
O Ministério Público Federal em Minas Gerais moveu uma ação civil pública contra a TV Globo sob a acusação de erro recorrente na pronúncia da palavra “recorde”. A iniciativa, divulgada em 19 de fevereiro de 2026, pode parecer pitoresca à primeira vista, mas revela um debate mais profundo sobre o papel das concessionárias públicas de televisão na preservação do patrimônio cultural imaterial brasileiro, o idioma. No centro da controvérsia está a forma como apresentadores e narradores vêm pronunciando o termo como “récorde”, com acento tônico na antepenúltima sílaba, quando, segundo a norma culta da língua portuguesa, a pronúncia correta é “recórde”, paroxítona.
O autor da ação, o procurador da República Cléber Eustáquio Neves, sustenta que a emissora, ao repetir sistematicamente a forma considerada inadequada em telejornais e transmissões esportivas, induz milhões de brasileiros ao erro, violando o dever educativo inerente à concessão pública de radiodifusão. O MPF pede indenização de R$ 10 milhões por dano moral coletivo e requer, em caráter de urgência, que a emissora adote a pronúncia correta em sua programação. A Globo informou, por meio de nota, que não comenta processos em andamento.
Analfabetos
O episódio ganha dimensão maior quando inserido no contexto educacional do país. Dados do Indicador de Alfabetismo Funcional, o INAF, apontam que apenas cerca de 10% da população brasileira pode ser considerada plenamente alfabetizada. Trata-se de uma estatística alarmante. Em um país onde nove em cada dez cidadãos não dominam plenamente as competências de leitura e escrita, a influência dos meios de comunicação de massa se torna ainda mais decisiva na formação linguística cotidiana. A televisão aberta continua sendo uma das principais fontes de informação e referência cultural para milhões de brasileiros.
Some-se a isso outro dado preocupante: estimativas apontam que o QI médio do brasileiro estaria cerca de 20 pontos abaixo da média mundial. Independentemente das controvérsias metodológicas que cercam comparações internacionais desse tipo, o fato é que os indicadores educacionais brasileiros permanecem entre os mais baixos das principais economias do mundo. Diante desse cenário, a discussão sobre prosódia deixa de ser mero preciosismo gramatical e passa a integrar um quadro mais amplo de fragilidade educacional.
Método

A preocupação com a degradação do idioma não é recente. No livro Quem Matou o Português, o jornalista Marcos Machado argumenta que há um processo sistemático de empobrecimento linguístico em curso, impulsionado por metodologias educacionais permissivas, flexibilizações normativas e pela relativização constante da norma culta nos ambientes escolares e culturais. O autor sustenta que a deterioração da linguagem compromete não apenas a comunicação, mas a própria capacidade de raciocínio abstrato e de organização do pensamento.
Críticos da ação do MPF afirmam que a língua é viva e que variações de pronúncia fazem parte de sua dinâmica natural. Defensores da medida, por outro lado, argumentam que há diferença entre evolução orgânica e descuido institucionalizado, especialmente quando se trata de veículos que operam sob concessão pública e alcançam audiência nacional. Neste caso, trata-se de indução ao erro, e não evolução orgânica. A discussão ultrapassa a palavra “recorde” e alcança um fenômeno mais amplo, visível em produções teatrais, cinematográficas e até mesmo em programas jornalísticos, nos quais erros de conjugação verbal, concordância e acentuação se tornaram frequentes.
Identidade
A língua é um dos pilares da identidade nacional. Ela organiza a memória coletiva, sustenta a literatura, a legislação e o debate público. Quando os principais veículos de comunicação deixam de observar o padrão formal, em um contexto de baixa proficiência geral, o efeito multiplicador pode ser significativo. A ação do MPF, portanto, sinaliza uma tentativa de afirmar que a responsabilidade cultural acompanha a concessão pública.
Se confirmada a disposição do Ministério Público de enfrentar o tema de maneira sistemática, o trabalho será extenso. A degradação linguística não se limita a um único termo nem a uma única emissora. Ela perpassa currículos escolares, produções culturais e práticas midiáticas consolidadas. O caso da pronúncia de “recorde” pode ser apenas o primeiro de uma série de embates sobre o papel do Estado, da mídia e da educação na preservação da língua portuguesa.
Em um país em que apenas uma minoria domina plenamente a leitura e a escrita, a discussão sobre prosódia deixa de ser detalhe técnico e passa a ser sintoma de um problema estrutural. O debate que se abre não é apenas jurídico, mas cultural e educacional. A questão central é se o Brasil tratará sua língua como patrimônio a ser protegido ou como elemento secundário em meio à crise mais ampla de formação intelectual.


