*Marcos Machado
Quando eu era criança, e depois pré-adolescente, passava férias na casa dos meus avós no interior de Minas, ali em Recreio, na Zona da Mata. Era um tempo de convivência com meus primos e amigos de infância, relação que perdura até hoje. Criança criada em cidade grande (Rio de Janeiro) quando ia pra roça… Meu tio João, que morava lá, tinha uma expressão de advertência, a mim e a toda a molecada envolvida em alguma “arte”, popularmente chamada de “cagada”. A gente era chamado pelo “tijão” de “estrupício”. Ele era enfático nos puxões de orelhas: “não faça isso, estrupício!” “Pare com isso, estrupício!”, como que educadamente avisasse “vai dar merda!”. E quase sempre dava.
Na tradição filosófica, o ridículo sempre foi visto como o palco onde se desenrola a tragédia da ignorância voluntária. Quando Aristóteles afirmava que “todos os homens têm, por natureza, o desejo de saber”, certamente não previa o surgimento de personagens públicos que fariam questão de contrariar essa tendência natural da razão. Há, no Brasil contemporâneo, um exemplar em vias de fossilização: o energúmeno boçal que acredita que suas bravatas ainda divertem alguém, embora nem mesmo o grupo orbital mais próximo consiga esboçar um sorriso.

Dotado de um repertório linguístico que beira o grotesco e de uma retórica ancorada na violência simbólica e literal, ele se sustenta num teatro obsoleto, feito de gritos, copos de cerveja e pancadas na mesa. Julga-se estrategista internacional enquanto mal compreende a diferença entre um tratado diplomático e um churrasco de domingo. De relações exteriores, entende tanto quanto de filosofia: nada. Para ele, a política se resolve com tapas nas costas e desaforos entre goles, como se a arena global fosse uma mesa de truco em botequim.
Seu orgulho mais proclamado? Nunca ter lido um livro. Como dizia Umberto Eco, “as redes sociais deram voz a uma legião de imbecis”, e esse personagem é o patrono-mor dessa nova era de ruído digital. Ele se vê como gênio incompreendido, quando na verdade encarna o anti-intelectualismo como método e o obscurantismo como virtude. Trata-se do delírio megalomaníaco típico de quem confunde ignorância com autenticidade. Se fosse só nas redes… O problema é quando o estrupício sai delas para a vida pública.
“O ignorante afirma, o sábio duvida, o sensato reflete”, dizia Aristóteles, mas o nosso personagem não duvida de nada, apenas afirma, mas ninguém mais acredita. Mesmo aqueles que um dia se deixaram seduzir pela retórica do ódio agora desviam o olhar, constrangidos. O palhaço virou vilão, e o show perdeu o público.

Encanta, ainda, uma parcela diminuta da população: os órfãos ideológicos de um passado mal digerido, aqueles que se empolgam com palavras de ordem vazias e continuam presos ao congelador dos anos 1970. Esses são os poucos que ainda se impressionam com o “estrupício”, na melhor definição mineira: aquele sujeito desajeitado, inconveniente, que chega sem ser chamado, é gentilmente convidado a se retirar, mas faz questão de ficar.
O tempo é implacável com a farsa. Mesmo as encenações mais bem ensaiadas se esgotam. A história não será gentil com quem debochou da inteligência coletiva. Como dizia Schopenhauer, “toda verdade passa por três estágios: primeiro, é ridicularizada; depois, violentamente combatida; por fim, aceita como evidente”. Estamos, talvez, no fim do segundo estágio: o combate ao delírio e, quando a verdade se impuser, restará apenas o silêncio desconfortável de quem, no fundo, sempre soube, mas preferiu rir.
Talvez faltem mais “tios João”, quem sabe mais puxões de orelhas.
*Jornalista profissional diplomado, editor do portal Do Plenário, escritor, psicanalista, cientista político ocasional autoproclamado, analista sensorial, enófilo, adesguiano, consultor de conjunturas e cidadão brasileiro protegido (ou não) pela Constituição Brasileira, observador crítico da linguagem e da liberdade


