22.5 C
Brasília
quinta-feira, março 12, 2026

ANUNCIE

A cobra fumou!

Marcos Machado

PATCH BORDADO FEB FORÇA EXPEDICIONÁRIA BRASILEIRA OFICIALEm 21 de fevereiro de 1945, há exatos 81 anos, a Força Expedicionária Brasileira cravou seu nome na história ao conquistar Monte Castelo, posição estratégica nos Apeninos italianos que resistira a sucessivas tentativas aliadas. A tomada do monte, após meses de investidas frustradas sob frio intenso, terreno íngreme e fogo inimigo cerrado, tornou-se o símbolo maior da participação do Brasil na Segunda Guerra Mundial. Foi o dia em que a cobra fumou, e não era metáfora publicitária.

O Brasil declarou guerra às potências do Eixo em 1942, após sucessivos ataques de submarinos alemães a navios mercantes brasileiros. Em 1944, começaram a desembarcar na Itália os primeiros contingentes da Força Expedicionária Brasileira, a FEB, integrando o V Exército dos Estados Unidos. Foram enviados 25.300 homens ao front europeu. Destes, 465 morreram em combate e dezenas ficaram desaparecidos ou foram feitos prisioneiros. Números modestos diante das grandes potências, mas imensos para um país sem tradição recente de guerras externas e com limitações evidentes de equipamento, preparo e logística.

Ponto conquistado nos Apeninos defendido pela FEB com metralhadoras – Associação dos Ex-Combatentes do Brasil

Os pracinhas enfrentaram dificuldades que hoje soariam inaceitáveis em relatórios técnicos. Muitos embarcaram com treinamento acelerado, uniformes inadequados para o inverno europeu e armamentos que dependiam da padronização americana. Aprenderam a operar em terreno montanhoso sob neve e bombardeio praticamente na marra. Ainda assim, combateram tropas experientes da Wehrmacht alemã, entrincheiradas em posições elevadas e fortificadas. Monte Castelo, defendido por unidades alemãs integradas à Linha Gótica, era um desses bastiões.

CLIQUE AQUI

As primeiras tentativas de tomada, em novembro e dezembro de 1944, fracassaram sob condições climáticas severas e resistência feroz. A crítica foi dura, interna e externamente. Houve quem duvidasse da capacidade combativa dos brasileiros. A resposta veio em 21 de fevereiro de 1945. Após coordenação mais eficaz com a artilharia aliada e melhor planejamento tático, as tropas da FEB avançaram, venceram a resistência e consolidaram a posição. Monte Castelo caiu. A cobra fumou.

A expressão vinha de um dito popular segundo o qual seria mais fácil uma cobra fumar do que o Brasil entrar na guerra. Entrou. Lutou. Morreu gente. E venceu batalhas. Depois de Monte Castelo, vieram outras conquistas importantes, como Montese e a rendição de milhares de soldados alemães e italianos às forças brasileiras. Ao fim do conflito, os pracinhas regressaram a um país que os recebeu com festas, mas que logo tratou de arquivar sua memória em cerimônias protocolares e livros de história pouco lidos.

É impossível não recordar aquele tempo como uma era em que homens, com todas as suas limitações humanas, vestiam a farda com senso de dever, honra e compromisso com a nação. Não havia discurso identitário sofisticado, nem manuais de comunicação inclusiva nas trincheiras geladas dos Apeninos. Havia jovens arrancados de diferentes regiões do Brasil, muitos de origem humilde, enfrentando uma guerra real contra um regime totalitário.

Soldados da FEB comemoram o 7 de setembro na Itália, em 1944 Wikimedia Commons

Hoje, a simbólica cobra da FEB parece ter sido domesticada pelo vocabulário do politicamente correto. Já não sibila, e certamente não fuma. Está quase aderindo a um cardápio vegano, tamanha a distância entre o espírito combativo de 1945 e a retórica pasteurizada dos tempos atuais. A ironia é inevitável: homens que mal tinham botas adequadas enfrentaram metralhadoras e morte; nós, com todo o conforto tecnológico e institucional, trememos diante de hashtags.

Monte Castelo não foi apenas uma vitória militar. Foi a prova de que o Brasil, quando convocado pela História, foi capaz de responder com coragem. Os 465 mortos da FEB, hoje sepultados no Monumento Nacional aos Mortos da Segunda Guerra Mundial, no Rio de Janeiro, não eram personagens de discurso, mas de carne, osso e convicção. Lutaram contra a tirania na Europa em nome de um ideal de liberdade que também dizia respeito ao Brasil.

Convém lembrar disso a cada 21 de fevereiro. Nem para mitificar o passado, nem para desmerecer o presente, mas para reconhecer que houve um tempo em que a cobra fumou de verdade, e não precisava de autorização semântica para fazê-lo.

*Jornalista profissional diplomado, editor do portal Do Plenário, escritor, psicanalista, cientista político ocasional autoproclamado, analista sensorial, enófilo, adesguiano, consultor de conjunturas e cidadão brasileiro protegido (ou não) pela Constituição Brasileira, observador crítico da linguagem e da liberdade

 

relacionados

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Fique conectado

667FãsCurtir
756SeguidoresSeguir
338SeguidoresSeguir
- Publicidade -spot_img

Últimos artigos