Marcos Machado

A frase vinha acompanhada do tilintar de gelo no copo e de um olhar enviesado, típico de quem confessa o erro com a tranquilidade de quem sabe que não haverá consequência. Era o chacoalhar da “cascavel”. Assim era Tavares, personagem criado e interpretado por Chico Anysio, eternizado em programas de humor da tevê brasileira. No quadro, Tavares era o retrato acabado do malandro alcoólatra, preguiçoso e explorador, que vivia às custas da esposa e do sogro, mentia com naturalidade e ainda terminava as armações com um bordão cínico: “Certo, Biscoito?”.
A genialidade do humor estava justamente na caricatura reconhecível. Tavares não era apenas um canalha doméstico; era a personificação da irresponsabilidade crônica com imagem de charme. Prometia mudar, jurava fidelidade, garantia que daquela vez seria diferente. No dia seguinte, repetia o roteiro: mais uma mentira, mais uma saída furtiva, mais uma conta paga por outros. E sempre havia quem bancasse.
Biscoito, vivida por Zezé Macedo, completava o quadro com sua mistura de ingenuidade e conveniência. Sabia que estava sendo enganada, percebia o cheiro de uísque, ouvia as histórias mal contadas, mas preferia acreditar. Não por ignorância pura, mas porque a verdade exigiria ruptura, e romper dá trabalho. Era mais confortável aceitar a versão fantasiosa do marido do que enfrentar a realidade. No fundo, havia ali uma espécie de pacto silencioso: ele mentia, ela fingia acreditar, e a farsa seguia funcionando. De nada adiantavam os avisos do pai, o sogro explorado pelo beberrão.
Havia ainda Juraci, orbitando o casal, participando da dinâmica doméstica e servindo, em certa medida, como cúmplice. Não confrontava o malandro; ao contrário, ajudava a manter a engrenagem girando. Cada qual encontrava seu pequeno benefício na manutenção da mentira.

Décadas depois, a comédia parece menos distante da vida pública. A analogia é inevitável. O Tavares da ficção encontra reflexo em figuras que prometem responsabilidade enquanto acumulam déficits, que discursam sobre austeridade enquanto ampliam gastos, que asseguram transparência enquanto multiplicam versões contraditórias. Quando confrontados, respondem com a naturalidade de quem já normalizou o erro: “Sou, mas quem não é?”. A falha deixa de ser exceção e vira regra compartilhada; logo, justificável.
Biscoito, por sua vez, não é apenas uma personagem. É também o retrato de parcelas da sociedade que, diante de promessas descumpridas e evidências incômodas, optam por manter a crença. Sabem que há inconsistências, percebem os sinais, mas preferem a narrativa reconfortante. Admitir o engano implicaria reconhecer que se foi ludibriado, e isso fere o orgulho, exige revisão de convicções, cobra maturidade cívica. É mais simples repetir o bordão e seguir adiante.
E Juraci? Ela simboliza os setores que, mesmo percebendo o jogo, encontram vantagem na sua continuidade. Podem ser grupos que orbitam o poder, estruturas que dependem do gasto fácil, atores que prosperam na opacidade. Não precisam acreditar na história; basta que ela continue sendo contada.
A força do humor de Chico Anysio estava em desnudar vícios sociais sem precisar apontar nomes. Tavares era exagerado, mas não era improvável. Sua malandragem não sobreviveria sem a complacência de Biscoito nem sem a conivência de Juraci. Do mesmo modo, a degradação política não é obra solitária de um protagonista astuto; ela se sustenta numa rede de tolerâncias, interesses e autoenganos.
No palco, o público ria porque reconhecia o tipo. Fora dele, a repetição do enredo já não provoca gargalhadas, mas cansaço. A pergunta que fica é se continuaremos a aceitar o tilintar do gelo, ou “chacoalhar da cascavel” como trilha sonora permanente da vida pública, respondendo mecanicamente ao velho refrão: “Certo, Biscoito?” Ou se, enfim, alguém decidirá quebrar o copo.
O bordão “sou, mas quem não é?” que encerrava o quadro intuía a certeza da cumplicidade, também, do espectador comum, e qualquer semelhança não é mera coincidência…
Certo, Biscoito?
Outro personagem, o Justo Veríssimo, será abordado futuramente… Na época de sua criação, era, ainda deputado, mas esta é outra história.
*Jornalista profissional diplomado, editor do portal Do Plenário, escritor, psicanalista, cientista político ocasional autoproclamado, analista sensorial, enófilo, adesguiano, consultor de conjunturas e cidadão brasileiro protegido (ou não) pela Constituição Brasileira, observador crítico da linguagem e da liberdade


