia está no contraste entre a retórica ecológica e os impactos locais. Obras e intervenções urbanas aceleradas afetaram áreas sensíveis da cidade, enquanto informações sobre compensações ambientais, licenciamento e medidas de mitigação simplesmente não foram apresentadas de forma completa. O Brasil tentou projetar protagonismo verde, mas a falta de transparência sobre o próprio evento minou a credibilidade da narrativa.
O saldo final da chamada Flop 30 é um acúmulo de dúvidas: sobre o gasto bilionário, sobre a efetividade das discussões, sobre a utilidade real das promessas anunciadas e, sobretudo, sobre a capacidade do país de sediar um encontro internacional sem cair na armadilha do espetáculo.
A COP30 nasceu com a expectativa de reposicionar o Brasil como liderança ambiental. Terminou expondo, diante do mundo, a velha ferida nacional: grandes discursos embalando grandes improvisos, enquanto a realidade insiste em revelar o custo financeiro, diplomático e institucional da farsa.
*Jornalista profissional diplomado, editor do portal Do Plenário, escritor, psicanalista, cientista político ocasional autoproclamado, analista sensorial, enófilo, adesguiano, consultor de conjunturas e cidadão brasileiro protegido (ou não) pela Constituição Brasileira, observador crítico da linguagem e da liberdade


