
Em 2010, um salário de R$ 7 mil colocava o trabalhador brasileiro em um patamar confortável da chamada classe média: dava para pagar aluguel ou a parcela da casa própria, manter um carro, custear a escola dos filhos e ainda reservar algum dinheiro para lazer e consumo. Quinze anos depois, o mesmo padrão de vida exige cerca de R$ 12,4 mil, considerando apenas a correção pela inflação oficial. Se levarmos em conta o aumento real dos custos de moradia, educação e saúde, que subiram muito acima da média, o valor se aproxima de R$ 16,5 mil.
A inflação acumulada de 2010 a 2025, medida pelo IPCA, é de aproximadamente 77,5%, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística-IBGE. Isso significa que um produto que custava R$ 100 há 15 anos hoje sai por quase R$ 180. Aplicando o mesmo raciocínio ao salário, os R$ 7 mil de 2010 equivaleriam a R$ 12.425 em valores atuais. Em tese, esse seria o reajuste mínimo para manter o poder de compra. Mas a realidade é bem diferente: o rendimento médio do trabalhador brasileiro, em 2024, foi de apenas R$ 3.057, ainda muito distante de acompanhar a escalada dos preços.
O problema é que a inflação não atinge todos de forma igual. Para quem vive nas grandes cidades, o custo da chamada “vida de classe média” disparou. Aluguel, mensalidades escolares, planos de saúde e transporte cresceram muito acima da inflação oficial. Ou seja, mesmo com a correção do IPCA, o orçamento de quem tinha conforto em 2010 hoje não fecha. A escola particular ficou mais cara, o plano de saúde pesa no bolso e o supermercado consome uma fatia cada vez maior da renda.

O resultado é um fenômeno silencioso: a erosão do poder aquisitivo e o achatamento da classe média. Muitos brasileiros que antes tinham renda suficiente para viver com alguma folga agora se veem forçados a cortar gastos e rebaixar padrões de consumo. A mesma renda que antes garantia estabilidade hoje apenas cobre o básico.
Há quem veja nesse processo mais do que um simples efeito econômico. Para alguns analistas, trata-se de uma estratégia ideológica de nivelamento social por baixo, em que a estagnação salarial e a tolerância à inflação funcionam como mecanismos de controle. A lógica é simples: uma sociedade empobrecida e financeiramente exausta questiona menos, consome o que pode e aceita o que lhe é dado.
Enquanto o discurso oficial celebra índices de desemprego menores e o “crescimento” do mercado de trabalho formal, os números do seguro-desemprego, das falências e do endividamento mostram outra realidade, pois só aumentam, indo na contramão do discurso político oficial. O brasileiro trabalha mais, ganha proporcionalmente menos e vê seu padrão de vida escorrer por entre os dedos.
O que antes definia a classe média, o acesso à educação, à moradia, à segurança e à estabilidade, tornou-se um privilégio. Esse é o retrato mais cruel da economia brasileira contemporânea: um país onde as estatísticas tentam provar que melhoramos, mas o bolso do cidadão revela que estamos, na prática, ficando mais pobres juntos.


