O Instituto Ipsos divulgou os resultados do Digital News Report 2023, levantamento realizado em parceria com o Reuters Institute for the Study of Journalism, ligado à Universidade de Oxford, em junho daquele ano. O estudo mostrou um quadro preocupante para a imprensa tradicional brasileira: a confiança do público nos grandes veículos seguia em trajetória de desgaste contínuo, fenômeno que relatórios posteriores, de 2024 e 2025, confirmaram como estrutural e persistente. Ou seja, a credibilidade na imprensa não aumentou, manteve trajetória de queda. Esta transformação social é abordada no livro Monopólio da verdade.

Os dados mostram que o ceticismo em relação às motivações políticas e financeiras dos meios de comunicação se consolidou como um dos principais fatores da crise de credibilidade. O público demonstra crescente desconfiança diante de coberturas marcadas por excesso de dramatização, exploração emocional de fatos cotidianos e transformação de episódios secundários em grandes espetáculos midiáticos, além da tentativa de manipular a opinião pública contra determinados segmentos a fim de abafar escândalos vinculados a outros. Em vez de informação objetiva, muitos consumidores afirmam perceber uma tentativa permanente de indução narrativa política e ideológica.
O relatório apontou que apenas cerca de um quarto dos brasileiros declara confiar na maior parte das notícias na maior parte do tempo, índice compatível com o patamar de aproximadamente 25% registrado nos levantamentos recentes. O Brasil permanece entre os países onde a percepção de parcialidade da imprensa é mais elevada entre os entrevistados.
Como consequência direta desse desgaste, cresce o fenômeno conhecido como news avoidance — a evasão deliberada do noticiário. Segundo os relatórios mais recentes do Reuters Institute, 47% dos brasileiros afirmam evitar notícias com frequência ou ocasionalmente. O motivo principal não é desinformação ou desinteresse cívico, mas o esgotamento provocado por uma cobertura considerada excessivamente negativa, repetitiva e sensacionalista, além da abordagem distorcida de fatos e politicamente tendenciosa.
A população demonstra fadiga diante de manchetes construídas para provocar medo, indignação permanente, ansiedade coletiva e desconstrução moral de personalidades políticas. Previsões alarmistas tratadas como certezas e disputas políticas convertidas em guerra emocional passaram a produzir efeito contrário ao desejado: afastam o público em vez de aproximá-lo. Ou seja, aquele bordão está mais atual do que nunca: o povo não é bobo!
Esse cenário impulsiona a migração para plataformas digitais e produtores independentes de conteúdo. O consumo de notícias por meios tradicionais segue em queda acentuada. Os jornais impressos, por exemplo, atingiram níveis historicamente baixos de alcance no país (10%), enquanto redes sociais, aplicativos de mensagens e plataformas de vídeo assumem papel central na formação de opinião.
Hoje, milhões de brasileiros recorrem prioritariamente ao WhatsApp, ao Instagram, ao YouTube e ao TikTok para acompanhar acontecimentos diários. Os relatórios apontam que WhatsApp e Instagram figuram entre as principais fontes semanais de informação no Brasil, especialmente entre os mais jovens.

O Reuters Institute também identificou o Brasil como um dos mercados mais influenciados por criadores independentes de conteúdo jornalístico e comentaristas digitais. Para parcelas crescentes da população, esses comunicadores aparentam transmitir maior autenticidade do que veículos tradicionais frequentemente associados a alinhamentos políticos ou agendas institucionais.
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Isso não significa, necessariamente, que o público passou a acreditar em qualquer conteúdo alternativo sem critério. A circunstância revela algo mais profundo: a erosão da autoridade automática antes atribuída à grande imprensa. O cidadão comum se tornou mais desconfiado, mais seletivo, menos disposto a aceitar narrativas prontas apenas porque foram publicadas por um grande conglomerado de mídia.
As razões mais citadas para esse afastamento incluem a percepção de manipulação dos fatos com viés da militância e uso político das redações. Parte significativa dos entrevistados acredita que jornalistas frequentemente tentam influenciar a opinião pública conforme preferências ideológicas, substituindo a apuração rigorosa pela defesa implícita de determinadas agendas.
A crise atual, como é explicado no livro Monopólio da verdade, não se resume à concorrência das redes sociais ou ao avanço tecnológico, mas de uma ruptura de confiança construída ao longo de anos de coberturas consideradas exageradas e tendenciosas. O público não deixou de consumir informação; apenas passou a questionar mais intensamente quem a produz, como a produz, com quais interesses ela é apresentada e quem paga.



