Marcos Machado

É assim mesmo, aparta do apartar, separar o joio do trigo, o que presta do que não presta, e escancarar a má índole de significativa parcela da imprensa brasileira, a chamada grande imprensa, diante do evento ocorrido no domingo (25), quando um raio atingiu as proximidades de uma manifestação em Brasília e desnorteou algumas dezenas de participantes. O raio foi o gancho do noticiário. O raio, e apenas o raio.
O fenômeno natural, previsível e recorrente na capital federal nesta época do ano, tornou-se o centro da cobertura. A manifestação, convocada em defesa da Constituição, da legalidade e do Estado Democrático de Direito, foi tratada como irrelevante ou convenientemente ignorada. A escolha não foi casual. Foi editorial.
O raio cumpriu papel simbólico involuntário: iluminou com clareza as posições da imprensa diante de fatos políticos que não se enquadram em determinadas narrativas. Ao reduzir um ato cívico a um incidente climático, a grande imprensa não apenas distorceu o acontecimento, mas revelou sua disposição em esvaziar o debate público quando este contraria seus alinhamentos.
O vilipêndio constitucional, o aprisionamento de cidadãos, a afronta ao Direito desapareceram no contexto. Foram levados na enxurrada da boçalidade midiática.
Mais grave ainda foi o tom adotado por parte de animadores de telejornais, que recorreram à ironia e ao deboche para tratar o episódio. Não se trata de humor inocente ou de leveza editorial, mas de desprezo pela inteligência do público e pela gravidade do momento institucional vivido pelo país. Quando o acessório suplanta o essencial, o jornalismo deixa de informar e passa a operar como instrumento de deslegitimação.
A imprensa livre é um pilar da democracia não por sua capacidade de entreter, mas por sua obrigação de servir à sociedade. A máxima consagrada no pensamento liberal ocidental, segundo a qual a imprensa deve servir aos governados, e não aos governantes, encontra-se hoje invertida em larga medida no Brasil. O que se vê é uma imprensa que escolhe lados, seleciona silêncios e transforma fatos em conveniências.

Esse afastamento do interesse público cobra seu preço. A confiança do cidadão nos meios de comunicação se deteriora à medida que se tornam evidentes os critérios assimétricos de cobertura. Manifestações são tratadas conforme sua utilidade política; causas são legitimadas ou ridicularizadas conforme sua adesão ao discurso dominante. O pluralismo cede lugar à homogeneização.
Não se exige da imprensa concordância com protestos ou adesão a pautas. Exige-se honestidade, proporcionalidade e compromisso com os fatos. Tratar uma manifestação política, que mobilizou voluntariamente milhares de brasileiros, como uma nota de rodapé meteorológica não é jornalismo crítico; é omissão deliberada.
O raio que caiu no domingo não separou apenas nuvens. Separou posturas, revelou alinhamentos e expôs a falência de um jornalismo que já não se constrange em abandonar sua função pública. O que se viu não foi apenas um incidente climático explorado à exaustão, mas a confirmação de que parte da imprensa brasileira perdeu o rumo, o senso de responsabilidade e o vínculo com a sociedade que deveria informar.
O raio que aparta, afinal, não caiu sobre a manifestação. Caiu sobre o jornalismo e revelou, com clareza incômoda, quem ainda serve ao público e quem já não o faz.
*Jornalista profissional diplomado, editor do portal Do Plenário, escritor, psicanalista, cientista político ocasional autoproclamado, analista sensorial, enófilo, adesguiano, consultor de conjunturas e cidadão brasileiro protegido (ou não) pela Constituição Brasileira, observador crítico da linguagem e da liberdade
NR: A expressão correta e popular é “o raio que o parta!” (ou a variante mais comum “vá para o raio que o parta!”), usada como interjeição para denotar indignação, o equivalente a “vá para o inferno”. A expressão manifesta desejo que um raio caia sobre alguém e a parta ao meio. É usada para expressar desprezo ou frustração.
No Pará, o “Raio que o parta” é um estilo arquitetônico popular que surgiu entre as décadas de 1940 e 1960 com as fachadas de casas decoradas com mosaicos feitos de cacos de azulejos coloridos, muitas vezes formando figuras geométricas que lembram raios.
O nome na arquitetura paraense se refere ao reaproveitamento de azulejos que chegavam partidos (partidos pelo “raio”/transporte) às construções locais, criando um estilo de arte popular, considerado patrimônio cultural de Belém.


