Marcos Machado
Parece brincadeira, mas não é: Congresso aprova “Dia Nacional da Axé-Music”, e a Presidência sanciona, enquanto o país afunda em crise educacional e jurídica.
Em um país marcado por retrocessos significativos quanto à ordem democrática e estado de direito, onde o analfabetismo funcional avança na contramão do resto do mundo civilizado, e metade da população adulta tem dificuldades para interpretar um simples parágrafo; e onde cidadãos permanecem presos sob acusações questionadas publicamente com base em diálogos vazados pelo WhatsApp, o Congresso Nacional julga essencial criar mais um dia comemorativo: o Dia Nacional da Axé-Music.

Sancionada pelo presidente da república e publicada no Diário Oficial da União na quinta-feira (7), a nova Lei nº 15.189 estabelece o dia 17 de fevereiro como a data oficial para celebrar o gênero musical baiano que embalou os carnavais dos anos 1980 e 1990. A proposta partiu da deputada federal Lídice da Mata (PSB-BA) e contou com parecer favorável da senadora Augusta Brito (PT-CE), sendo aprovada sem maiores resistências no Senado.
Segundo a justificativa do projeto, o dia remete ao domingo de carnaval de 1985, quando o axé despontou nacionalmente. É verdade que o axé representa uma importante expressão do entretenimento afro-brasileiro, misturando elementos de samba-reggae, ijexá, frevo e outros ritmos populares, mas seria essa a prioridade do país?
Num momento em que o Brasil ocupa as últimas posições nos rankings internacionais de alfabetização e desempenho escolar; em que o sistema judiciário sofre descrédito crescente por manter presos cidadãos cuja inocência é debatida à luz de informações ignoradas pelas instâncias formais; e em que o Estado se mostra cada vez mais ineficiente para lidar com questões estruturais como saúde, segurança e mobilidade urbana, legislar sobre um “Dia da Axé-Music” beira o deboche.
Mais uma vez, a máquina pública revela sua vocação para o espetáculo inútil. Ao invés de discutir soluções concretas para o analfabetismo funcional, a evasão escolar, o déficit de professores e a judicialização da política, o Parlamento escolhe produzir leis simbólicas, de apelo populista e impacto zero na vida prática dos cidadãos.

Essa decisão legislativa escancara a alienação de parte da classe política, que parece viver em um país paralelo, onde entretenimento pop e marketing identitário ocupam mais espaço que alfabetização básica, segurança jurídica e racionalidade institucional.
Não se trata de demonizar o axé-music, mas é sintomático que, diante de um Brasil em frangalhos, o Congresso e a Presidência da República encontrem tempo, empenho e articulação para discutir… um dia comemorativo do nada, para coisa nenhuma.
Enquanto isso, o país real segue sem data para sair do atoleiro.
Cadê o tal meteoro, gente?
*Jornalista profissional diplomado, editor do portal Do Plenário, escritor, psicanalista, cientista político ocasional autoproclamado, analista sensorial, enófilo, adesguiano, consultor de conjunturas e cidadão brasileiro protegido (ou não) pela Constituição Brasileira, observador crítico da linguagem e da liberdade


