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segunda-feira, abril 20, 2026

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Realidade brasileira contraria o otimismo do FMI

Marcos Machado

Você sabia que quase 30% dos empregados das empresas são analfabetos funcionais, incapazes de entender instruções escritas ou escrevê-las?

O mais recente relatório do Fundo Monetário Internacional (FMI) sobre o Brasil traz uma narrativa que, embora otimista sob a ótica dos mercados, colide frontalmente com a realidade social visível no país. O organismo celebra o “forte desempenho” da economia brasileira e a “resiliência macroeconômica” dos últimos anos, projetando para 2025 um crescimento moderado, de 2,3%. No entanto, esse retrato técnico e polido ignora o outro lado da moeda: o empobrecimento progressivo da população, o aumento da informalidade, o endividamento recorde das famílias e a expansão dos programas assistenciais; sintomas claros de que o crescimento medido nas planilhas não tem chegado ao cotidiano da maioria dos brasileiros.

Enquanto o FMI destaca a “redução da pobreza” e o “avanço estrutural” da economia, os indicadores sociais contam uma história bem diferente. O número de pessoas em situação de rua praticamente triplicou na última década, ultrapassando 280 mil cidadãos, segundo dados de 2024. O endividamento familiar alcança níveis históricos: mais de 80% das famílias têm algum tipo de dívida, e cerca de um terço delas não tem como pagar as contas. A inflação dos alimentos segue pressionando o orçamento doméstico, corroendo o poder de compra principalmente das classes mais baixas, que gastam boa parte da renda apenas com alimentação.

No Brasil, entre três pessoas, uma é analfabeta funcional. Você sabia que o QI do brasileiro está abaixo da média mundial?

O contraste entre o discurso internacional e a realidade doméstica é flagrante. A renda média real do trabalhador brasileiro permanece praticamente estagnada desde 2014, e o emprego que cresce é o informal, precário, de baixa remuneração e sem proteção social. Mesmo com a taxa oficial de desemprego em queda (dado que se opõe a outros índices), há milhões de brasileiros em subocupações ou fora do mercado formal. Esse cenário de vulnerabilidade é compensado por uma rede crescente de programas sociais: o Bolsa Família, por exemplo, voltou a atender mais de 21 milhões de famílias, um recorde histórico que, embora evite tragédias maiores, também evidencia a fragilidade estrutural da economia e a incapacidade de gerar prosperidade por meio do trabalho e da produção.

O FMI, porém, raramente olha para esse quadro com profundidade. Seus relatórios priorizam variáveis fiscais, metas de inflação e estabilidade de mercados, elementos importantes, mas insuficientes para definir a saúde real de uma nação. A instituição costuma medir o sucesso econômico pelo equilíbrio das contas públicas, e não pela redução da desigualdade ou pela melhoria das condições de vida. Aliás, não dá para entender como as atuais contas possam desenhar um quadro otimista para o país, na visão distorcida e míope do Fundo.

Assim, o mesmo país que o FMI descreve como “estável e em crescimento” é o que enfrenta aumento de barracas nas ruas, filas em abrigos e uma geração inteira marcada pela precarização do trabalho e da renda.

Essa desconexão não é nova, nem exclusiva do Brasil. É parte de uma visão de mundo que transforma o bem-estar social em apêndice da política econômica, e não em seu objetivo. O otimismo dos organismos multilaterais costuma refletir mais o conforto dos investidores do que a realidade dos cidadãos. No papel, o Brasil avança; na prática, anda de lado e dá passos para trás. O país cresce em porcentagens, mas encolhe em perspectivas.

O contraste entre a euforia dos relatórios e o desalento das ruas revela mais do que um erro de diagnóstico: mostra uma cegueira institucional, alimentada pela crença de que estabilidade fiscal (que sequer existe no nosso caso) basta para garantir desenvolvimento humano. Não basta. O Brasil de 2025 pode até caber nas planilhas do FMI, mas está cada vez mais difícil de caber na vida dos brasileiros.

*Jornalista profissional diplomado, editor do portal Do Plenário, escritor, psicanalista, cientista político ocasional autoproclamado, analista sensorial, enófilo, adesguiano, consultor de conjunturas e cidadão brasileiro protegido (ou não) pela Constituição Brasileira, observador crítico da linguagem e da liberdade

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