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terça-feira, maio 19, 2026

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Produtores pedem socorro

A cerca de 400 quilômetros de Porto Alegre (RS), na cidade de Pedras Altas (RS), a produtora de soja Carla Krame conta que não sabe o que irá fazer para honrar com os compromissos financeiros deste ano. Desde a safra 2022/2023, a propriedade que ela e o marido tocam vem enfrentando uma série de dificuldades.

“São vários fatores que estão agravando a nossa situação. São juros elevados, o valor [baixo] da saca, as safras frustradas, tanto por inundação como por secas. Então, são vários fatores que vieram juntos. Se fosse só um, talvez a gente ia dar uma balançada, mas iria conseguir dar a volta. A gente preza muito em ter um nome limpo, em pagar as contas, mas não está sendo fácil. Este ano é um ano que a gente não vai conseguir”, disse.

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A realidade da produtora não é isolada. O Rio Grande do Sul é um dos estados mais pressionados pelo endividamento rural, que no Brasil ultrapassou R$ 170 bilhões em janeiro deste ano, de acordo com dados da Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul (Farsul).

Carla comenta que, na temporada 2022/2023, a colheita foi de dez a 12 sacas por hectare, devido a uma estiagem prolongada na região. Desde então, a melhor colheita foi em 2024/2025, com 40 sacas por hectare. No entanto, a margem positiva dessa safra foi consumida pelas dívidas dos anos anteriores, e as perspectivas para este ano também não são boas.

“Nós ainda temos alguns dias de colheita aqui, mas será mais uma frustração de safra. Estamos fechando em torno de 25 sacas por hectare, que para nós também não paga a conta”, revelou. Sem considerar as dívidas, os custos ficam em torno de 30 sacas por hectare na propriedade de Carla. “É uma situação bem desesperadora. Meu marido e eu estamos na casa dos 50 anos e nunca na vida nós passamos por uma situação assim”, acrescentou.

Lavouras afetadas seca
Lavoura de soja afetada por seca em 2023. Imagem: Vanessa Kuntzer/Arquivo Pessoal 

Problemas do agora

Na mesma cidade de Carla, a produtora de soja Vanessa Kuntzer afirma que um dos principais problemas enfrentados pelos agricultores é a falta de recursos para pagar as dívidas que estão vencendo. No caso dela, há uma concentração de vencimentos deste ano até 2028.

“Conseguimos renegociar, mas hoje, o grande problema está no nosso fluxo de caixa. Nos anos de 2026, de 2027 e de 2028, o nosso fluxo de caixa está totalmente comprometido”, afirmou, ao defender que os prazos sejam alongados de oito a dez anos.

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A propriedade conduzida por Vanessa e pelo marido também passou por colheitas que não cobriram os custos de produção, o que levou à contratação de novos empréstimos para pagar dívidas de financiamentos anteriores.

Ela ainda lembra o caso do irmão, que também enfrenta o endividamento. “Um banco ofereceu como alternativa para ele um tipo de crédito pessoal com uma taxa de 76% ao ano. Tu tem noção do que é isso?”, questionou.

Vanessa também relata a dificuldade dos produtores que desejam investir em alternativas para enfrentar as secas frequentes. Apesar da intenção, os juros atuais impedem a viabilização de novos projetos.

“A gente vê a necessidade de colocar aqui [na propriedade] uma irrigação. Já temos um projeto pronto. Porém, hoje o que nos segura? A taxa de juros e a questão do crédito. Então, se agora eu conseguir uma irrigação, o financiamento será a juros muito caros. Mesmo que eu tenha uma produção alta por ter a irrigação, eu não vou conseguir gerar caixa suficiente para pagar todas as minhas contas”, pontuou.

Vende-se

Soja danificada
Soja com avarias devida a seca na safra 2022/2023. Imagem: Carla Krame/Arquivo Pessoal

Diante do endividamento e sem respaldo nas colheitas, a solução encontrada por Vanessa e Carla foi vender parte do patrimônio. Ambas venderam maquinários novos para ajudar no pagamento das pendências. Carla conta ainda que parte da propriedade também está sendo avaliada para venda, mas há o risco de não encontrar comprador.

“Nós estamos tendo que vender as nossas coisas, mas só que chega um momento que todo produtor está endividado. E aí, quem vai comprar? Não tem nem comprador mais”, disse.

A reorganização do negócio também foi outra medida adotada pelas produtoras e suas famílias. Outras culturas passaram a ter mais peso na composição da renda das propriedades, como trigo, aveia, arroz e canola. No caso de Vanessa, desde o início da crise, a alternativa também incluiu a criação de gado.

“Quando a gente teve a primeira seca, a gente introduziu a pecuária. A gente entendeu que o ideal seria para cada hectare de soja a gente ter uma cabeça de gado, como uma forma de seguro. Isso se usa muito aqui. Mas ainda não estamos com a quantidade que a gente gostaria”, destacou.

Além disso, a produtora tem feito negociações diretamente com parceiros e fornecedores, por meio de Cédulas de Produto Rural (CPRs). O objetivo é reduzir os juros e a dependência de bancos e financeiras para viabilizar o plantio. Mesmo assim, o volume ainda é insuficiente. “Este ano a gente vai ter que pegar mais um custeio pecuário para ajudar no fluxo, mas a ideia é sair ao máximo de bancos”, disse Vanessa.

Luz no fim do túnel

Lavoura de soja alagada
Lavoura de soja após inundações de 2024. Vanessa Kuntzer/Arquivo Pessoal 

O Projeto de Lei 5.122/2023 é visto pelos produtores como uma possível “luz no fim do túnel”. A proposta traz mecanismos para que o produtor consiga repactuar dívidas em condições mais acessíveis.

“Esse PL [projeto de lei] é um alento. Eu tenho muita fé nesse projeto, que a coisa vai andar, vai mudar, porque não pode continuar desse jeito”, afirmou Carla.

Carla e Vanessa relataram ainda que acompanharão as próximas etapas do projeto. A proposta legislativa tem previsão de ser votada nesta terça-feira (19) na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado. Depois, a matéria segue para o Plenário da Casa e, em seguida, retorna para a Câmara dos Deputados.

A Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) tem se mobilizado para que o projeto esteja em vigor antes do lançamento do próximo Plano Safra.

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