Marcos Machado
Hoje em dia qualquer feito é classificado como “lendário” e qualquer figura popular se transforma instantaneamente em “ícone” e, com a maior naturalidade, a palavra “gênio” acaba capturada por esse desfile de exageros. A última vez em que me deparei com esse abuso semântico foi em uma apresentação em um canal alternativo na internet, dedicado ao futebol. Foi por acaso, pois sequer gosto de futebol e não assisto a jogos, nem mesmo da tal seleção.
Ao narrar um naco de vídeo em que um famoso jogador fez um malabarismo com a bola nos pés, o apresentador, nitidamente também proprietário do canal, comentou com entusiasmo pueril: “Todo mundo sabe que ‘fulano’ é um gênio!”

Diante da frase, fiz uma breve intervenção na área dos comentários, relembrando o significado real do termo. Como era de se esperar, não fui bem recebido. O ambiente, moldado para a idolatria descompromissada, não está preparado para a precisão conceitual.
O problema vai além do exagero ocasional. Atribuir o título de “gênio” a um boleiro é ignorar que essa palavra carrega um peso histórico e intelectual. Gênio é quem possui uma capacidade mental excepcional, frequentemente medida por um QI acima de 140. Desconheço o registro deste atributo a algum desses corredores e chutadores de bola. Esclareço: nada tenho contra eles ou seus seguidores, como também em relação aos tais clubes e seus associados. Afinal, cada qual se aninha aonde se sente familiarizado.
Vamos aos fatos: gênios são figuras como Alan Turing, que decifrou os códigos de guerra alemães e pavimentou a estrada da computação moderna. São como Srinivasa Ramanujan, que, mesmo sem formação acadêmica formal, provocou espanto nos matemáticos de Cambridge com suas fórmulas intuitivas e profundas. Juntem-se a eles tantos outros devidamente listados nos anais da história, o que é dispensável relacionar, agora. Nenhum deles foi visto, até onde se sabe, correndo atrás de uma bola em um estádio.

Não se trata de menosprezar o talento malabarístico de um jogador. Existem adjetivos mais apropriados para ele: habilidoso, ágil, criativo, até mesmo malabarista dos pés, mas chamar um atleta de “gênio” é não apenas inapropriado, é uma afronta ao verdadeiro significado da palavra e ao legado daqueles que realmente a encarnaram.
Esse fenômeno não é isolado. No vocabulário midiático atual, tudo é espetacular. Um café bem tirado vira “arte”. Um meme viral torna-se “obra-prima”. A simplificação da linguagem promovida por essa inflação semântica é reflexo da superficialidade cultural.
Precisamos recuperar o peso das palavras. Elas importam. Gênio não pode ser sinônimo de chutador de bola. Quando tudo é genial, nada é. A linguagem agradece quando a precisão volta a ocupar o lugar da conveniência e a inteligência coletiva, também.
*Jornalista profissional diplomado, editor do portal Do Plenário, escritor, psicanalista, cientista político ocasional autoproclamado, analista sensorial, enófilo, adesguiano, consultor de conjunturas e cidadão brasileiro protegido (ou não) pela Constituição Brasileira, observador crítico da linguagem e da liberdade


