Marcos Machado
No limiar entre o que é notícia e o que é catecismo ideológico, observa-se uma infeliz metamorfose: o jornalista que abandona a apuração factual para vestir a camisa da militância. A reportagem cede lugar ao panfleto, o dado dá vez ao desabafo, e a manchete se transforma em palavras de ordem. A recente cobertura de um episódio envolvendo uma autoridade do governo e parlamentares evidencia com nitidez esse colapso do jornalismo enquanto exercício crítico da realidade.
É preciso lembrar: o fato é fato, o boato é boato e a militância ideológica nada tem a ver com o jornalismo. A constatação não é nova, Aristóteles já distinguia doxa (opinião) de episteme (conhecimento), mas a repetição do erro, mesmo depois de dois milênios, mostra o quanto certas obviedades continuam a precisar ser ditas.
O jornalismo, para manter sua função de guardião da democracia, precisa se ancorar nos princípios da objetividade, da checagem rigorosa e da clareza narrativa. Quando essas âncoras se rompem, surge a tempestade da manipulação emocional. Não se trata de ignorar que toda escolha editorial tem um viés; o problema é quando o viés vira filtro absoluto da realidade, tornando invisível tudo que não confirma a narrativa desejada.
O episódio recente — omitido aqui não por covardia, mas para destacar a lógica em vez do fato isolado — expôs como certos veículos se tornaram extensões das paixões ideológicas. Parlamentares, representantes legítimos da população, são tratados como vilões inquisidores, enquanto autoridades públicas, funcionários pagos pelo povo, são elevados à condição de vítimas quase messiânicas. Em vez da pergunta dura, da cobrança republicana, o que se vê é a lágrima solidária, a hashtag pronta, o linchamento preventivo de quem ousa discordar.
A imunização contra a crítica, seja ela feita por meio de blindagem midiática ou de retórica emocional, constitui grave violação ao espírito democrático.
Michel Foucault, em A Ordem do Discurso, já advertia sobre o poder embutido na forma como se estrutura o dizer. Controlar o discurso é controlar o real. Ao emoldurar manchetes com adjetivos, certos jornalistas abandonam sua missão informativa e passam a operar como engenheiros do simbólico, reescrevendo a realidade de acordo com desejos, não com evidências.
A substituição do jornalismo pelo sentimentalismo irracional é o que Hannah Arendt chamaria de banalização da mentira. Quando a emoção se sobrepõe à análise, e o engajamento moral substitui a checagem factual, não há mais espaço para a verdade, há apenas trincheiras. A função pública do jornalismo é então usurpada por uma espécie de sacerdócio secularizado, onde a fé política vale mais do que a prova documental.
A crítica feita ao comportamento de autoridades que se recusam ao debate público também é pertinente. Uma república saudável exige exposição, prestação de contas e confronto de ideias. A imunização contra a crítica, seja ela feita por meio de blindagem midiática ou de retórica emocional, constitui grave violação ao espírito democrático.
O jornalista pode até ter opinião, aliás, deve, mas não pode permitir que sua função se confunda com a de um ativista. A diferença entre os dois está justamente na disposição para reconhecer fatos mesmo quando eles desagradam. Como ensinou Karl Popper, “a verdade não pertence a ninguém, ela deve ser testada constantemente contra a realidade”. Que o jornalismo não se esqueça disso antes de se afogar de vez no mar raso da militância travestida de reportagem.
*Jornalista profissional diplomado, editor do portal Do Plenário, escritor, psicanalista, cientista político ocasional autoproclamado, analista sensorial, enófilo, adesguiano, consultor de conjunturas e cidadão brasileiro protegido (ou não) pela Constituição Brasileira


