Marcos Machado
Pesquisas cada vez mais robustas apontam que a exposição excessiva de crianças e adolescentes às telas (celulares, tablets, computadores e tevês) está cobrando um preço alto: a deterioração da capacidade de aprender, de se concentrar e, sobretudo, de dominar a linguagem e desenvolver o raciocínio.
Um estudo conduzido pela Universidade de Alberta, no Canadá, mostra que crianças de oito a 11 anos de idade que passam mais de duas horas por dia em frente a dispositivos digitais apresentam desempenho significativamente pior em testes cognitivos de linguagem e memória. O impacto é ainda mais severo quando se soma à redução de horas de sono e à ausência de atividades físicas, fatores igualmente influenciados pelo uso abusivo da tecnologia.

Pesquisadores da Universidade de Cincinnati, nos Estados Unidos, utilizaram exames de neuroimagem para observar alterações estruturais no cérebro de crianças submetidas a longos períodos de exposição a telas. Os resultados indicam que áreas responsáveis pela compreensão da linguagem, leitura e foco sofrem alterações visíveis, prejudicando o desenvolvimento neurológico pleno.
Na prática, o que se vê nas salas de aula é uma geração cada vez menos capaz de compreender um texto simples, organizar ideias ou escrever uma frase coerente. A linguagem, base do pensamento e da convivência, vem sendo sacrificada em nome da instantaneidade. Os alunos já não leem textos longos, não interpretam instruções básicas e muitos se perdem diante de um parágrafo com vocabulário um pouco mais sofisticado.
O fenômeno vai além da gramática. A capacidade de argumentar, de ouvir com atenção, de formular raciocínios lógicos está diretamente ligada à linguagem e quando essa linguagem é atrofiada por uma dieta diária de vídeos curtos, memes e abreviações, o pensamento também se empobrece. Não é apenas a escrita que definha, é o próprio cérebro que se reconfigura para o superficial.
A Sociedade Brasileira de Pediatria recomenda que crianças de até dois anos não sejam expostas a telas, e que o tempo diário não ultrapasse uma hora, de dois e aos cinco anos de idade. Na prática, porém, os números são alarmantes: segundo o IBGE, mais de 80% das crianças brasileiras de dez a 13 anos usam celular com acesso à internet diariamente, muitas delas sem qualquer supervisão ou limite de tempo.

A consequência disso é visível: alunos que chegam ao final do ensino médio com graves dificuldades de leitura, interpretação e escrita e isso não apenas compromete o desempenho acadêmico, mas também mina as chances de inserção social e profissional.
O modelo de educação e o papel das tecnologias no cotidiano infantil precisam ser repensados. As telas, embora ferramentas poderosas, não substituem a leitura atenta e o desenvolvimento de habilidades cognitivas profundas. O que está em jogo não é apenas o desempenho escolar, é a formação intelectual e linguística de toda uma geração.
*Jornalista profissional diplomado, editor do portal Do Plenário, escritor, psicanalista, cientista político ocasional autoproclamado, analista sensorial, enófilo, adesguiano, consultor de conjunturas e cidadão brasileiro protegido (ou não) pela Constituição Brasileira, observador crítico da linguagem e da liberdade


